28 fevereiro 2007

A vida

não vem com manual de instruções.
Por isso, as teorias são sempre boas quando funcionam na prática.
Quando não funcionam, são apenas fórmulas que resultam com uns, mas não com outros.
Cada vez tenho menos paciência para fundamentalismos.

Uns dias,

tudo me parece relativamente simples e encontro respostas.
Nos outros, espero apenas que o dia passe.

27 fevereiro 2007

-"E então, conseguimos amar o segundo filho da mesma maneira?"

Sorri. A pergunta não me pareceu nada absurda. Nunca duvidei do amar, que o coração tem o tamanho que cada um de nós quer. Mas tive dúvidas. E se... era a forma mais frequente como as minhas frases começavam nesta gravidez. Preocupava-me, não tanto com a Marta, mas com a Maria. Como ia eu gerir a atenção que necessariamente, lhe ia ter de retirar? Como lidar com o facto de a enviar para a Escola todos os dias, estando eu em casa?

Despeguei-me de todos os medos às 23.15 do dia 21 de Novembro. Só aí. Vi a Marta e percebi que tinha um lugar a ocupar e que todos iriamos aprender a viver com isso. E estamos a aprender. Não me custa que a Maria vá para a Escola. Seria mais doentio prendê-la aqui nestas rotinas caseiras, quando está já tão habituada a actividades e amigos nas paredes amarelas e no chão azul da Escola.

-"Amas, aprendes a gerir. Às vezes tens complexos de culpa pelo tempo que tens de recusar a alguma, mas depois tudo é normal e tudo ganha o seu espaço."

(Depois lembrei-me dos meus medos que se seguem e que tantas vezes penso. Como será quando eu um dia vir os meus defeitos escarrapachados nelas, como as vou ajudar a crescer sabendo o quanto me custa a mim ainda hoje, como vou encarar as suas diferenças, como as ajudar quando elas não quiserem ser ajudadas, como lhes explicar o sofrimento, a morte, a dor, a injustiça? Como lhes transmitir um dia, que não controlamos tudo nem que somos infalíveis, como todos os filhos pensam? )

Na pediatra,


a segurar na bebé pelas axilas, constata:

"A menina está com a cabeça torta."

E está. Nada que eu não tivesse reparado, mas que achei que fosse de ter um formato de cabeça diferente da irmã, menos redondo.

Não é. Desde que nasceu que revela claramente uma preferência por dormir para o lado esquerdo. Refila de outros modos e nunca a contrariei. Eu também sou assim. Custa-me dormir para o lado direito, há alturas até que parece que não respiro tão bem.

Tem um lado da cabeça mais amachucado que o outro. Nada de grave. De postura, desde ontem que a tento contrariar. A ver se os ossos se endireitam. Lol.


Quando

a minha filha crescida, aquela que todos os dias chega da Escola e não pára um segundo, só pensa em Rucas e Doraemons e livros e bonecas e disparates, em vez de fazer isto tudo, se deita voluntariamente na minha cama e perante todos os estímulos adormece profundamente,

é porque está com febre. Doente.

26 fevereiro 2007

A minha filha pequenina

franze o sobrolho quando me vê de toalha enrolada na cabeça.

Afinal é bom ter caracóis

(ou a parte gira de ter o mesmo penteado desde sempre):

acabei de cortar o cabelo a mim própria e há a grande probabilidade de só alguém reparar quando existir maior humidade no ar. Até lá, devo parecer igual.

(A última vez que entrei num cabeleireiro foi há mais de um ano e não gostei do gajo efeminado que se contorcia em caretas enquanto tentava desembaraçar o ninho de ratos.)

Uma dor de cabeça


persegue-me há mais de uma semana. Não é uma dorzinha, é uma verdadeira enxaqueca, com picos de desconforto e ligeiro mal estar. Considero a hipótese de ter de voltar ao otorrino. Virada para o lado direito, deixo de ouvir a maioria dos ruídos. Já fui quase surda do lado esquerdo, mas aos 14 anos enfiaram-me um tubo pelo tímpano a ver se a otite serosa não me vencia.

