29 abril 2005

Músicas que cantamos para ti e pareces gostar (6)

(à refeição)

Obrigado Senhor,
Obrigado Senhor,
Graças te damos
Por este pão.

Na Escola Primária

Crianças no recreio. Devem ter uns 8 anos. Uma miúda a ler uma revista, dois rapazes a sussurrarem. Pegam na miúda, arrastam-na contra o portão e começam aos pontapés e murros. Desato aos gritos. Eles fogem. A miúda está toda vermelha nos braços e eu pego nela e levo-à à professora. Parece que é frequente, este cenário. Só muda a vítima. Quando ia a sair, os miúdos a olharem para mim. Ainda a tremer, cheguei-me ao pé deles e ameacei-os com a polícia se repetissem uma dessas. Saio da Escola e entro no carro. Começo a chorar.

28 abril 2005

Shut down directamente na tecla.

Tinha acabado de escrever um post e o ecrã fica preto. Olho para baixo e vejo um bebé sentado, sorridente e de dedinho levantado.

O clube

Desde que conduzo uma viatura comercial identificativa da empresa onde trabalho, que descubro uma espécie de solidariedade entre os condutores de viaturas semelhantes. Como a maioria são homens, para além dos olhares maliciosos, noto uma atitude de companheirismo, estilo Eu deixo-te passar, és gente séria e trabalhadora que também anda nestas lides da estrada. Ao início fez-me uma certa confusão, agora sinto-me parte de um clube.

O Rio Tejo, ali tão perto.

A Lisboa que se avista na Ponte 25 de Abril é uma Lisboa de prédios baixos, de cores avermelhadas e com muitas janelas. Não sei exactamente como se chama aquela zona, mas na viagem de regresso a casa, depois de 300 quilómetros, muito calor e mãos pegajosas, dava tudo por uma espreguiçadeira e uma janelinha daquelas.

Há um ano

Eu andava muito farta. Estava muito calor, os meus tornozelos inchavam e passava os dias em casa a comer bolos secos. Subia e descia escadas, andava muito a pé. As noites mal se dormiam, com uma bebé apertada na minha barriga. A casa estava impecavelmente arrumada e o relógio da sala tocava a cada quinze minutos.

Músicas que cantamos para ti e pareces gostar (5)

Senhor tu tens sido o nosso refúgio
De geração em geração
Antes que os montes nascessem
E se formassem a Terra e o Céu
De eternidade, em eternidade
Tu és Deus.

27 abril 2005

Miragem

O meu desespero era tanto que onde estava escrito Churrasqueira A Brasinha, eu consegui ler Externato O Piriquito.

Um pavor.

Nada me prende à margem sul. Almada, Corroios, Cova da Piedade, Feijó. Habituada a conduzir uma viatura por curvas de Sintra e atalhos sem trânsito da linha, dou comigo a tentar achar no meio de muita poluição e prédios feios, o meu destino. Trabalhar à deriva num meio muito feio é quase pior que estar no Cacém. Salva-me o Rio Tejo, sempre ali a espreitar e a salvar a vista.

26 abril 2005

Músicas que cantamos para ti e pareces gostar (4)

(cantamos ao domingo de manhã)


À Escola Dominical eu vou
São horas já, são horas já
Aprender de Cristo que nos amou
Venham já, ó venham já!
Quero ser pontual,
ó vamos escutar
a Bíblia e todo o ensino seu
na Escola Dominical.

Barqueira

Já rema tão depressa que demora cerca de um minuto a percorrer a sala e a chegar às colunas repletas de cds. Não fosse uma menina com aquela delicadeza do dedinho esticadinho a puxar a lombada da caixa e a deslizá-la para o chão, e o objecto ficaria danificado.

23 abril 2005

Alvos: DVD, vídeo, velas e cds.

O bebé cá de casa descobriu que é muito mais fácil andar sentada do que gatinhar. Arrasta as pernas e os braços servem de remos. De repente, mesmo tendo uma casa simples, descubro todos os pequenos objectos que têm de ser removidos com urgência.

22 abril 2005

Dormir com o crucifixo em cima

Quando o meu irmão Tiago precisa de realizar um trabalho importante, se quer isolar e concentrar, vai para um Convento, aluga um quarto e almoça no meio das freiras.

