31 maio 2005

Dos avós

A avó Tina serve para passear. O avô João serve para rir. O avô Henrique serve para ligar interruptores. A avó Nice serve para brincar.

Cada um quer ser o preferido. E em gestos particulares, são.

Blhac.

Faz hoje dois meses que criei este blogue. Na altura, andava nas bocas do mundo porque, supostamente, explorava a imagem da minha filha em fotografias na internet.

Na altura, fiquei chateada. Hoje, isto dá-me vontade de rir. Querem enfiar os demónios que espreitam a cada virar na esquina, apenas na internet. É hilariante e ingénuo.

Esta semana, a minha filha, juntamente com o pai, aparece numa revista. Isto já parece reunir o consenso geral. Que gira, a reportagem na Pais & Filhos. Mesmo gira, a fotografia...

Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte
nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante-
ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que importa é não ter medo:
fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade rapaz?
E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra



Mário Cesariny de Vasconcelos
Nobilíssima Visão (1945-1946), in burlescas, teóricas e sentimentais (1972)

Sonhos divertidos

Acordo. O bebé ria às gargalhadas. Ria, ria, ria. Até que se calou. Olho para o relógio: Três horas da manhã.

Política da qualidade, Rotinas, Instrução de trabalho

Dão-me voltas ao estômago.

30 maio 2005

Uma cantilena, a olhar para a varanda:

Ai! Admeee...Ai! Admeee...Ai! Admeee...
Ai!Ai!

(preciso de um dicionário.)

Nasceu o primeiro dente.

Esta noite resmungou ( e eu não ouvi nada, foi o pai quem me disse) e esta tarde também.

Fora com: canecas, garrafas de água, fotografias, fita cola.

Numa auditoria, anseio por gavetas. Toda a tralha acumulada na secretária e apêndices, mergulha lá para dentro. Depois, é arrumar, praguejar pelas respostas mal dadas, voltar a dar ar de gente a este lugar e descobrir nos gavetões, lá bem no fundo, outra tralha ainda mais antiga, como comprimidos fora da validade.

As mulheres que escolhem não ter filhos

Chateiam-se com as mulheres que escolhem ter filhos e que ficam alteradas. Nunca tive muita paciência para esta discussão. Aliás, eu tenho pouca paciência para discussões. E esta é daquelas que não valem mesmo a pena.

Não tenho nada contra quem não quer ter filhos. Eu sempre os quis ter. Sempre achei que o caminho natural da vida era esse. Tive a Maria. A minha vida mudou. E sim, as minhas conversas são rodeadas de fraldas, toalhetes, cocós e afins. Uma tremenda seca, calculo. Mas é a vida.

Agora fazemos um acordo: eu não chateio quem não quer ter filhos (aliás, nunca chateei) e não me chateiam a cabeça por ficar maravilhada com as gracinhas que a minha fiha faz. Pode ser? Obrigada.

P.s.- E aquelas coisas de dizerem que as mães se armam em superiores e que são arrogantes etc...give me a break.

29 maio 2005

Média de um casamento cada dois meses




e assiste pela sexta vez a um casamento.

29 de Maio de 1976

Há 29 anos atrás, casava-se Maria Celestina Baptista Pereira com João Manuel da Silva Oliveira. Tinham 27 anos, ambos. Dias depois, numa lua-de-mel por terras madeirenses, começava a existir um feijão que se viria a chamar Ana Rute Baptista de Oliveira. Eu.

28 maio 2005

Exclusividade

Há gestos que a Maria tem que só os faz comigo. Tal como outros que faz apenas com o pai (ex: dançar mal ele simule qualquer ritmo). Um deles é, depois da ausência de parte de um dia, ver-me, esperar que lhe pegue e chuchar imediatamente no dedo. Mesmo que no minuto seguinte queira continuar o que estava a fazer, existe este ritual. É um gesto só para mim, uma compensação dos nove meses que dividimos o mesmo corpo.

27 maio 2005





Amarelo, bonito.