Desde sábado que temos a ursinha carinhosa mais pequena constipada. Aprendeu a tossir, o que é bom, mas com a tosse traz muitas das vezes o vómito do leite que acabou de mamar. Não há nada mais frustrante, o de lhe acabar de fornecer alimento e vê-lo a ser expelido.

Voltamos à ginástica respiratória daqui a nada e aproveitamos para devolver o fato da sevilhana que serviu no Carnaval à filha crescida. Entretanto, encharco-me em Benurons, que me evitam algumas tonturas mas não me curam as dores da alma.

É sempre muito mais fácil falarmos de coisas que não vivemos. Na semana passada senti dores que não eram as minhas e entristeci-me como nunca com um drama que não foi o meu.


Gostar de coisas antigas (e herdadas) - 9

Balança de cozinha. Da avó Zé.


Gostar de coisas antigas (e herdadas) - 8

Açucareiro. Da avó Zé.


25 fevereiro 2007

Não somos beatos. Ou pelo menos não gostamos do termo. Os únicos domingos do ano em que não vamos à Igreja de livre vontade e sem pesos na consciência, são os das férias. Como se as semanas fossem todas de seguida, sem pausas e esse dia da semana não existisse. Depois regressamos e reencontramos as mesmas pessoas que, semanalmente, partilham esta manhã connosco. Esteja chuva, esteja sol, vento ou frio. Vamos ao domingo de manhã à Igreja. Não vamos pelas pessoas, mas também, senão ficávamos em casa.

Cresci assim, a prescindir dos desenhos animados e das idas à praia ao domingo. Vou por convicção, que ninguém no seu perfeito juízo se levanta antes das 8.00, atravessa Lisboa inteira para entrar num salão sem janelas, das 10.00 às 12.30. Deus não está só lá e por isso não é o lugar, mas a cerimónia. Não é só o que que recebemos, mas também o que damos.

Um domingo de manhã como o de hoje, em que tenho de ficar em casa-a mais nova ameaça um nariz ranhoso- é um domingo de manhã falsificado. Sempre mais triste.

(Depois há sempre alguém que me envia um sms a dizer que sentiu a minha falta e o dia ganha outra cor).


.Domingo.

Eu te exaltarei Senhor
Entre todas as nações
E celebrarei e cantarei
A tua glória
Porque o Teu imenso amor
Se eleva até aos céus
Tua fidelidade, tua fidelidade
Até às nuvens!
Senhor, eleva-te acima dos Céus.
Que a tua glória encha todo o Universo.

24 fevereiro 2007

Já me podiam ter dito

isto há mais tempo.

23 fevereiro 2007

Pergunta-me,

enquanto pousa a mão na minha, sentadas frente a frente, com uma mesa no meio:

(Fez sempre isto, mesmo antes de sermos amigas. Acho que foi uma das coisas que me aproximou desde o primeiro instante. A facilidade com que tocou sempre na minha mão, sem ser abusiva. Com proximidade, simplicidade, interesse.)

-"E então, conseguimos amar o segundo filho da mesma maneira?"

(E tenho a certeza. Foi desta sinceridade que eu gostei desde o primeiro minuto. E que sei, embora tantas coisas na nossa vida não tenham nada em comum, que é das poucas pessoas com quem consigo ser eu e contar os meus problemas. Que olhos nos olhos, me transmite que me ouve apenas, sem pensar em mais nada. Existem amizades que vão muito para além de crenças, atitudes, estilos de vida e feitios. São amizades. E chegam.)