No círculo da família, costuma-se brincar com este hábito. A ideia de ir um fim de semana para um sítio onde não há nada a não ser paredes, jardim e silêncio quase absoluto, sempre me arrepiou.

Hoje, para ser do contra, estava-me a apetecer jantar às 18.00 e ouvir um Pai Nosso em coro.

Refresh

Vou ao Centro Comercial cerca de uma vez por semana. Calculo que encontro, geralmente, uma pessoa conhecida. Ontem encontrei oito pessoas conhecidas, o que me dá cabo da média e de todas as minhas teorias.

Para que fique registado:

Esta noite dormi nove horas seguidas.

Achei a agulha no palheiro

Desde o início do mês que desempenhava uma única tarefa. A de desvendar um bug num estudo de mercado. Dizerem-me que era missão impossível, foi o mesmo que me incentivarem a descobrir onde estava o número perturbador do resultado. Não pela competição, mas pelo prazer de o encontrar, eliminar e olhar para o resultado certinho. Acabei de o encontrar, dezanove dias depois. E mais uma vez confirmo que andei uma vida inteira a achar que a minha vocação eram as letras, quando afinal são os números que me motivam.

20 abril 2005

No Pateo.come

Almoçar sozinha é caso raro. Num restaurante, ainda mais. Hoje Lisboa sugou-me, ali para os lados da Praça de Espanha. Uma picanha e ninguém com quem conversar fizeram com que lesse um livro de uma ponta à outra. Ando divorciada deste hábito e tenho vergonha de o admitir. Quando somos forçados a fazer algo que não decidiríamos fazer de livre vontade, aprendemos quase sempre. Foi o meu caso.

19 abril 2005

Amor original

Maria,
Nunca recebi flores do papá, mas oiço músicas feitas
por ele que são só minhas.

Nutro um profundo desprezo por...

O autor e frequente utilizador desta expressão é o meu marido.
Hoje utilizei-a e soube-me muito bem.

Sol VS Céu cinzento

São poucos quilómetros de distância, mas é tão frequente. Saio de casa é Primavera, chego aqui e é Inverno.

Pescada-o segredo está no limão

O pai queixava-se do sabor intenso do limão.
A Maria, pela primeira vez, comeu pescada sem refilar e pediu mais.

É, com certeza, uma casa portuguesa!

Se algum dia tivermos um filho, chamar-se-á Joaquim,
nome do bisavô paterno. A viver em Portugal, haverá casa
mais portuguesa que a nossa, com uma Maria e um Joaquim?

18 abril 2005

Os sermões que nunca mais ouvi

A minha sogra diz que uma mãe com filhos pequenos anda anos a ir à Igreja sem ouvir nada do sermão. Eu confirmo. Para além do sacrifício que é, manter uma criança que ainda não anda sossegada, há que lidar com os outros que se distraem com ela.

Ontem, na hora do culto, já só havia lugar na segunda fila. A Maria aguentou-se sossegada em várias posições, ora a brincar com a minha mala, ora a chuchar no dedo. De repente, o pai levanta-se, pega na guitarra e começa a dirigir o louvor. A Maria repara que é ele que está ali e que vai tocar. Começa a dançar, a elevar as mãos ao céu, de cabeça erguida para o tecto, a franzir o nariz e a emitir sons de excitação, em jeito de : "A festa vai começar!"

Eu faço um esforço para não rir mas quando dou por mim toda a gente se ri à minha volta. Os gritinhos começam e está na hora de ir lá para trás, disfarçar a barulheira. E eu, sentada no chão a entretê-la, sei que a passagem bíblica é algures no Novo Testamento e que no final o pai fala da filha. Nada mais.

Na cama, temos de prender as alças do saco de dormir.

Senão, destapas-te toda e mexes-te de tal maneira que te atravessas na largura da cama. O papá diz que ficas o tracinho do sete.