Quando eu era miúda, o Pavilhão Carlos Lopes era um dos locais onde o meu pai trabalhava. E íamos para lá brincar, no meio das árvores e paredes antigas.

Estes dias, é onde estaciono o carro.

Músicas que cantamos para ti e pareces gostar (10)

Zaqueu era um homem baixo
E que nunca mais cresceu.
A uma árvore ele subiu
Para ver o Salvador.
Para ver o Salvador.

Passando Cristo por ali,
o viu e o chamou:
"Zaqueu, desce depressa,
em tua casa entrarei eu".

Até dizemos adeus!

Como somos gente culta, eu e o meu irmão passamos as tardes (ele as noites, também) no mesmo sítio. Avisto-o da minha janelinha e ele da sua. Ele "explica" Bíblias, eu mostro materiais infantis.



Continuação do post anterior

E quando os namorados vestem aquelas camisas com ratos ou ursos atrás (Sacoor?), ainda me metem mais pena. Dá-me a sensação que foram obrigados e que, na hora de deitar, também têm de vestir pijaminhas aos corações e boxers com peluches.

É o amor?

Manifesto a minha solidariedade para com os namorados que são arrastados pelas suas mais-que-tudo para o Centro Comercial, em pleno feriado, para escolher roupa. Metem dó, à espera do lado de lá do pano, ou a deambular pela loja, no meio da confusão.

Eu também queria mas...

Há pessoas que querem tanto que seja Verão que insistem em usar sandálias, embora esteja a chover.

26 maio 2005

O aspirador

é a melhor melodia para adormecer. Pelo menos na faixa etária 9-18 meses.

25 maio 2005

Desperate housewives

É o que eu sou a maior parte dos dias. Invento truques que me poupem o tempo que a casa precisa para funcionar sem parecer um acampamento de ciganos. Não gosto da maioria das tarefas que obrigam ao bom funcionamento do meu T2, mas também não suporto ver o cenário descontrolado. Invento truques e os meus amigos riem-se. Mas funcionam, é o que digo:

- Ao retirar a roupa da cama, ponho a arejar e dobro tudo bem dobradinho antes de entrar na máquina. Ao estender, tal como está. Guardo numa caixa como sai da corda, direitinho. Voa para a cama quando se muda novamente. Tudo bem esticadinho até parece passado a ferro. ( e lava bem, nada de duvidar disso! )

- Calças de ganga e outra roupa de material mais difícil de passar a ferro, reduzo as rotações de centrifugação. Evita-se que amarrote tanto a roupa. Mesmo que leve mais tempo a secar, custa menos a passar.

- Camisolas minhas e roupas da Maria: programa de roupa delicada com secagem. Fica tudo fofinho e não se passa nada a ferro, salvo algumas excepções.

- Evito varrer o chão, aspirar não levanta pó.

Quando me lembrar de mais, postarei. As poucas pessoas que lêem este blogue divertir-se-ão. Quanto à série que dá título a este post e que ainda não vi, um pormenor: que donas de casa tão bem arranjadinhas!

Uma certa quantidade

Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade

Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião

Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá

E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar

Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro


Mário Cesariny

24 maio 2005

Argh!

O que eu luto contra as bengalas gramaticais. E o que me enervo quando não me livro delas. Na mesma frase: exactamente.

Carro da empresa herdado de outro colega

Ar de espanto da minha mãe:

Andas com um terço pendurado no espelho do carro?

Marcha tudo

Banana, maçã, manga, pêra, uva, meloa, laranja, tangerina, pêssego.
A descoberta de hoje foi a cereja. Igualmente aprovada.

O conforto

Chegar ao fim do dia a casa dos meus pais. Ouvir ao fim da rua muitas gargalhadas e vê-los chegar: os avós, a bebé e a cadela. O tal riso contagiante que a Maria tem, a abanar as pernas de excitação no carrinho, bochechas rosadas e chapéu na cabeça. É a compensação enviada do Céu por não estar mais tempo com ela. Vê-la feliz.