Negros

Adriana Calcanhotto
Composição: Adriana Calcanhoto

O sol desbota as cores
O sol dá cor aos negros
O sol bate nos cheiros
O sol faz se deslocarem as sombras
A chuva cai sobre os telhados
Sobre as telhas
E dá sentido as goteiras
A chuva faz viverem as poças
E os negros recolhem as roupas
A música dos brancos é negra
A pele dos negros é negra
Os dentes dos negros são brancos
Os brancos são só brancos
Os negros são retintos
Os brancos têm culpa e castigo
E os negros têm os santos
Os negros na cozinha
Os brancos na sala
A valsa na camarinha
A salsa na senzala
A música dos brancos é negra
A pele dos negros é negra
Os dentes dos negros são brancos
Os brancos são só brancos
Os negros são azuis
Os brancos ficam vermelhos
E os negros não
Os negros ficam brancos de medo
Os negros são só negros
Os brancos são troianos
Os negros não são gregos
Os negros não são brancos
Os olhos dos negros são negros
Os olhos dos brancos podem ser negros
Os olhos, os zíperes, os pêlos
Os brancos, os negros e o desejo
A música dos brancos é negra
A pele dos negros é negra
Os dentes dos negros são brancos
A música dos brancos
A música dos pretos
A música da fala
A dança das ancas
O andar das mulatas
"O essa dona caminhando"
A música dos brancos é negra
Os dentes dos negros são brancos
A pele dos negros é negra
Lanço o meu olhar sobre o Brasil e não entendo nada


E agora,

vou ali ao ginásio ver se me passa esta dor de cabeça.

Quase a mudar de casa

já analisei inúmeras vezes os papéis que o BPI nos forneceu, os spreads, as taxas, os encargos, os seguros. Sei de cor valores, assim bem como as medidas das paredes dos quartos e da sala. Encaixo lá as mobílias e revejo, também pela milésima vez, o catálogo do IKEA. Limitados que estamos neste campo, mostro entusiasmada a cama de princesa à minha filha.
(A cama da Maria está no quarto. Não é uma cama de princesa.) Parece que os miúdos estranham as mudanças, tal como as alterações de rotina. Fazem-se orçamentos de transportadoras e eu oscilo entre o entusiasmo e a nostalgia de tudo o que esta casa me diz, me trouxe.


Não vivo no campo

mas aqui no meu prédio em Oeiras, o senhor que vem contar a água, grita a plenos pulmões, continuamente, "Água, água, água!" e as pessoas, a maioria reformados, vão abrindo as suas portas e ele faz a leitura.

Hoje o dia está cinzento

mas para me alegrar o dia bastava uma mensagem escrita. Só uma.

22 fevereiro 2007

Defeitos

A minha filha herdou um defeito do pai. Quando pede uma opinião, lá bem no fundo já tem uma formada e só espera que a resposta seja uma confirmação do que acha. Se não é, duvida.

Hoje, com um livro cheio de animais:

"O que é isto?"
Eu: "É um peixe. Um peixe azul."
Ela: "Hã? Um peixe. Não é uma baleia, não?"

(ainda a dar-me oportunidade de alterar a resposta. Ai os genes.)

Estar gorda (2)

À chegada ao infantário, a Inês, no auge dos seus quase três anos, acaricia-me a barriga e em tom de cumplicidade:

"Ó Ana Rute, o que é que tu tens aqui na barriga?"

Estar gorda (1)

As idas ao ginásio, com a balança a descer umas míseras gramas de quando em quando, já me começam a fartar.

Eu

segundo o site abaixo. Pelos vistos, não há muitas pessoas de cabelos compridos encaracolados.



Avatar Maker



Nem todos os amigos nos têm de achar giros (2)

Eu: (referindo-me à eventualidade dos caracóis) "Ainda por cima o cabelo molhado fica todo aos S como ficava o da Maria com este comprimento."

Resposta: "Pode ser que não..."

Nem todos os amigos nos têm de achar giros

"Tu prepara-te, que ela é mesmo parecida contigo. Eu acho que ela vai ser igual a ti..."

Resposta: "E se acontecer, é muito mau?"