Do cd Canções de Embalar

Olha, olha esta luzinha
Ao teu lado a brilhar
Assim nunca está escuro
Nem ficas sozinha

Que luzinha tão lindinha
Acompanha a menina
Olha, olha esta luzinha
Ao teu lado a brilhar

Assim nunca está escuro
Nem ficas sozinha
Ao bebé chamaste Zé
E ao ursinho Antoninho

Antes que chegue o soninho
O que é que lhe vamos chamar?

Olha, olha esta luzinha...

Era tão bom ter um nome
Que nome lhe vamos dar?


Letra e música: Nuno Rodrigues
Intérprete: Sara Tavares

16 abril 2005

Ingué

Não sei o que siginifica, mas pelo teu ar deve ser uma
coisa muito boa.

Sinais dos tempos

Em nove mulheres a jantar cá em casa, cinco eram grávidas.

15 abril 2005

A minha irmã casou-se

e eu estou velha. A minha irmã que eu tinha de levar todos os dias à sala de aula quando entrou para a Escola Primária. A minha
irmã com quem eu partilhava uma cama com gaveta e com quem fazia concursos ao adormecer a puxar a perna a ver quem caía primeiro. A minha irmã que tinha medo do escuro e me fazia dormir de estore aberto. A minha irmã que tinha o lado da estante sempre desarrumado. A minha irmã que dividia comigo as bonecas e os nomes dos namorados fictícios. A minha única irmã, com menos quatro anos e que será sempre a minha irmã mais nova.

É tão bom

Ter uma família graaaaannnddddeeeee.

Eu digo e tu ouves sem contestar

Anda por aí uma moda de gente de nariz empinado que julga que
a frontalidade é um valor acima de qualquer outro. "Eu cá não
tenho papas na língua, digo o que penso e não vou mudar. Quem gosta, gosta, quem não gosta, não gosta!"

Dito com a presunção de quem está sempre correcto, que nunca perde a razão. Curioso é, que este tipo de gente, tenha muita dificuldade em aceitar críticas e que, quando acontece, descambe quase sempre em peixeirada.

Não sou muito frontal, é certo. Isso prejudica-me algumas vezes, mas beneficia-me outras tantas.

Para mim, o respeito, a educação e o benefício da dúvida sobrepõem-se a essa coisa que é dizer tudo o que nos passa pela cabeça sem esperar consequências.

"Peço desculpa, não sei. Podes ensinar-me?"

Esta frase incomoda algumas pessoas. E desmascara-as.

A decorar o quarto do primo Ruben

O cd que o meu irmão Tiago põe a tocar é o da Carochinha. O êxtase da Maria dava-se no "Olha a bola Manel". Braços no ar e rabinho a abanar, um narizinho de engraçadinha a franzir.

8 horas repousantes

Na encruzilhada das certezas e das dúvidas, entra a Fé.
Graças a isso, durmo descansada.

14 abril 2005

Quase imaculada

O Verão passado foi o primeiro da minha vida que não mergulhei no mar salgado. Hoje olhei-me ao espelho e descubro que estou como vim ao Mundo: sem marcas.

A Maria e a Joana uniram-nos

Trabalho com uma pessoa de quem aprendi a ser amiga. Todos os dias, entro no meu emprego com a noção que temos apenas de nos dar bem com as pessoas. Não temos de gostar delas, ou de ser amigas de todas. Acho que espírito de equipa é cordialidade, não amizade.

Talvez por isso, raramente me ouçam falar acerca da minha vida e muita gente não saiba quem é a pessoa por trás da profissional.

Esta colega era alguém com quem não conversava. Aproximámo-nos quando ela engravidou e eu já tinha uma barriga de 5 meses. Temos duas filhas e conversamos.Foi natural e por isso acho que ganhei uma amiga.

(tinha de escrever isto)

Não ser preguiçosa e destacarem-me isso como qualidade
no local de trabalho.

Músicas que cantamos para ti e pareces gostar (3)

( de cada vez que dizemos a palavra torto, balançamos o corpo para um dos lados ou para trás, frente)

Havia um homenzinho torto
Que andava no caminho torto
O homenzinho era todo torto
E vivia numa casa torta

Um dia a Bíblia encontrou
E tudo o que era torto
Jesus endireitou!

Teatrinhos? Não, por favor.

