13 novembro 2018

A união com Cristo na morte e na vida



"O que é o baptismo?
 O baptismo é a lavagem com água, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

 O baptismo com água é a lavagem do próprio pecado?
 Não, apenas o sangue de Cristo pode limpar-nos do pecado."

- perguntas nº 44 e 45 do "The New City Catechism"

13.Nov. 1988, Primeira Igreja Baptista de Lisboa.

Completam-se hoje 30 anos que fui mergulhada nas águas do baptismo, momento que simbolizou a minha morte e a minha ressurreição através do meu Salvador Jesus. Neste dia, muito ainda estava a começar, e hoje ainda muito há para aperfeiçoar, mas isso faz parte de um processo gradual e crescente, chamado de santificação. Com o baptismo, não só afirmei publicamente a minha fé - a de uma menina de 11 anos que sabia que precisava de ajuda com o seu pecado, mas passei a pertencer à Igreja Universal do Senhor Jesus.

Neste meu percurso, Deus tem-me abençoado com igrejas locais, que nestes 41 anos de vida têm sido fundamentais para o meu crescimento. Na Igreja, existimos enquanto família e permanecemos para nos servir, amar, cuidar, confrontar e perdoar. Não daria para chegar até aqui sem pessoas que servem de exemplo, sem pessoas que amam e cuidam, sem pessoas que confrontam e nos advertem. Jesus virá um dia, mas sabia muito bem o que fazia quando nos deixava nesta doce e trabalhosa companhia.
São 30 anos de um percurso atribulado mas cheio da graça do meu Senhor. A maravilhosa graça!



08 novembro 2018

Deus sabe o que tu não tens

 

“Deus prometeu suprir todas as nossas necessidades. O que não temos agora, não precisamos agora. ” 

Quando li esta frase de Elisabeth Elliot (1926–2015), assenti. Tive de concordar. Tenho presente a sua vida,  a história do marido missionário assassinado, a sua dedicação ao evangelho, o seu fervor absoluto acerca de Jesus e a congruência entre as suas palavras e a sua prática, e digo: “Amém”.As circunstâncias da sua vida eram como contos de ficção no meu imaginário de miúda. Era por demais evidente que Deus estava por detrás de todas as dificuldades e decepções gigantes que Elizabeth experimentou para, no mínimo, servirem de exemplo para nós. Eu queria ser como ela, porque queria conhecer o seu Deus tão profundamente quanto ela - o tipo de Deus que fazia valer a pena cada prova. Mas eu não tinha noção do que significava a sua fé inabalável em Deus. Eu achava , ou pelo menos esperava, que a intimidade e confiança que ela tinha em Jesus poderiam vir através de uma vida de fácil. Descobri que, para ser como ela e conhecer a Deus dessa forma, precisaria aprender a feliz entrega da disciplina. Eu teria que trilhar um caminho através do sofrimento e precisaria descobrir a beleza no meio das minhas próprias cinzas estranhas ( Livro "These strange ashes")


QUAIS SÃO AS NOSSAS NECESSIDADES? 
Eu estava à porta da maior sala de emergência do nosso hospital infantil com tecnologia de ponta. Mal havia espaço para mim quando treze médicos se movimentavam com urgência, esbarrando uns nos outros, com gritos de ordem vindos do médico chefe. E no meio disto tudo, o nosso filho de 13 meses, pálido e sem vida. Eu queria chorar alto ou gritar o nome do meu filho, ou obrigar a alguém a prometer que tudo iria ficar bem. Eu não fiz nada disso. Fiquei em silêncio, sem me mexer, apertando as mãos, enquanto o meu coração batia, mas parecia se esvair. Só pensava que se eu ficasse quieta e contida, eles me permitiriam ficar perto do meu filho. Vi-os a colocar um acesso directamente no seu osso para administrar os medicamentos na medula o mais rápido possível. E segui atrás da maca com o rosto seco enquanto a enfermeira bombeava ritmicamente o ventilador manual, que permitia que o meu filho respirasse, até chegarmos ao nosso quarto nos Cuidados Intensivos e ele poder ser ligado à máquina. Eu tinha aprendido anos antes (talvez não tão bem quanto deveria) que Deus não nos deve filhos. E que às vezes ele os leva embora depois de dar. Mas o meu eu ingénuo de vinte e poucos anos ficou chocado com essa realidade. Sub-conscientemente acreditei estar imune ao aborto, então fiquei surpresa quando abortei. As palavras simples de Jó confortaram-me e assustaram-me: “O Senhor o deu e o Senhor o tirou” (ver Jó 1:21). E agora, com cinco crianças vivas - a mais nova com sérios problemas médicos - dei de caras com outro plano que não correspondia ao meu. Que, para ser justo, é uma ocorrência diária. Eu não tenho certeza se já tive um dia sequer que corresse de acordo com os meus planos. Mas as diferenças entre o meu plano e o de Deus, com algumas excepções notáveis, geralmente são de pequena escala. Observar a vida do meu filho por um fio não foi uma diferença de pequena escala entre o plano de Deus e o meu.