21 fevereiro 2007

A minha filha mais velha

é uma menina. Últimamente repara em pormenores, mais. As casas das pessoas. Na sexta-feira, solta um: "Gosto muito daquela casa-de-banho, tem ratinhos e tudo!" a referir-se ao apartamento dos primos com uma cortina cheia de animais.

No feriado, segredou-me ao ouvido que a casa da M. e do T. "era muito bonita". Respondi-lhe que se dissesse à M., talvez ela gostasse. Hesitou e num instante de passo apressado entre uma brincadeira e outra soltou: "Ó M., a tua casa é muito bonita. Eu gosto da tua casa!".

Nem se pergunta!




A avó Anjos já não é viva

mas este fim-de-semana lembrei-me automaticamente dela quando uma senhora com idade para ser minha mãe e em quem tenho muita estima, me disse com carinho:

"Estás com umas maminhas muito jeitosas."

(lol.)

Aos 3 meses

veste a roupa que a irmã vestia aos 6.

É bem disposta, ri-se imenso.

A chorar parece um gato a miar e quando se chateia a sério, demora algum tempo a acalmar-se.

Fica sentida, é do excesso de mimo.

Reconhece-nos a alguma distância, reage à irmã como não reage com qualquer outra criança.

Adormece virada para o lado esquerdo e gosta de ter um boneco para olhar e tocar.

Chucha muito nas mãos, quando tem sono.

Já foi há 3 meses.




Assim como quem não quer a coisa

o meu novo chefe pergunta-me, via MSN, se eu não posso ir trabalhar um mês e meio mais cedo.

"Estás a brincar, não estás?",

foi a única resposta que me ocorreu.

20 fevereiro 2007

Os fins dos fins dos saldos

o gozo que isto me dá.
(105,20€ por 22,60€!)


16 fevereiro 2007

A minha filha pequenina

não está mascarada, mas eu chamo-a de peixinho. Também podia ser uma gatinha, qualquer coisa acabada em "inha", que só me ocorre apertá-la a cada sorriso aberto que dá a qualquer pessoa que lhe dirija a palavra.

Mas o que a tem divertido hoje não é a época festiva: são as mãos. Descobriu os dedos, e roda os pulsos perto da cara. Um mundo inteiro por descobrir.

Confesso:

Não acho gracinha nenhuma ao Carnaval, às máscaras, às partidas despropositadas no meio da rua. O Carnaval é parvo e irrita-me um bocadinho, especialmente depois de nos querermos converter a um país que não somos, com corpos brancos desnudados e ridículos a bailar em cima de carros de cortejo.

Para uma menina, todos os dias são bons para se vestir à senhora. Ela nem sabe o que é uma sevilhana, até porque o fato foi emprestado. Mas tinha sapatos de crescida, o mais importante para ela.

Lá foi, toda contente.



14 fevereiro 2007

*

Ela: "Porque é que o ferro está ali?" (num sítio que não é o dele)
Eu: "Porque está estragado...Vou ter de o levar a arranjar."
Ela: "Ó mamã, não fiques triste, a Maria compra-te outro. Queres?"

(Eu tenho um namorado)



SenhasAdriana Calcanhotto
Composição: Adriana Calcanhoto


Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto de bons modos
Não gosto
Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos
Mas o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto de bons modos
Não gosto
Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto de bons modos
Não gosto
Eu aguento até os estetas
Eu não julgo a competência
Eu não ligo para etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
Eu compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto do bom senso
Eu não gosto de bons modos
Não gosto
Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem…


Diferentes e iguais (7)

A Maria, com quase 3 meses, dormia 12 horas seguidas, à noite.
A Marta, com quase 3 meses, dorme 6/8 horas seguidas, à noite.
A Maria, com quase 3 meses, dormia pouco durante o dia.
A Marta, com quase 3 meses, dorme bastante durante o dia.

Com 2 anos e 9 meses

equilibra-se nuns sapatos de salto tamanho 24.
Sapatos de senhora, e a sexta-feira que nunca mais chega.