Moralismos. Não há paciência. Para os meninos e as meninas que passam a vida a debitar opiniões sobre as escolhas de vida dos outros. Para os que acham que ter um popó é sinónimo de estatuto social e para os que encalham o cartão de crédito com dívidas mas que se vestem na GAP. Para as boquinhas sempre prontas a falar do que os outros fazem ou os dedinhos que acordam logo pela manhã com um alvo certeiro.
É favor bazar daqui.

13 abril 2005

Como é que um bebé

descobre tão rapidamente a diferença entre brinquedos e outras coisas? Esta casa está atulhada de comandos e aparelhos proibidos. Vai ser bonito, vai.

Aparentemente

Sempre gostei daquele ar aparentemente incomodado que as mães fazem quando os filhos só querem os seus colos. E rabujam e protestam. E se calam quando são pegados. Sempre gostei. E descubro que o aparentemente é mesmo aparente.

Ao fim de 3 anos de casamento

É que ligamos o forno eléctrico. Estou imparável.

A meio da noite,

acordei com a Maria a chorar. Calou-se uns minutos depois, deve ter sido um pesadelo. Adormeço novamente com o estrondo de qualquer coisa. Uma das malas presas com uma ventosa nas traseiras de uma porta, cai no chão de madeira. Até faz eco.

Começo a adormecer, mas não profundamente. Sonho com sandálias, dias seguidos com 27º, caracóis em esplanadas, família e amigos e férias longas. Sonho à parva, acordo para ir à casa-de-banho e venho para o emprego às 8h30m cheia de sono, mas com a sensação que sonhar é o melhor do Mundo.

12 abril 2005

05/03 ou 03/05

Os meus avós maternos divorciaram-se tinha a minha mãe 4 anos. Por isso, cresci a ter nas festas e datas importantes apenas a minha avó. A presença do meu avô marcava-se por um postal acompanhado de cheque na respectiva caixa do correio. Chegava sempre tarde. Faço anos a 05/03 mas o meu avô enviava o postal a 03/05.
Mal saberia eu que este 03 de Maio que me acompanhou erradamente por 27 anos viria a ser a data mais importante da minha vida: a do nascimento da Maria.

$#%&$!

Trabalho há 6 anos. Porque estive de licença de parto, recebo a quantia mais insignificante de sempre no reembolso do IRS. Vivam as famílias, viva Portugal.

11 abril 2005

Música que quem começou a cantar foi a tia Raquel

( e agora todos cantamos )

A barata diz que tem
sapatinho de veludo
É mentira da barata
ela tem é o pé peludo.
Ah, ah, ah, oh, oh, oh.
ela tem é o pé peludo.

A barata diz que tem
sapatinho de cetim
É mentira da barata
ela tem é o pé ruim.
Ah, ah, ah, oh, oh, oh.
ela tem é o pé ruim.

A barata diz que tem
uma casa de marfim
É mentira da barata
ela dorme é no jardim.
Ah, ah, ah, oh, oh, oh.
ela dorme é no jardim.

Confiante,

é como me sinto hoje. O teu problema está controlado e vais ficar boa. Eu sei que vais.

10 abril 2005

A palavra para este mês é:

AGME

Do instinto maternal,

que tenho a certeza que existe, duas coisas: é lixado e adivinha.

09 abril 2005

Manobras impensáveis

Quando estou sozinha em casa contigo e preciso organizar as coisas, carrego-te comigo. Ainda não gatinhas e acho que já percebeste que é muito mais confortável alguém pegar em ti. Preguiçosa. Aspiro a casa, tu brincas na cadeira da cozinha. Trabalho no computador, tu entreténs-te na manta da Heidi. Até aqui tudo bem.

O que eu nunca pensei é que chegaria ao ridículo de ter de ir à casa-de banho e te sentar ao meu lado, no bidé, em cima da tampa. Hilariante no mínimo.

Feio de se dizer

E por isso só o escrevo por ser aqui: os nossos amigos que já têm filhos têm uma sensibilidade diferente que nos conforta. Falam com a Maria sem ser à bebé, só pegam nela quando vêem que é oportuno, não se intrometem e percebem quando precisamos de ajuda. Vê-se que já passaram pelas mesmas angústias. E eu, apercebo-me da quantidade de disparates que fiz quando ainda não era mãe e os amigos mais velhos tiveram filhos.