O QUE SIGNIFICA PROSPERAR
Naquela noite, no hospital, sozinha com o meu filho inconsciente e o som do ventilador no meio de um silêncio assustador, Deus estava a trabalhar mais uma vez na minha compreensão de carência e de prosperidade. Nos anos seguintes, iria questionar-me muitas vezes sobre quais eram as minhas necessidades e as necessidades da minha família, enquanto filhos de Deus. Será que precisava que o meu filho fosse saudável? Quão saudável era saudável o suficiente? Será que os nossos filhos mais velhos precisavam de uma infância imaculada pelo sofrimento? Será que eles precisavam de uma família com menos “necessidades”? Eles precisavam de mim para educá-los em casa a tempo inteiro para se tornarem pessoas cristãs decentes? Será que eu precisava de dormir? Quantas horas? Precisava de menos vomitados na minha vida? Quão coerente precisava eu ser para me tornar um ser humano gentil? Tu, provavelmente, tens as tuas próprias perguntas. Precisas de um casamento saudável? Precisas que o teu filho seja salvo? Precisas mudar para uma cidade diferente, uma casa diferente, um bairro diferente? Precisas de te livrar da tua dor crónica? Precisas que Deus te dê um "sim" ao pedido que lhe fazes há vinte anos? Precisas de te livrar da solidão? Precisas de estabilidade ou mudança? O que é que Paulo quer dizer quando promete: “O meu Deus, segundo as suas riquezas, suprirá todas as vossas necessidades em glória, por Cristo Jesus.” (Filipenses 4:19)? 

A BONANÇA DEPOIS DA TEMPESTADE
O meu filho recuperou desse internamento traumático. Eu também. Embora essa não tenha sido a última vez que estivemos lá. 
Na altura, senti vontade de declarar vitória. Nós sobrevivemos. A minha fé estava intacta - até fortalecida. Mas uma das descobertas desta última década da minha vida tem sido que os grandes testes nem sempre são o teste que achamos que são. De alguma forma, passamos por essas grandes provas assustadoras. Pela graça e orações e pela ajuda do povo de Deus, agarramo-nos à esperança nas promessas de Deus e suportamos. Mas, muitas vezes, são os pequenos desafios que seguem os grandes que nos ameaçam derrubar. Alguns anos depois daquela sinistra estadia no hospital, no momento em que eu deveria estar feliz com as melhorias do meu filho e de como as coisas estavam  a correr bem, dei comigo a dizer a Deus às duas horas da manhã: “Eu não consigo. Não consigo mais viver assim. Eu não consigo continuar a  fazer as coisas que eu tenho de fazer todos os dias com tão pouco sono a cada noite. Eu preciso que me dês alívio. Eu preciso que me dês uma folga destes pesadelos nocturnos." Sabem, o nosso filho não consegue dormir uma noite seguida por causa dos seus problemas neurológicos. Ele tem melhorado, aqui e ali, mas estes primeiros cinco anos de sua vida têm sido desafiadores no que toca a sono. E foi neste período de sono que dei comigo a desabar.

TEM CUIDADO COM AS PROVAÇÕES MAIS PEQUENAS
Eu tinha a ideia de que, para discipular os meus filhos, precisava ser coerente e menos desesperada. Eu tinha a ideia de que, para que Deus me usasse para apontar-me para ele, eu precisava me desfazer desse estado. Eu estava ok com ser humilhada - já o tinha sido muitas vezes - mas quão fundo eu tinha de descer? Quer dizer, eu lia artigos cristãos que declaravam: o sono é um ato de humildade. Então, por que Deus me negaria essa humildade? Eu queria confiar nele com os meus olhos fechados.Mas Deus não me deixou colocar o meu coração em necessidades menores. Nós temos necessidades maiores do que dormir. Temos necessidades maiores do que a nossa saúde ou a saúde dos nossos filhos. Temos necessidades maiores do que um cônjuge ou alívio da dor crónica. Temos necessidades maiores do que coerência. Temos necessidades maiores do que esse emprego, carreira ou casa. Temos necessidades maiores do que servir a Deus como esperávamos.O que eu realmente precisava era aproximar-me mais de Filipenses 4, a fim de descobrir que o próprio Paulo tinha continuado mesmo sem ter as suas necessidades básicas satisfeitas. Ele diz assim: “Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade.
Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade.