( na idade dela, o que eu teria delirado com uns sapatos daqueles...)

13 fevereiro 2007

Depois de usar o bacio,

tropeça e entorna-se o chichi pelo chão.
Ela, espantada: "Que estupidez!"

Fraldas

Na Escola, já não usa fraldas nem durante a sesta.
Em casa, andar de cuecas pode ser um verdadeiro drama.
Na Escola, nem deixa que a vistam, faz tudo sozinha.
Em casa, parece querer ser um bebé.

(Efeito Marta? Hum!)

Há dois anos

tão bebé. Tão linda, gordinha, queridinha.

12 fevereiro 2007

(a propósito de uma música cuja frase termina em "bocejar")

Eu: "Sabes o que é bocejar? É quando temos muito sono e abrimos a boca assim."
(e exemplifico, com um suspiro)
Ela: (cara de espanto) "Ó mamã, não se faz isso. Abrir assim a boca é muito feio!"
(e tapa-me a boca com a mão)

Nem há uma hora

estava aqui sentada ao computador e senti-me toda a tremer. Olhei para a espreguiçadeira da Marta e as bochechas dela tremiam.
Assustei-me, a sério. Ligo ao meu marido, não sentiu nada.
Depois, confirmo que não imaginei nada, aconteceu mesmo.

(ainda estou com calores)

A culpa é da vontade

A Culpa é da Vontade
interpretado por Lena D´Água
Composição: António Variações

A culpa não é do sol
Se o meu corpo se queimar
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te abraçar

A culpa não é da praia
Se o meu corpo se ferir
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te sentir
A culpa é da vontade que vive dentro de mim
E só morre com a idade
Com a idade do meu fim
A culpa é da vontade

A culpa não é do mar
Se o meu olhar se perder
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te ver

A culpa não é do vento
Se a minha voz se calar
A culpa é do lamento
Que suporta o meu cantar
A culpa é da vontade que vive dentro de mim
E só morre com a idade
Com a idade do meu fim
A culpa é da vontade

Bom,

hoje ouve-se o meu marido, o meu cunhado e amigos, na Antena 3 lá pelas 21h.
Reside em mim a esperança que lhes surja um contrato milionário qualquer e finalmente realize o meu sonho de ficar com as minhas filhas e os que se seguem por uns anos, a tempo inteiro.

Ver aqui.

Do referendo que passou,

consta que a partir de ontem somos um país moderno e civilizado. A partir de agora, temos os tais abortos higiénicos, limpos e sem risco de vida para as mulheres que se querem desfazer de um problema. Um problema com braços, com pernas, com um coração a bater. Mas isso, pelos vistos, não importa.

09 fevereiro 2007

Isto nunca foi segredo:

A minha avó paterna abortou uma série de vezes. Por motivos tão parvos como "sonhar que era outro rapaz" quando o que ela queria mesmo era uma menina e já tinha o meu pai.

Creio que antigamente (e digo isto com base no que eu calculo) não se abortava antes das 10 semanas. Contracepção nem se ouvia falar e quando davam pela gravidez, nem imagino com quanto tempo estariam. Recordo-me de se falar em abortos com agulhas de crochê. Sempre me arrepiei e hoje intrigo-me como é que a minha avó não morreu numa brincadeira dessas.

Lá houve um dia que "sonhou que era uma menina" e esperou as 40 semanas e nasceu a minha tia. Quero acreditar que se hoje a minha avó fôsse viva e visse uma ecografia, choraria amargamente pelo que andou a fazer. Não quero falar por ela, mas desculpo-a ao abrigo de alguma ignorância.

Hoje não há desculpa.

Post a ler

do Eduardo.

(Trato-o assim porque já o conheci pessoalmente. Provavelmente nunca mais o irei ver dado que o meu marido cometeu a imprudência de lhe transmitir que eu achava que ele era giro. Mas escreve bem e eu concordo.)