08 abril 2005

Quando eu digo:

"Irritas-me profundamente",
significa que essas bochechas me dão uma vontade de te roer toda. Ou seja, amo-te tanto que só te quero apertar mais e mais.

Músicas que cantamos para ti e pareces gostar (2)

( Gesticulada com os dedos indicadores, simulando o minhoco e a minhoca. A ser cantado com sotaque brasileiro)

Minhoco diz prá minhoca: "Me dá uma beijoca".
"Não dou, não dou, não dou!"

(com os dedos indicadores simulamos um beijo)

"Minhoco, minhoco, cê tá ficando louco?"

"Porquê?"

"Beijou do lado errado, a boca é do outro lado!"

Dizia a bisavó:

"Ao menino e ao borracho, mete Deus a mão por baixo".

Que assim seja quando te der para descobrir o Mundo fora do nosso olhar.

Barriga a mais, um tempo aparentemente distante

São os 3 kg que ainda tenho a mais que me recordam, de vez em quando, que estive grávida.

De tanto dormir, que me espreguiçava

A conduzir, ouço um cd que o Tiago compôs para mim quando namorávamos. Uma das músicas intitula-se: "A Rute só sabe dormir". Outra das partes diz que o gato só sabe miar.
O gato já não existe e eu gostava de voltar a descansar, como nesse tempo, muitas e muitas horas seguidas.

Amigos que são família

Como em todas as famílias, temos elementos pouco chegados. A compensar, amigos que estão aqui bem perto do coração. A Raquel Heleno Úria, escreveu-te este texto aquando da tua Dedicação ao Senhor, a 11 de Julho de 2004. É muito bonito.

Maria,
Esta semana assisti a um concerto e ocorreu-me que qualquer criança que cresça ao som da música assim, só pode ser feliz. A tua mamã parece concordar - és uma menina cheia de sorte. Antes da última música, ouvi em tom sussurrado que cada bebé começa por ser um pontinho minúsculo dentro do seu mundo. Um grupinho pequenino de células perdido num espaço imenso e completamente dependente. À medida que vai crescendo adapta-se ao seu espaço, vai começando a conhecer os limites e a tocar as paredes do seu universo. Até que cresce tanto que o seu mundo se torna pequeno, o que desconhecia passa a ser familiar, as paredes ficam apertadas e, na hora de nascer, pensa apavorado: "Isto só pode ser o fim". Mas não, é o princípio. Primeiro o bebé é um pontinho minúsculo no mundo e tudo é novo num espaço imenso. Vai crescendo, aprendendo a conhecer o seu espaço, vai começando a conhecer os limites e a tocar os extremos do seu mundo. O que desconhecia passa a ser familiar, torna-se adulto, envelhece, o mundo fica pequeno, as paredes apertadas e , na hora de partir, há muitos que pensam apavorados: "Isto só pode ser o fim". Para nós, não, é o princípio. Mas essa é outra história bonita que sei que os teus pais te vão contar. Desejo-te uma caminhada rica. Fico à espera de que sejas muito feliz, encontres certezas e que os horizontes do teu mundo sejam sempre vastos.

07 abril 2005

Músicas que cantamos para ti e pareces gostar

Noé fez uma arca, como Deus mandou
Os bichinhos da Terra e do Mar salvou.
Serrou a madeira, muito trabalhou.
Serrou, zum,zum,zum.
E martelou, pum,pum,pum.

Salvou o pato, o leão e a formiguinha
O cão, o pato, o perú e a galinha.
Salvou a pomba, o cangurú e o elefante
E a girafa com pescoço de gigante.

De noite e de dia, choveu sem parar.
Noé e os bichinhos, na arca a esperar
A chuva parou, se alegrou Noé.
Que obedeceu a Deus, por ser homem de fé.

Caracolada

Está aberta a época. Fomos aos caracóis. De regresso da mercearia, pareceu-me ver demasiada gente na esplanada para esta altura. Imagino caracóis e imagino muito bem. Não resisto e sento-me na mesa, tu brincas com os pés e eu como um pires de caracóis grandes e pequenos. Uma delícia. Logo à noite, o papá vai ficar cheio de inveja e quase de certeza que vamos ter de voltar lá com ele ainda esta semana.