Filipenses 4:12
Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade.

Filipenses 4:12
Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade.

Filipenses 4:12
”(Filipenses 4:12). Paulo suportou necessidades não atendidas e aprendeu a contentar-se no meio delas. 

EM QUALQUER CIRCUNSTÂNCIA
As ideias de Deus para a nossa prosperidade são diferentes das nossas. Acreditamos que prosperidade significa oito horas de tranquilidade, um bom trabalho, estar rodeado de pessoas que nos tratam com respeito, tendo a oportunidade de ter sucesso em algo, boa assistência médica, um casamento amoroso e crianças felizes. Essas são coisas boas, mas não são as coisas que Deus está mais preocupado em nos providenciar nesta vida. Na economia de Deus, nós prosperamos quando a nossa necessidade por ele é encontrada nele. Queridos irmãos e irmãs, não há nenhuma circunstância debaixo do céu que Deus não esteja a usar para nos tornar carvalhos de justiça. Não há necessidade de que ele não se encha de si mesmo. A promessa é realmente verdadeira: Deus realmente suprirá todas as nossas necessidades de acordo com suas riquezas na glória em Cristo Jesus (Filipenses 4:19). Não há nada de que realmente precisemos que não seja encontrado em Cristo.Ainda mais, as circunstâncias em que vemos uma necessidade ou desejo nosso terreno ser negado, são muitas vezes os meios que Deus usa para acelerar a nossa santidade e felicidade nele. Quando queremos, recebemos mais de Cristo. Quando sofremos, a nossa solidariedade com ele cresce.Como de costume, Elisabeth estava certa: “Deus prometeu suprir todas as nossas necessidades. O que não temos agora, não precisamos agora. ” E o que precisamos agora, nós temos agora: a mão soberana e amorosa de Deus Pai trabalhando todas as coisas para o nosso bem (Romanos 8:28); Cristo, o Filho, como nosso advogado, Salvador e justiça (1 João 2: 1; Filipenses 3:20; 1 Coríntios 1:30); e a intercessão, ajuda e conforto do Espírito Santo que nos cercam a cada dia (Romanos 8: 26-27). Então, no final das nossas vidas, nós verdadeiramente poderemos dizer: “Eu nunca desejei nada. Nunca tive um "não" do meu pai que não fosse um "sim" para coisas melhores e mais profundas."


Original do texto aqui.

05 novembro 2018

O que é o amor?



Estudar as cartas de João está a ser um enorme desafio para mim. Quanto mais leio, mais me apercebo que preciso conhecer melhor sobre o verdadeiro amor. Pesquiso no dicionário significados, reescrevo as frases por outras palavras, respondo a perguntas. E o amor, aquele de que João fala e que é o próprio Deus, precisa ser conhecido, assimilado, vivido.

Quando penso que o amor é amar sem esperar em troca, Deus mostra-me que o amor não se vive nas minhas forças e demonstrações que eu consigo encontrar, pequeninas e insignificantes. O amor só se dá aos outros quando se conhece o amor do próprio Deus, que é - ele mesmo- AMOR.

Em tempos de relativismo, João fala de preto e branco, luz e trevas, amor e ódio. Se não amas, odeias. Não há indiferença pelo meio. E isto é tão difícil de assimilar quanto de viver. Porque, num tempo em que nos dizem que amar é um sentimento que não se força, a Bíblia contrapõe e ordena que amemos os outros como nos amamos a nós. Temos de escolher amar. Não dá hipótese.

Ao mesmo tempo, a Bíblia nunca nos diz que nos precisamos amar a nós mesmos, porque já o fazemos naturalmente; mas que se procurarmos amar o próximo como buscamos os interesses para nós mesmos, já estamos a começar a viver mais além.

Logo no início da primeira carta, João coloca as coisas em termos drásticos: se dizes que amas a Deus mas não amas o próximo, estás a pecar e a ser mentiroso. Quando estamos continuamente a pecar, afirmamos três coisas:

1 - Não estamos a compreender a dimensão da Graça de Deus;
2 - Estamos a enganar-nos a nós mesmos;
3 - Fazemos de Deus mentiroso - porque só ele é santo.