23 maio 2005

Pela quinta vez, Ana Rute

Depois de me ter tratado por colega, querida e menina, aguardava serenamente que a formadora me chamasse filhota para lhe recordar o meu nome e chamar pela minha mãe, a única detentora dessa amorosa expressão.

22 maio 2005

Blogues de bebés ou baby blogs

Quando entrei para a blogosfera, falava-se de política. Da guerra no Iraque. Eu demarquei-me logo, consciente das minhas limitações. Diverti-me como pude, falei com gente interessante. Engravidei. Não me lembro de blogues que falassem de bebés. Lembro-me de um, de uma mãe e de um filho, que gostava muito. Nada mais.

A minha filha nasceu e falava dela, escrevia sobre ela. De repente, existiam baby blogs e fui incluída na categoria. Se este é outro, pouco me interessa. O meu nome é Ana Rute, sou casada com o Tiago e temos uma filha chamada Maria sobre a qual ouso escrever. Para ela e para quem gostar de ler. Está dito.

Confissão

De uma coisa gosto na amizade: a sua imprevisibilidade. Os amigos aparecem onde menos se espera, quando não se anda à procura e estão para lá do racional. Isto é belo, é tocante e pode ser eterno. Basta querermos.

Músicas que cantamos para ti e pareces gostar (9)

( com gestos e sons no meio)

Quem é o Rei da Selva?
Quem é o Rei do Mar?
Quem é o Rei do Universo?
E quem é o meu Rei?

Eu digo:
J-E-S-U-S
Jesus!
Ele é o meu Rei.
Ele é o Rei do Universo, da Selva e do Mar!

Ai, ai.

Um vista sobre o mar, um sítio belíssimo e descansado, um jardim e mais divisões a que estamos habituados. Imaginar a disposição das nossas coisas, as eventuais a comprar e novos filhos lá. Sonhar é mesmo bom, não há como negá-lo.

21 maio 2005

Sonhar.

Não é o melhor da vida, mas ajuda muito ao nosso (meu) bem estar. De vez em quando.

20 maio 2005

Saudade, saudade...

De manhã, quando não nos queríamos levantar, o meu pai gritava:
Toca a acordar, pessoal das barracas!

Tem de ser.

Ontem à noite acabei de ler um livro que tinha largado há demasiado tempo no aparador da sala. E decidi que é uma vergonha o pouco que leio e a falta que me tem feito. Recomeçarei hoje. Porque o tem de ser e a vergonha têm muita força!

De igual para igual

O Oeiras Parque tem um recinto cheio de escorregas, casinhas de brincar e cavalinhos. A Maria percebeu que era a única criança que estava do lado de fora. Gesticulou os braços ofendida, olhou para mim a franzir o sobrolho e disse qualquer coisa num dialecto muito próprio que me pareceu uma ordem. Tive de entrar e observar o ar dela de importante, sentada no alto do escorrega, a olhar para os outros miúdos.

Zara-Trafaluc-2001-tam. 38/40

De vez em quando, dá jeito arrumar o roupeiro. Nos cabides do fundo, junto à roupa que raramente uso, umas calças de ganga pré-gravidez que me servem.

Contra

Não faço parte do grupo de mulheres que recorrem ao uso de palavrões para se sentirem emancipadas.

19 maio 2005

Falar em público nunca foi o meu forte.

Tudo o que ultrapasse o número de cinco pessoas, é tarefa que me atrapalha os nervos. Desde que a nível profissional isso me foi desafiado, tive de começar a aprender. As primeiras audiências pareciam cheias de fantasmas, a voz falhava-me e uns calores que me subiam pelo corpo minutos antes soavam-me a pânico.

Nada como o treino para se aprender mesmo. Pela primeira vez sinto que cumpri o objectivo sem nenhuma falha. Nem voz a tremer, nem pensamentos trocados, nem olhares fugidos. Sinto-me com a missão cumprida. E sinto-me bem.

Momentos deliciosos

O bebé de duas semanas chia quando muda do colo do tio para a tia, mexe ligeiramente os braços e os dedos, abertos entre si, parecem as garras de um pequeno passarinho. A dependência, a pequenez e a doçura são comoventes.