06 abril 2005

Batatoon

De repente, o olhar fixo e um ar de interrogação.
Parece-me que o anúncio do ecoponto foi destronado.

05 abril 2005

Tudo por causa de fotografias

Dizem que te maltrato. Maltrato são abusos físicos. Maltrato é muita outra coisa. Não retratos de uma mãe babada. Não, não. Sabem lá eles o que é o maltrato.

É bom, é muito bom

Sinto um profundo agrado quando hesitam entre me tratar por menina ou senhora. Não tenho receio em envelhecer, mas tenho medo que a vida me amargue.

Quatro dias

Carrego uma dor de cabeça desde sábado passado. Tudo porque não tomei o café da manhã e íamos a um casamento. Hoje a seguir ao almoço tomei outro café. Piorou. Estou cansada disto, mas antes dor de cabeça do que outras dores: inveja, falta de auto-estima, depressão. Que Deus me livre.

O que ninguém sabe

e que não precisa saber porque não pode compreendê-lo na totalidade, é que sim: a maternidade deu-me volta à cabeça. Amo-te como nunca amei ninguém e esta família que temos, juntamente com o papá, é a que eu quero manter sempre. Somos três e um dia poderemos vir a ser quatro, cinco, seis ou sete. Seja lá quantos formos, que o sejamos sempre assim: felizes e unidos.

Talvez no meu funeral

Gostava que um dia dissessem que a minha maior qualidade era ser leal.
A lealdade prova outros valores: é dedicação, é fidelidade, é amizade, é amor.

03 abril 2005

Parabéns

É a primeira vez que te dou os parabéns na blogosfera e que mais ninguém lê. Mas também foi hoje, pela primeira vez, que chorei ao pensar que 11 meses é quase um ano. Cresce devagar, filha.

Perdoa-me ( em privado )

Arrependo-me de todas as vezes que perco a paciência. Que respondo mal, que fico desorientada. E reflicto sobre isto. Não quero ser uma mãe que tem de pedir desculpa. Quero ter a mesma paciência ao levantar e ao deitar. E nos dias em que eu estiver irritada, perdoa-me.

01 abril 2005

O novelo ( o parto contado pelo papá )

O nascimento da Maria não foi uma coisa bonita de se ver.
Na cabeça do pai o difícil era a sucessão dos nove intermináveis meses. Chegar à sala de partos seria uma espécie de cereja no topo do bolo gestacional. O climax, o looping na Montanha Russa. Mas o bilhete reservava-nos atracções que pertenciam ao Comboio Fantasma.
Naquela segunda-feira de manhã era dia da consulta de rotina. Ao falar com a mãe a médica confirmava que já havia perda de líquido amniótico. Não sairia do Hospital. Quando o pai foi buscar a mala a casa os ânimos eram elevados. No regresso a primípara (designação técnica para quem dá à luz pela primeira vez – a gravidez é uma floresta de termos técnicos) sofria os efeitos da indução do parto. Do lado de Adão não havia muito mais a fazer que não comer algumas bolachas para disfarçar a fome do almoço e tentar elevar os espíritos na sala. Não é preciso acrescentar que ambas as tarefas foram muito mal superadas.
Para citar o grande João César Monteiro, “prossigamos sem demoras”. Relatos especializados é coisa do Levítico. Não me apetece estar aqui a contar os côvados das arrastadeiras nem a capacidade das garrafas de soro. Avancemos para os tão esperados últimos quatro dedos de dilatação.
Mandaram-me vestir uma bata, uma touca, umas protecções para os sapatos e aquela coisa para a cara que só nos deixa os olhos a descoberto. Em tons de verde e branco. Adiaram por alguns minutos a minha entrada no bloco de partos. Quando finalmente me permitem o ingresso naquela câmara apercebo-me da ansiedade comum à médica e aos enfermeiros. Mas como nunca tinha assistido a nenhum nascimento pensei que fizesse parte do ofício. Viria a entender poucos momentos depois que a coisa estava complicada. “Este bebé tem de nascer já!” é uma frase que arduamente acalma um casal que se nutriu a postaizinhos de mamãs americanas em sorrisos de pós-expulsão da placenta.
Já contei isto muitas vezes. Quando a Maria nasceu parecia um novelo a desfiar-se sobre o ventre da mãe. Pés, braços e cabeça num movimento sem vida. Uma lã bonita mas demasiado roxa. Foi levada para uma divisão próxima para ser reanimada. Talvez tenha sido um minuto ou mais. Aproximamo-nos de Deus no sofrimento porque o sofrimento está fora do tempo. A tal história da equivalência entre mil anos e um dia. A pessoa sofre e sai fora do tempo. A Maria acabou por chorar. O que aqui tento descrever poeticamente resume-se no indíce de apgar de nível cinco. Nada assim tão dramático, portanto.
A incubadora, o frio da sala de recobro, a ausência da filha no quarto e a perda de sangue da mãe fizeram o “dia mais feliz da vida” despenhar-se com os porcos gadarenos ravina abaixo. Valeu-nos o facto de que a alegria vem pela manhã, como diz a Palavra. Não são necessárias nem desejáveis mais descrições.
Saimos uns dias depois do Hospital. Levávamos numa cadeirinha azul uma criatura com pouco mais de três quilos da qual pouco mais sabíamos para além do facto de ser um mamífero. Quando acabo de redigir esta humilde página no Word ela olha para mim deitada no cobertor da Heidi que já tinha sido da mãe, de dedo na boca (chumbámos na pedagogia da chucha) e sorri. Juro. Como que a confirmar que o que escrevo se encontra aceitavelmente dentro dos acontecimentos reais. Posso pôr o ponto final.