Gostar de coisas antigas (e herdadas) - 7


Relógio despertador, de corda. Da avó Zé.

A minha balança tem uns dias

em que me dá boas notícias. E eu, estupidamente contente, partilho-a com amiga(s).
Só que esta(s) amiga(s) goza(m) comigo, anda(m) esquecida(s) do que eu as aturei há um ano atrás.

Não é, ó magra?

Já só faltam dois dias,

e um dos argumentos do Sim, que me deixa particularmente intrigada é o de não querer que um filho nasça para não ter uma vida com qualidade. Foram várias as pessoas que li que usaram esta expressão: "Eu defendo a vida, mas a vida com qualidade".

O que é a qualidade? É uma coisa que se decide à nascença? Partimos do princípio que nós, os que já temos filhos desejados nos braços, lhes vamos dar sempre uma vida com qualidade? Que está sempre nas nossas mãos protegê-los de tudo? Que um dia o desemprego não bate à nossa porta? E as doenças, que fazemos nós com os nossos filhos, se uma doença grave bater à porta deles? Vamos desejar que não tivessem nascido?

08 fevereiro 2007

Mesmo ao pé de nós

casas tão baratinhas...

Com estas meias calçadas

"Olha que giro, tenho as pistas da Blue nos pés!"



Na Escola da Maria,

conheço a maior parte das caras, embora não lhes sabendo os nomes. Fica em Queijas, terra que adoptei como minha a partir dos 14 anos. Uma das auxiliares andou comigo na Escola, muitos dos pais são do meu tempo. Cruzamo-nos. Uns vestem fatos, outros usam roupa que denuncia a profissão que exercem. Cumprimento quase todos e o que sinto na maior parte das vezes, ao me lembrar de nós na Esc. Sec. Carnaxide, é que andamos agora a brincar aos crescidos.

Fraldas e companhia

Chego à Escola e está na casa-de-banho, sentada na sanita sozinha. Não me vê, tem as mãos pousadas nos joelhos, o rabo enfiado na sanita minúscula (esta parte faz-me alguma confusão...) e olha para o chão. Veste-se sozinha, puxa o autoclismo e vem embora, despachada.

(Crescida.)

07 fevereiro 2007

Disse-me:

"Alegra-te comigo."

E eu não consegui não me alegrar.

Gostar de coisas antigas (e herdadas) - 6

Aliança. Da avó (Maria dos) Anjos.


Gostar de coisas antigas (e herdadas) - 5

Pipi das meias altas. Da tia Lena.
(a Maria baptizou-a de Panca.)


Gostar de coisas antigas (e herdadas) - 4

Casaco. Da avó Zé.


No domingo, dizem-me:

"A tua filha já repetiu a mesma coisa uma série de vezes mas eu não entendo o que ela quer dizer!"

Eu: "Que estavas a dizer, Maria?"
Ela: (a olhar para si própria e a mexer as pernas de vaidade) "Estou super fashion!"

(Expressão do pai cá de casa quando a veste com algumas roupas)

O ginásio onde ando

não é bem um ginásio, é uma clínica de fisioterapia. Aproveito-me do seguro da Médis para pedalar na bicicleta e correr na passadeira por pouco mais de um euro por sessão, rodeada de jogadores e atletas com lesões e velhotes e velhotas a recuperar de trambolhões.
Olham-me simpaticamente, e agora que a minha bebé também participa do espaço na ginástica respiratória, um sente-se mais à vontade para me perguntar o que é que me aconteceu, para também ali estar:

"Tive uma filha."

(E ainda nem acabei a frase e já estou perdida de riso.)

06 fevereiro 2007

Ao telefone com o sobrinho Rúben,

-"Olá sobrinho!"
-"A Maria?"

Da timidez

descubro que um dos truques é tentar antecipar tudo o que vai acontecer. Delinear-lhe um cenário. Quem vai estar, se conhece, a que é que pode brincar, com quem. Tem resultado de uma forma surpreendente. Chega mais confiante. A timidez é insegurança, basicamente. Transmitir-lhe com o que pode mais ou menos contar ajuda-a no desconhecido.