Conseguimos ver se o nosso amor está nas coisas erradas, quando não nos esforçamos por obedecer ao que Deus nos pede. Se olhamos para a lei sem graça, fica difícil compreender e aceitar a dimensão do amor de Jesus, que se sacrificou por todos nós. Devemos estar atentos a todos os tipos de ensinos contrários a estes, porque a Bíblia também fala deles como enganadores. Devemos permanecer e ficarmos ancorados na verdade - Deus é amor - e que através dele saberemos como amar melhor.


[O estudo vai continuar. ]



Este estudo das cartas de João é feito seguindo o caderno de estudo "Abide" de Jen Wilkin.






Ainda não eram 8.00

e a hora ainda não tinha mudado. O sol entrava timidamente pela sala, eu tentava organizar os meus pensamentos para o dia a começar, quando me lembrei da bondade de Deus e da minha obrigação de falar da sua fidelidade. Ali, na parede.

31 outubro 2018

Dia da Reforma Protestante

"Minha querida Katy mantém-me jovem e em boa forma também. Sem ela eu ficaria totalmente perdido. Ela aceita bem as minhas viagens e, quando volto, está sempre à minha espera. Cuida de mim nas depressões. Suporta os meus acessos de cólera. Ela ajuda-me no trabalho e, acima de tudo ama a Jesus. Depois de Jesus, ela é o melhor presente que Deus me deu em toda a vida. Se um dia escreverem a história da Reforma da Igreja espero que o nome dela apareça junto ao meu e oro por isso."
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Martinho Lutero


11 outubro 2018

Sobre Ensino doméstico


 Reportagem de Maria João Caetano publicada no DN a 17. Set. 2018


Evan tem 8 anos e durante o mês de agosto leu oito livros "gordos", como conta na página de Facebook que criou para falar dos seus livros preferidos. É fascinado com tudo o que tenha que ver com a natureza, sabe coisas extraordinárias sobre animais e plantas e no futuro sonha ser cientista. Evan não anda na escola. É uma das mais de 600 crianças que "frequentam" o ensino doméstico em Portugal e que, por isso, esta noite vai dormir descansado, sem se preocupar com a escola, e amanhã acordará sem despertador e poderá passar o dia descalço, entre os seus livros e as brincadeiras com os irmãos.
Evan andou na creche por pouco tempo quando tinha 3 anos. "Ele ficava triste e muitas vezes choramingava. Eu ficava com o coração apertado", lembra a mãe, Anastasia. Não precisou de muito mais para tomar a decisão de ficar em casa com os filhos e ser responsável pelo seu ensino. "No início os dias pareciam enormes, não sabia o que fazer com eles e achava que tinha de estar sempre a fazer alguma coisa. Mas isso não é verdade. Não temos de estar sempre a fazer coisas e não temos de fazer tudo com eles. Temos de deixá-los explorar a imaginação. E depois eles crescem e tornam-se cada vez mais autónomos."
Cinco anos depois, Anastasia e Pedro não poderiam estar mais felizes e convictos de que tomaram a decisão certa. O filho do meio, Tristan, tem 5 anos e já leu todos os livros de Harry Potter. Aprendeu a ler sozinho quando ainda não tinha 3 anos, mas a sua verdadeira paixão é a matemática. Evan e Tristan não sabem o que são metas curriculares e nunca fizeram um teste mas sabem fazer pão, falam e leem em português (a língua do pai), russo (a língua da mãe) e inglês, jogam xadrez melhor do que muitos adultos. O irmão maispequeno, Artur, tem 2 anos e para já parece mais interessado em brincar e pintar.
"O mais importante é que aprendam a pensar", diz Pedro, que é gestor e é o único na casa que tem horários a cumprir. "Queria que eles não perdessem a curiosidade", acrescenta Anastasia. "Todas as crianças são curiosas, é uma coisa natural. Nós não temos de fazer nada. É só estar com eles e responder quando nos fazem perguntas. E se não sabemos, procuramos. E ensinamo-los a procurar as respostas." A palavra ensinar não se aplica aqui. As aprendizagens são feitas à medida dos interesses e das curiosidades de cada um. Com muitos livros (mas não manuais escolares), viagens, brincadeiras, conversas e experiências - essa é a base de tudo. Depois ainda há as atividades "geralmente chamadas extracurriculares", como a música, as artes marciais, os escuteiros. "E dois dias por semana temos encontros com outras famílias do ensino doméstico. O nosso recorde é oito horas a brincar no parque!"