Músicas que cantamos para ti e pareces gostar (8)

Nós damos graças ao Senhor
Nós damos graças por Seu amor.

Nós damos graças ao Senhor
Nós damos graças por Seu amor.

Pela manhã, as aves cantam
Acções de graças ao Nosso Salvador.

E tu, Maria, por que não cantas
Acções de graças ao Nosso Salvador?

18 maio 2005

Sem pc, sem tv e sem marido

Sozinha em casa com a Maria, às dez horas da noite, as luzes começam a piscar. Oiço um som parecido com uma nave espacial, a acompanhar a diminuição progressiva da luminosidade, até ficarmos completamente às escuras. Mas o quadro não se desligou. O estabilizador de corrente do computador começou a apitar, a Maria a chorar e o trailer começou. O bairro inteiro com luz, menos nós. Acender velas em todo o lado, Maria ao colo a achar uma emoção aquele espalhafato e eu sem saber o que fazer. Deitei-me, adormeci, acordei com o pai e o piquete a tratarem do assunto. Parece que era um fusível.

Chéché

Confundi a data de aniversário do gato que já morreu com o dia de anos do meu sogro. Isto vai de mal a pior.

Baralhada, ora bolas!

Cresci a ouvir dizer que era parecida com o meu pai. De há uns anos para cá, há até quem me confunda com a minha irmã, que por acaso é cópia da minha mãe. Ora, se a Maria é parecida comigo, eu estou parecida com a minha mãe, mas a bebé parece-se com o avô, e os meus pais não são parentes, como é que eu resolvo esta confusão?

17 maio 2005

Eu queria umas calças de ganga

e por isso fui ao Centro Comercial. A média de conhecidos voltou a aumentar, o que faz com que este estudo de mercado tenha de ser bruscamente alterado. Procurei, procurei. E o problema é que as várias calças que a minha carteira pode pagar são feitas em lojas de adolescentes de roupas fluorescentes. E estas meninas têm um traseiro metade do meu. Estou indignada.

Conclusão: nada de calças.

Novo sketch Gato Fedorento

Não bás por aí...bais dar uma ganda volta...

E não páro de rir.

Dos segundos que não se repetem

Há coisas tão preciosas, que dava jeitos ter uma gaveta só delas, catalogadas com separadores, datas e ordem de importância. Assim, ao serão, retirava-as e revivia-as como me apetecesse, o tempo que fosse necessário. Tornava a guardá-las e sabia que elas estavam sempre lá.

Importa-se de repetir?

É frequente ouvir, a título pessoal: "Sabes, quando te conheci, não te achei nada simpática, mas depois percebi que não era nada assim".

Mas também é costume, a nível profissional: "Sempre foste simpática, mas muito reservada".

(ambas são verdade, confirmo)

No meu tempo, inventávamos desculpas melhores para visitas de estudo

No serão de domingo, a Quinta das Celebridades. Na assistência, para além do tradicional rancho de caseiros que devotam o Gonçalo da Câmara Pereira, muitos jovens. A Júlia Pinheiro perguntam de onde são. Uma senhora com idade para ser minha mãe diz que é professora da Escola Secundária de Moura. Orgulhosamente, informa que trouxe os seus alunos para o grande directo.

(Perplexidade, interrogação. Perplexidade, interrogação. Gargalhadas.)

À beira do vómito

Às 8h45m, os corredores desta empresa sofrem tal mistura de fragâncias de mulheres e de homens, que apesar de não estar grávida, sinto-me em plenas 9 semanas de gestação.

16 maio 2005

Assim de repente, no mesmo local,

a minha casa podia ser aumentada para os lados, com mais duas divisões. Chegava.

Que hora son mi corazon...

Na esperança que o Verão chegue rápido, oiço Manu Chao.