O parto-até hoje guardado num doc. Word

(Querida filha, registo o dia do teu nascimento com receio que alguma vez me esqueça de um ou outro pormenor. Tudo isto está ainda muito vivo na minha memória, duvido que venha a desaparecer. Mas pelo sim, pelo não, escrevo.)

Cheguei ao dia do teu nascimento muito calma e expectante. A ansiedade não era medo, era pressa em te conhecer. Nunca me lembro de estar receosa. Sabia que doía, eu própria tinha assistido a um momento desses. E comecei a indução do parto com uma atitude muito positiva.

Após duas horas de líquido na veia, vários toques dolorosos e um rebentar das águas provocado, as dores muito parecidas com as menstruais traduziram-se em dores muito fortes na barriga, nos rins. Um mau estar muito grande que culminou com vómitos. No entretanto, recebia telefonemas, fazia jogos psicológicos comigo própria e pensava que aquilo tudo eras tu a vir ao Mundo.

Muitas dores fizeram com que me queixasse ao papá e implorasse um alívio. Mas a dilatação ainda não era suficiente para a epidural e preparei-me para estar bastantes horas a aguardar. Aguentei-me sem me descontrolar. Quando finalmente a primeira dose de anestesia chegou, mal me mexi, para que o catéter ficasse bem colocado e eu visse as dores aliviadas. Foi o milagre do céu, fiquei novamente apenas com algumas dores menstruais.

Quando dei por mim, estavam no quarto a avó Nice, a avó Tina, a Tia Sara e o Tio Ruben. Confesso que mal os ouvi, travei conversa com eles mas só pensava em ti. Queria distrair-me quando as dores apertaram novamente.

Tinha umas sensações esquisitas que só mais tarde percebi que eras tu a a dizer que tinha chegado a hora. Mas não me queixei. Quando doía muito e queria nova anestesia, já não havia tempo. A tua cabeça careca estava a dar ar da sua graça. O momento de irmos para o bloco de partos foi comigo à beira das lágrimas, estava muito feliz porque ias nascer e comigo acordada.

Recordo-me de lá chegarmos e de ter pulado sozinha da cama para a marquesa. Elogiaram-me a atitude na altura. Recolocaram-me as cintas e nesse momento o teu coração começou a desacelerar. A enfermeira fez-me uma festa na cara e disse-me:” Mãe, vai fazer força para este bebé nascer rapidinho!”. E eu fazia. A médica também me deu algumas instruções, repentinamente passou a tratar-me por tu e disse esta frase que nunca me sai da cabeça: “Ana Rute, vamos ajudar-te a parir esta criança!”.