Nem todas as famílias que optam pelo ensino doméstico tomam uma opção tão radical quanto Anastasia e Pedro. A poucos dias do início do ano letivo, Maria, Marta, Joaquim e Caleb sentam-se em volta da mesa da sala a apagar os manuais que vão ser reutilizados enquanto ouvem música. Todos eles sabem qual o ano que vão frequentar e em cada ano fazem um planeamento daquilo que vão estudar e de como vão trabalhar. Também nesta família a filha mais velha, Maria, que tem 14 anos, chegou a frequentar brevemente o ensino regular até, em 2013, os pais, Ana Rute e Tiago Oliveira Cavaco, optarem pelo ensino doméstico. "Ao início é um pouco assustador", conta a mãe. "Estivemos quase dois anos a decidir. Falámos com muitas pessoas. Ao nosso redor toda a gente faz de uma determinada maneira e ou nós tínhamos muita firmeza naquilo que íamos fazer ou não ia dar. Definimos aquilo que não queríamos fazer e aquilo de que gostávamos e decidimos arriscar." Todos os anos, a família faz uma avaliação e decide se vale a pena continuar. "Para nós não é um caminho de sentido único."
Na altura, a decisão foi impulsionada pelo facto de haver outras famílias amigas que também queriam uma escola diferente. Juntos, criaram um pequeno centro de ensino doméstico onde cada pai é responsável por uma área diferente. Neste momento, o projeto tem seis famílias e menos de 20 anos alunos do 1.º ao 6.º ano. Unem-nos os valores cristãos e a ideia de que a escola não é tanto o sítio onde se vai "receber" conhecimentos mas antes uma comunidade onde se treina o pensamento. "Não é aquela ideia clássica da pessoa mais velha que está a ensinar a mais nova. À exceção da alfabetização e daqueles conceitos básicos que são feitos com a ajuda de um adulto, numa fase muito precoce da vida começa-se o treino para a autonomia e para saber buscar o conhecimento a qualquer lado. Treinar para pensar é o mais importante."
"Não sou contra o sistema, mas havia algumas coisas que nós sentíamos que amputavam as crianças. As pessoas têm a ideia de que quem opta pelo ensino doméstico quer proteger os filhos. Mas, na verdade, nós queremos é ter uma visão maior", explica Ana Rute. A "frequentar" o 9.º ano, a Maria está pelo terceiro ano em casa e estuda sozinha, com a ajuda dos manuais e da Escola Virtual. Organiza o seu tempo e o seu trabalho. Sem dramas. Quando tem dificuldades fala com os pais ou com outros adultos. As aulas de espanhol, por exemplo, são dadas por Skype por uma amiga da família.
"Não sou contra o sistema, mas havia algumas coisas que nós sentíamos que amputavam as crianças"
"As pessoas que não sabem muito sobre homeschooling acham que não vão conseguir porque não têm o domínio das matérias todas. Mas nós não temos de fazer tudo", explica Anastasia. "Só temos de saber como procurar e ajudá-los a procurar a informação. E depois contamos com a ajuda da família, dos amigos, da comunidade." As crianças não passam o dia fechadas em casa, isoladas. Têm irmãos e amigos, participam na vida da família. "Nós vivemos no mundo real e temos muitas pessoas à nossa volta. Existe o mito de que asocialização dos miúdos tem de ser feita com os pares, com os da mesma idade", diz Ana Rute. "Mas a socialização pode ser feita de muitas maneiras."A liberdade dos alunos em ensino doméstico termina no final de cada ciclo, quando têm de fazer exames em todas as disciplinas e cumprir metas curriculares iguais às dos alunos do ensino regular. Na família de Ana Rute e de Tiago esses momentos têm sido vividos com tranquilidade e boas notas. "Não os pressionamos e até costumamos tirar férias nas semanas antes dos exames", diz a mãe. "Mais importante do que as notas é a atitude deles, queremos que sejam responsáveis e confiantes."
Anastasia ainda não passou por esse processo mas, para já, não está preocupada. "Uns meses antes teremos de ler os manuais e estudar um pouco, sobretudo para eles se sentirem mais confortáveis com a linguagem dos exames. Mas eu sei que eles sabem muitas coisas. Nos exames, eles têm de decorar a matéria toda e responder sozinhos. Mas a vida não é assim. Na vida, temos recursos que podemos usar e trabalhamos em equipa, cada pessoa tem as suas competências. Por isso, em vez de prepará-los numa matéria, quero prepará-los para pensar, para trabalhar com outras pessoas, para comunicar. Dar-lhes ferramentas. Isso é o mais importante."

Artigo originalmente publicado aqui.