15 maio 2005

Dias

Da amizade, quem não gosta de receber uma mensagem escrita, um abraço, um gosto de ti dito em palavras ou de tantas formas diferentes, um presente, uma carta, um e-mail? Nos gestos que sabemos que foram feitos com o outro, neste caso nós, em vista. Se todos estes actos me deliciam e tocam, nada há de mais precioso quando a amizade também se demonstra nos dias de angústia, nos é confiada uma lágrima ou um segredo. E, nesse momento, entre a tristeza do outro que nos toca, é uma alegria de cumplicidade que se gera. Fomos dignos de confiança e a fasquia ainda é mais elevada. É uma promoção na escola da vida que não pode ser esquecida. Ou não fôssemos amigos.

Viva!

Eu, que não tinha preferências pelo sexo do bebé enquanto crescia na minha barriga, reconheço uma das vantagens de ter tido uma menina: até agora ninguém se lembrou de lhe impingir nenhum clube de futebol nem de lhe repetir inúmeras vezes a pergunta: De que clube és?

14 maio 2005

Lágrimas de riso

O pai assustou a mãe. A mãe deu um grito. A bebé achou piada e soltou umas gargalhadas. E continuou, até ficar vermelha de tanto rir. A mãe repetiu o grito, a bebé a rir. Largos minutos, assim continuou. As lágrimas corriam-lhe pela face bolachuda e suspirava de cansaço. Um bom tempo depois, ainda ameaçava rir, quando a mãe mudava a expressão, como que a querer repetir o grito.

13 maio 2005

Rua São João da Mata, Santos-o-Velho

Andar perdido por Lisboa pode ser mau. Especialmente a um dia de semana, logo de manhã. Algures na Lapa, estava o meu destino. No entretanto vou ter ao número 29 da Rua São João da Mata. Abrando e penso: "Fui muito feliz aqui".
Sigo caminho.

12 maio 2005

12 meses, um ano.

Como um ano faz imensa diferença. O meu sobrinho dorme no quarto, depois de mamar. Nenhum som, tudo tranquilo. A Maria anda pela sala, abre gavetas e protesta a qualquer chamada de atenção. Já não mama e dorme à noite. Para mudar a fralda, mexe as pernas e tenta fugir. O tamanho é o 5 e o do Rúben é o 1. Ela brinca e concentra-se nos interruptores, o nosso colo serve para quando lhe apetece ou tem sono. O Rúben dorme profundamente e o seu mundo e sonhos devem ser feitos de leite materno e cheiro dos progenitores. Daqui a um ano talvez brinquem juntos. Dentro de doze meses será o Rúben a protestar, a querer começar a andar e nessa altura a Maria já deve correr. O tempo passa e mais rápido do que podemos controlar.

Para lá da objectiva

Estavam os meus dois pedaços de vida.

11 maio 2005

Música que quem costuma cantar é a tia Raquel

(cantada com sotaque brasileiro)

Quem está batendo na portinha do meu coração?
Maria, abre a janela querida,
Que a noite está tão linda
E a serenata é prá você.
Você, você, somente para você.


Macacos me mordam!

Acho que já disse isto: trabalho bem debaixo de pressão, prazos apertados, muitos nervos. O que eu tenho mais dificuldade em lidar são as pessoas que, nas mesmas circunstâncias, gritam alto, falam dos colegas com nomes feios e não ouvem os outros. Pior, quando alguém lhes tenta explicar algo em tom moderado ainda acrescentam, descontroladamente: "Calma!"

Filha,

Já me habituei ao ritmo de trabalho. A sair de casa contigo a dormir, a dar-te o almoço, a deitar-te na cama para a sesta, a regressar ao trabalho, e rever-te ao fim do dia. Na maior parte dos dias cedo à rotina e não me ponho a pensar como seria se assim não fosse.
Mas há dias em que penso. Hoje é um deles. Tenho saudades tuas.

Os bebés de hoje são tão modernos

que hoje de manhã recebo uma mensagem escrita começada por Tia Rute e terminada com muitos beijinhos do sobrinho Ruben.

10 maio 2005

Raciocínio de bebé

Bebia água. Pedi-lhe um pouco: "Dá à mamã". E fingi beber. Das vezes que voltei a pedir, colocava o biberão na minha boca e, quando eu parava, voltava a beber. Mas sempre pronta a dar-me, de cada vez que lhe pedia.