Os movimentos cardíacos continuaram a baixar. O papá tardava em chegar. A médica começou a fazer pressão e a minha força não chegava. O papá chegou, agarrei-lhe na mão e inspirei a quantidade de ar maior que consegui. Nada de nasceres. A enfermeira Luisa, grávida de 7 meses, olhava ansiosa para o aparelho CTG. E disse: “Este bebé tem de nascer e é já!”. Ela e outra enfermeira muito grande, uma de cada lado, colocaram-se em cima de mim e ao fim de vários movimentos desses, senti-te a nascer.

Quando te colocaram em cima de mim, num movimento rápido para cortar o cordão umbilical, estavas demasiado roxa e sem movimentos de vida. E em vez da tradicional preocupação das mães em verificarem se o bebé é perfeitinho, a minha era: “A Maria não respira”.

Levaram-te para uma sala ao lado, com uma janela em vidro baço e brilhante. Na parte brilhante, via batas verdes e um bebé a ser revirado. Connosco na sala, estava a médica, sem dizer nada. O papá perguntou: “Dr.ª, ela não chora?”. E nada de respostas. Segundos, minutos, horas de eternidade na minha cabeça, choraste timidamente.

Quando te mostraram a mim, enrolada num pano e sem a roupa que tínhamos levado para te vestir, estavas branca. Deixaram que te desse um beijo e levaram-te. Fui cosida, estive no recobro e mal falei. O papá tirava-te fotografias na incubadora e trazia a máquina para eu ver.

Passei a pior noite da minha vida, sem me poder levantar e sem te poder ver, tocar, sentir. A minha barriga parecia um balão vazio e nada fazia sentido. Não queria enviar mensagens escritas a avisar que tinhas nascido. Queria ter a certeza que estavas bem para poder ficar bem.

As tentativas de me levantar a meio da noite deram desmaios e mais hemorragias. A enfermeira que tratou de mim nessa noite era uma jovem da minha idade, loura e muito calma. Não me esqueço da cara dela. Era bonita, tranquilizante e foi um bálsamo naquelas horas.

Eram 8.00 da manhã quando consegui tomar um banho, vestir a camisa e endireitar-me para ir até aos Cuidados Intensivos. O papá apresentou-me a ti. Tinhas um fatinho cor de rosa do Hospital e dormias de lado. Estavas incrivelmente bonita e o teu ar não dava a entender o sofrimento da noite anterior.

Demorei alguns minutos até te conseguir tocar. Não queria chorar. Ansiava pelo momento em que me dissessem que estava tudo bem e viesses para o quarto e falássemos as duas. A enfermeira que tratava de ti, nos seus gestos abrultalhados, era muito carinhosa. Lembro-me de dizer: “Esta bebé é mesmo gira!”. O momento de te levar chegou eram 13.00. Feliz, empurrei-te no berço de plástico e dei-te a conhecer à família ansiosa.

Nesse dia, depois das visitas, deitei-me contigo ao lado. O papá foi comer ao MacDonald’s. Fiquei horas a olhar-te, a dar de mamar e com uma felicidade que não pensava ser possível de existir. És o melhor da nossa vida.

10 de Maio de 2004

Para hoje, o que me apetecia era:

uma tarde no campo, com cheiro a margaridas, chinelos, e caracóis para comer.

Há dois anos

Criava o meu primeiro blogue. Tu não existias e nem pensávamos muito nisso. A blogosfera era uma realidade desconhecida para mim e ao mesmo tempo muito sedutora. Falava-se de política, falava-se da guerra no Iraque. Eu falava da minha colega e do meu local de trabalho.
Já não trabalho com a colega e o Iraque está diferente. Eu também mudei mas acho que foi bom.

Sempre os detalhes

Dormi mal. Ontem adormeceste duas vezes e por duas vezes acordaste. Quando isto acontece e te deito na cama comigo, já sei que se instala a luta entre o meu sono e a tua vontade de brincar. Ontem "escarafunchavas" o sinal que tenho ao lado do nariz. Eu desviava a cara, tu insistias. Suspiro fundo. Estou cansada.