09 outubro 2018

Uma coisa chamada Vitiligo



 
É rara a semana que não recebo mensagens de pessoas que têm, como eu, vitiligo. Querem saber como se desenvolveu, se já experimentei tratamentos, como lido com esta particularidade de ter a pele às manchas. O Verão está a chegar ao fim, e é neste período do ano que a coisa é mais sensível. Ainda estou no rescaldo de estar mais exposta, tanto ao sol, como a perguntas inocentes de quem não sabe o que isto é - perguntas inocentes, mas muito incómodas de responder. Este é o lado chato de alguém viver com uma diferença: lidar com as reacções dos outros.

Tinha 7 anos quando me apareceram umas manchas pequenas nos joelhos e a minha mãe me levou ao dermatologista. Foi logo identificado como sendo vitiligo e quais os cuidados a ter com o sol. O assunto cingiu-se a isso: cuidados com o sol.  Tive uma experiência muito privilegiada com estas manchas. Apesar de muito morena, tive sempre uma pele isenta de borbulhas e de pelos - um paraíso para uma miúda adolescente, convenhamos. As manchas nunca me incomodaram, e a verdade é que em todo o percurso escolar tive apenas e só um pequeno episódio com um miúdo, que ainda hoje me dá vontade de rir, de tão ridículo que foi.

Quando casei, com 25 anos, além das manchas nos joelhos e pés,  tinha também umas novas, no canto da boca e nas mãos. Raramente me lembrava delas, a não ser quando me perguntavam.
Aos 30, engravidei do terceiro filho. Coincidência ou não, foi-me diagnosticada uma colestase, e com ela, manchas novas que surgiram. Com a quarta gravidez, igual. Hoje tenho 41 anos e uma grande parte do corpo branquinha, além de estar completamente grisalha. É impossível não dar nas vistas, sobretudo no Verão.

Sobre as perguntas que me fazem:

Alguma vez procuraste tratamento?

Não. Apesar de ser muito limitador com o sol, fico-me por aí. Do pouco que sei do assunto, há tratamentos experimentais, pesados para a carteira, e dos quais não há garantia de resultados nem certezas de efeitos secundários posteriores. Pareceu-me sempre que não valia a pena aborrecer-me, antes contar com os cuidados a ter. Sendo uma doença auto-imune há associações com outras doenças, e essas sim: poderão ser preocupantes e exigirem tratamento.

Como lidas com os olhares dos outros?

Tem dias. De uma forma geral, faço como no Madagáscar ("é sorrir e acenar"); se o cenário é incómodo, basta olhar fixamente para a pessoa perceber. Mas este Verão tive de tudo: uma senhora a tirar fotos à socapa em plena praia, depois de a ouvir comentar que eu não parecia preocupada, pessoas no café a especularem sobre a minha doença, etc. Pode ser divertido ou não. Depende do meu estado de espírito.

Como lidas com as perguntas que te fazem?

Há dois tipos de pessoas: as que têm vitiligo e que sofrem com isso, e me perguntam por soluções, e há as que têm curiosidade e querem saber.


Para as que têm vitiligo, tento oferecer respostas que ajudem, embora eu sei que sou uma privilegiada: nunca sofri socialmente durante o meu crescimento, a minha família nunca valorizou o assunto e isso fez toda a diferença na forma como me olhei ao espelho. Vivemos com os outros e onde estamos e como nos tratam determina muito de como nos vemos. Por isso, não posso ser grande ajuda para aqueles que tiveram mães obcecadas à procura de tratamentos, ou que foram gozados na escola. Só posso lamentar. Mas para o presente, recomendo pedir ajuda terapêutica e - para quem é cristão, como eu - pedir ajuda a Deus. Este é um processo como outros na questão da imagem: precisamos aceitar-nos como somos. Se pensarmos que todos vivemos com as nossas limitações (pessoas com peso a mais a quem a tiróide não se compadece com alimentação saudável e exercício físico, por exemplo) e que há doenças realmente graves sem possibilidade de cura, isso ajuda muito a ver em perspectiva. Copo meio cheio ou copo meio vazio? Prefiro o copo meio cheio.

Para as que têm curiosidade: Haja prudência e bom senso na forma como expressamos as nossas opiniões ou cedemos à nossa curiosidade. Vivemos numa cultura que comenta a aparência dos outros com uma liberdade excessiva. Nós não somos o centro do universo e se passamos a vida a apregoar a tolerância e a aceitação da diferença, comecemos por nos contrariar nos nossos instintos. Já viajei alguma coisa, e acreditam que noutros países onde estive - como nos Estados Unidos - nunca me perguntaram nada acerca das minhas manchas nem me senti olhada com diferença como no meu próprio país? Portugal precisa de crescer um bocadinho (e já agora, o Brasil também, a maior parte das pessoas que me contactam são de lá).