Semelhante a isto, ontem. Chego a casa dos meus pais e dois recipientes. Um com uma vela, o outro vazio. O meu pai: "Maria, põe no outro". E ela, com jeitinho, puxava a vela e colocava no outro, trocando ao som dos pedidos do avô. Atenta, muito atenta.

O meu pai chamava-lhe motricidade fina. Eu não sei como lhe chame. Fiquei muda.

Em Jeremias 29:11-13

Porque eu bem sei os pensamentos que tenho a vosso respeito, diz o SENHOR; pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar o fim que esperais.
Então me invocareis, e ireis, e orareis a mim, e eu vos ouvirei.
E buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração.

Questão do dia

Sou a única mulher do meu grupo de trabalho que raramente se pinta. E não sou a mais nova. O que quererá dizer este facto?

Acabou-se a redução de horário

E por isso, chego ao emprego à hora que as senhoras andam a limpar os gabinetes para poder, ao almoço, dar beijinhos numa cara laroca que não dispenso e almoçar comida caseira sem discutir assuntos de trabalho.

09 maio 2005

Ao fim da tarde,

depois de andar a passear e brincar com o avô João, os caracóis estavam transpirados e cheirava a ciganinha. Chegou a casa, mergulhou na banheira e voltou a cheirar a bebé. Por quanto tempo?

Ecoponto no Top.

Tirar cds da estante, desarrumar os brinquedos, cantarolar. Tudo isto pára, incluindo o olhar, que bloqueia, quando se ouve na televisão:

"O ecoponto doméstico...pequeno! Pequeno! Assim vai ser mais fácil separar as embalagens usadas!"

Não sei quantos segundos, mas mal a imagem muda para o anúncio que se segue, desvia o olhar e define a estratégia de desarrumação seguinte.

Marretadas

Passo o dia em choque com a minha imperfeição. Isto dá-me dores de cabeça. Enxaquecas a sério.

08 maio 2005

Cobertor na alcofa, bicos de silicone, frequência dos banhos, as cólicas e amamentar.

O tempo passa a correr. É um facto. Passa tão depressa e vive-se tão intensivamente que acho que acabo por me absorver de tal maneira no presente que mesmo o passado recente parece já não ter espaço na minha memória. Isto porque o meu sobrinho nasceu na mesma semana da Maria. Tento relembrar-me de pormenores, a pedido da minha cunhada. E alguns, não me lembro. Foi há tão pouco tempo mas parece que já aconteceu tanta coisa. Valem-me as fotografias, os mini-filmes e o caderno.

Confirma-se

Há semanas perfeitas.

Na Igreja, os parabéns cantam-se assim:

Os anjos lá no Céu
Estão também cantando
Mais um aniversário que a irmã está festejando
E assim por muitos anos
Com Deus aqui estaremos
Alegres e felizes novamente cantaremos
Parabéns minha irmã!

06 maio 2005

Momento mágico do dia

Pegar no meu sobrinho pela primeira vez e ver que se acalma ao meu colo. Parece que ainda me lembro como é. Mas a responsabilidade é maior.

Há um ano (7)

Os meus pés ainda tinham restos de azul,eu queria esfregá-los mas não me conseguia dobrar.

Consulta do primeiro ano

Peso: 11,865 Kg
Altura: 78,5 cm
Perímetro cefálico: 48,5 cm

Tudo fora do percentil.

Maria,

O papá falava ontem no seu blogue acerca dos complexos de inferioridade que um filho de um casal evangélico adquire no seu crescimento. Desde cedo apercebemo-nos que somos diferentes, que os nossos domingos não são de idas à praia ou que, no meu caso, não vemos as telenovelas brasileiras que toda a gente vê.

Raras vezes tive complexos ou senti vergonha. Mas recordo-me de uma vez, em que me senti inferiorizada. E recordo-me também da passagem bíblica que li nesse dia, em Isaías 40:31:

Mas os que esperam no Senhor renovarão as suas forças; subirão com asas como águias; correrão, e não se cansarão; andarão e não se fatigarão.