Qual a perspectiva de um cristão?

Quando digo que nunca procurei tratamento, não é porque seja contra. Nunca considerei necessário. Mas acredito que há liberdade para isso, como há liberdade por procurar contornar algo do nosso aspecto físico que nos incomode. Mas acho que há limites, e devemos saber aceitá-los com humildade e confiança.

Eu acredito que Deus me criou. Vivo num mundo caído, e embora todas as limitações tenham que ver com a natureza caída, continuo a acreditar que não há nada - mas nada - que escape ao plano de Deus. Nenhuma criança deficiente é gerada porque Deus se distraiu, nenhuma doença vem sem que isso sirva para Deus cumprir o seu propósito. O sofrimento faz parte da vida, e é com ele que crescemos também. Não o digo em tom fatalista.

Comparar-me com casos realmente graves parece-me pura ingratidão, e por isso tendo sempre a desvalorizar. Para mim, ter vitiligo tem-me ensinado algumas coisas. Uma delas: o facto de ter tido de abdicar de coisas simples como a praia da forma como a fazia ( passei de estar ao sol como me apetecia, para sair da água e vestir uma túnica debaixo do chapéu), ajudou-me a perceber melhor a minha pequenez. Não serei eternamente jovem nem saudável, e isso faz parte. Não controlo tudo o que acontece nem é susposto.

Vivemos em tempos que nos convencemos que a medicina oferece diagnóstico e tratamento para tudo, mas apesar de todas as evoluções, não oferece. Vivemos tempos em que nos convencemos que é possível ter filhos e ficar eternamente iguais, mas são poucos os casos em que isso acontece (e geralmente à custa de abdicar de muita coisa). Vivemos tempos em que idealizamos que os relacionamentos se alimentam de aparência, mas os nossos olhos são muito mais do que aquilo que vêem, e o desejo não depende de forma física - o cuidado que devemos ter vai muito além disso. E poderia continuar.

Que produtos usas?

Aqui há uns anos, descobri que fiquei intolerante ao perfume, portanto tudo o que uso é sem fragrâncias. No dia-a-dia uso uma base na cara que uniformiza a pele e protege do sol. A minha preferida é esta, porque não dá trabalho nenhum pela manhã e protege realmente.



Para o cuidado do corpo, a minha protecção solar preferida é esta, por uma razão simples: não mancha a roupa e é muito eficaz no bloqueio do sol, além de ser um spray transparente que não custa nada a espalhar.



Geralmente pesquiso estes produtos online, e aproveito promoções. Só assim é possível comprá-los, indo a farmácias podem custar quase o dobro.

Por último: recomendo este livro que li o ano passado. Fala de todos os dispositivos que se conhecem que influenciam o aparecimento e o alastramento, possíveis tratamentos, etc. Comprei na Amazon UK.



E acho que é o essencial. Ando há meses para escrever sobre isto. Mas há sempre o risco de receber mensagens de conforto (não é o objectivo deste texto) ou de se sobrevalorizar o assunto. Não é a minha intenção. A ideia é desdramatizar e dizer que a vida continua! Vamos aproveitá-la com o que temos e que Deus nos dá.






08 outubro 2018

2018/2019

O ano lectivo começou há três semanas. Não tem sido fácil arrancar. Gostava de ser daquelas mães desejosas que a escola comece e que o despertador passe a tocar, mas não sou! Gosto muito da liberdade dos dias em que eles estão em casa sempre, mesmo que isso implique estarmos o tempo todo juntos.

Entre manuais guardados, bibliotecas e amigos, conseguimos grande parte dos manuais para este ano e isso foi um encorajamento (pagar 857€ ia ser complicado, mas Deus sabe das nossas necessidades!). O tempo começa a esfriar e não tarda estamos a dar as voltas aos roupeiros e a comer castanhas com mantas no sofá. E isso agrada-me!




20 setembro 2018

Irmãos

Somos 5.










Oliveirinhas





Juntar os sobrinhos todos e os filhos, por ordem a contar da direita (o mais novo ao colo da mais velha). A preciosidade destes registos é porque nunca sabemos quando se voltarão a repetir.

As férias já acabaram! - parte 3, Água de Madeiros








4 dias a ouvir sobre a perfeita humanidade e divindade de Jesus, na companhia de muita família - de todos os tipos e lados, não é bom: é maravilhoso!

18 setembro 2018

As férias já acabaram! - parte 2, Vila Nova de Santo André

Surgiu a oportunidade de passar uma semana em Santo André. Gostamos da diversidade de praias que a costa alentejana tem, da tranquilidade que Santo André mantém em pleno mês de Agosto (nunca vamos para fora nesta altura, não só por ser mais caro, mas também pela confusão. Ficámos rendidos). O comércio está por todo o lado e algumas caras conhecidas também. Deu, até, para ir ao cinema a Sines, à estreia do novo "Missão Impossível".

Batemos o nosso recorde de horas na praia, e nos dois dias de grande calor, dedicámo-nos a ver "Downton Abbey" (consegui converter a família completa, yes!) e jantámos piquenique na areia, com mergulhos já quase de noite.



















14 setembro 2018

As férias já acabaram! - Parte 1, Ilha da Culatra


Bom, não sei como isto se deu, mas as férias de 3 meses da miudagem estão mesmo a acabar. Gostava de ser daquelas mães desejosas que a escola comece e que o despertador passe a tocar, mas não sou! Gosto muito da liberdade dos dias em que eles estão em casa sempre, mesmo que isso implique estarmos o tempo todo juntos.

As nossas férias de família propriamente ditas, dividiram-se em 2 períodos e meio, vá. 10 dias na ilha da Culatra, 8 dias em Vila Nova de Santo André e 4 dias em Água de Madeiros. Gostamos destas férias repartidas, e devo dizer que de todos estes períodos, Junho é sempre um mês essencial para nós. Esperar por Agosto para ter descanso fica demasiado longe, e Junho tem-nos sempre presenteado com bom tempo, óptimo mar e passeios maravilhosos.

Começando pela ilha da Culatra. Nós somos fãs incondicionais das ilhas do Algarve. Achamos mesmo que são o melhor do sul. Nunca se tinha proporcionado ir passar mais do que um dia à Culatra, mas este foi o ano. Se tivermos de comparar com a Armona, onde estivemos há 3 anos, a Culatra consegue ter igual - ou mais - beleza, mas com a capacidade de reunir três polos distintos na mesma ilha: Culatra, Farol, Hangares. São todas localidades da mesma ilha, embora exista a ideia que não. Percorremos a ilha de uma ponta à outra mais do que uma vez, visitámos o Farol, e deliciámo-nos com a paragem no tempo dos Hangares. Seguem fotos e pequenas explicações.

 Chegamos à ilha de barco, numa viagem que pode demorar entre 20 a 40 minutos, consoante as marés. O barco parte de Olhão e o nosso carro ficou em frente à polícia, tal como quando viajámos para a Armona. Levámos abastecimento para largos dias, a contar que os bens essenciais fossem tão caros como na Armona. Qual não é o meu espanto quando descubro que os dois mini-mercados não só tinham preços muito acessíveis, como até mais baratos. Só por isto, a Culatra tem muitos pontos a favor. Se forem para o lado do Farol, os preços já não são nada simpáticos, até porque é o lado mais turístico da ilha. Diria que a Culatra é dos pescadores e o Farol para os turistas. Nós gostamos de ser turistas, mas simpatizamos muito com a simplicidade dos pescadores, portanto acho que ficámos do lado certo!


 Hangares - durante a Primeira Guerra Mundial, o pequeno enclave na Ilha da Culatra-Farol foi um centro de aviação naval destinado à luta anti-submarinos.  Permanece com o arame farpado, sem electricidade e com alguns habitantes, a quem o dia parece durar bem mais que 24h.




A nossa praia de todos os dias estava sempre desafogada, e uma das grandes vantagens de termos filhos já um pouco mais crescidos é podermos praticar a total ausência de horários. Acabámos por passar grande parte do dia na praia, com as devidas protecções. Lemos livros, dormimos, os miúdos jogaram à bola, e mergulhámos muito, já que o mar parecia estar sempre à nossa espera.





Uma das grandes vantagens de uma ilha em pleno Junho, para quem quer descansar e desligar a mente, é o anonimato. Não ter de socializar, para nós que a vida é feita de estar com pessoas, é um grande descanso. Diria que é necessário, no geral, saber e desfrutar só da família. Andar descalços, sempre com as mesmas roupas, e sem preocupações, são as nossas férias preferidas. 
Ainda assim, tivemos visita de amigos por um dia, o que nos dá também prazer, mostrar aquilo que nos deslumbra a vista.


Visitámos o Farol no único dia em que está aberto ao público, quarta-feira à tarde. Muito bonito!




















Na hora de ir embora, o barco teve uma avaria. Ficámos presos na ilha umas duas horas, não me recordo bem, até ser enviado um táxi marítimo de susbtituição. Durante esse tempo, alberguei a esperança de termos de ficar retidos mais uns dias, mas ainda não foi desta. Talvez para o ano!