E percebi que ser diferente era bom.

05 maio 2005

Músicas que cantamos para ti e pareces gostar (7)

(relata o episódio em Actos 3:1-9)

Prata e ouro não tenho,
Mas o que tenho te dou.

Em nome de Cristo de Nazaré,
levanta-te e põe-te de pé.

Andando, saltando e
louvando a Deus.

Andando, saltando e
louvando a Deus.

Em nome de Cristo de Nazaré,
levanta-te e põe-te de pé.

04 maio 2005

O reencontro

Com a médica que nos assistiu há um ano, foi bonito. Eu carregava a Maria às costas e, ao fundo do corredor, abriu os braços e disse: "Ana Rute!". A Maria saltou para o colo dela e para os instrumentos que trazia pendurados ao pescoço. Falámos de há um ano, do primo acabadinho de nascer. Despedimo-nos e disse-me. "Apareça com outra prendinha, cá a espero!".

Às 16h45m

No quarto 3.06, no mesmo local onde dormia eu feliz há um ano, estavam os pais mais radiantes do momento e o bebé mais lindo que vi nos últimos tempos. Vestido de azul e com um gorro do hospital, dormia. Eu olhei-o muito tempo. Quando me dirijo para a Maria, ela pareceu-me enorme. Nasceu o primeiro primo e hoje é um dia para sorrir e levantar as mãos ao Céu. Vale a pena chorar de alegria.

Às 10h31m recebo um telefonema:

"Já podes dizer que és tia. Nasceu o Ruben!"

03 maio 2005

Há um ano atrás (6)

A nossa vida mudava. Nascia a Maria às 21h43m.
E eu estava como estou hoje: sem palavras.

Há um ano

Os meus pés continuavam azuis e eu desculpava-me a cada funcionário, enfermeira e médico que entrava no quarto 2.12 para me observar.

Há um ano (4)

Eu vestia umas calças brancas, uma túnica de ganga ( que o meu pai sempre elogiava, ele que não comenta as vestimentas a ninguém), saía de casa e perguntava ao pai da Maria:

"Pelo sim, pelo não, não queres colocar as malas na bagageira?"
E ele respondia:
"Não vale a pena!"

Eu sabia que valia, mas para não o assustar, partimos para o Hospital sem malas.
Duas horas depois, ele vinha buscá-las.

02 maio 2005

Uma barra antiga diz assim:

Our baby is 11 months, 4 weeks & 1 day old.

Há um ano (3)

Passava o dia na Igreja e sentia-me incontinente. No meio de relatórios financeiros e mensagens pastorais, ia à casa-de-banho tentar perceber o que se estava a passar. Repousei em Deus e na consulta do dia seguinte. Não disse nada a ninguém e acabei o dia a raspar os pés, que teimavam em continuar azuis.

À Ana Gomes Ferreira

Um post muito especial. Porque és especial. Tenho de ser franca: dos vários e-mails que troquei com diversas pessoas através deste mecanismo que é a blogosfera, sempre ofereci resistência a cafés, encontros e conversas ao vivo. Contigo também foi assim. E o inadiável aconteceu: um café, telefonemas e uma atenção muito querida. Umas vezes és tia, outras és mãe e, em todas, és amiga. Este post vai sem linque, porque se foi na vida dos teus dias que nós entrámos, foi também nos nossos dias que passaste a estar. E nos nossos corações. Obrigada Ana e muitos anos de vida.

01 maio 2005

Há um ano (2)

Estava calor. Era sábado. O pai da Maria tinha ido tocar à Marinha Grande e eu fui passar o dia com os meus pais. Numa tentativa de que a Maria nascesse neste feriado, fui andar a pé com a minha mãe e com a cadela Papuça. Saímos eram 14.00, regressámos eram 17.30. Cansadíssima, descalço os sapatos para repousar e noto a minha mãe perdida de riso. Os meus pés, inchados e transpirados, tinham absorvido a tinta azul dos mocassins.