(Na sexta-feira, foi assim, em casa da Karla. Ficou logo amiga de toda a gente e da cozinha de brincar igual à dela, de que lhe tinha falado à ida.)

Do referendo que aí vem (cont.)

Conheço uma pessoa que abortou e que hoje se arrepende amargamente. Independentemente do resultado do referendo, não é preciso nenhum julgamento ou cadeia para perceber que essa pessoa viverá o resto da vida enjaulada na decisão que ela própria tomou.

(Palavras dela, não minhas).

Ao fim de 6 meses de Escola

é que me apercebo que nunca tinha ido de vestido. Hoje foi, com uma felicidade e excitação fora do normal. A auxiliar insiste que no dia 16 os meninos têm de ir mascarados, que é Carnaval. Perguntam-lhe se quer ir de princesa, bailarina, médica. Mas ela responde:
"De vestido, quero ir de vestido!"

05 fevereiro 2007

Na Escola

consta que quis obrigar a Margarida a despir o vestido que levava hoje para lhe emprestar. Como a miúda não se quis despir (óbvio), atirou-se para o chão a chorar.
Estamos teatrais, estamos.

Da misericórdia

(do Lat. misericordia
s. f.,
compaixão pela desgraça alheia;
dó;
perdão;
instituição de piedade e de caridade;
)


Sei-me de cor em qualidades e defeitos. Destes últimos, uma batalha constante em corrigi-los. Se uns dias me encontro simples, noutros acordo farta de mim. Creio ser normal e só isto me ajuda a melhorar, alguma coisinha. Mas de nada me serviria este reconhecimento se não fôsse a misericórdia. Não do vizinho, do amigo. Mas de Deus.

É que sem Ele, o que era feito de mim?

04 fevereiro 2007

Junto ao caixote da areia das gatas

cheira mal porque uma acabou de o utilizar.
Tapa o nariz enojada:
"Aqui cheira mal. Vou-me embora, não aguento isto!"

Está frio,

mas quando deixar de estar, não é só porque chegou a Primavera. É porque também está na hora de regressar ao emprego. As notícias que me chegam não são as melhores: o meu departamento foi reestruturado, o meu director deixou de o ser e as minhas funções vão ser reajustadas às de uma mãe com duas filhas pequenas (lindo, não é? Welcome to Portugal).
A minha filha ainda só vai ter cinco meses e vai-me custar tanto (ou mais) do que da primeira vez.

Prefiro que continue muito frio durante muito tempo.

(Desculpem-me lá os friorentos).

03 fevereiro 2007

Gostar de coisas antigas (e herdadas) - 3

Mealheiro. Da Avó Zé.


Gostar de coisas antigas (e herdadas) - 2

Serviço de jantar. Da Avó (Maria dos) Anjos.

Gostar de coisas antigas (e herdadas)

Chávena. Da Avó Zé.


02 fevereiro 2007

Da falta de sono, ou do sono interrompido

Pensava que era só eu que dizia autênticas barbaridades quando sou acordada a meio da noite. Ou quando não consigo descansar e tenho o sono constantemente interrompido. Todos os dias luto com isto, mas é mais forte que eu quando são muitos os momentos em que preciso de dormir e não posso.

Hoje, em conversa com outras mães, fico a saber que não sou só eu que falo com um bebé de dois meses como se se tratasse de uma criança de seis anos e que afirmações como:

"Perdeste a chucha, o problema é teu, trata mas é de dormir"

são comuns, noutros lares por aí, às quatro da manhã.

(Quem não tem filhos ou não sabe o que é isso de não dormir como deve ser, salte esta parte por favor antes que pensem que somos todas umas insensíveis)




01 fevereiro 2007

Uma fisioterapeuta lá do ginásio

pega na irmã para fazer ginástica respiratória e ouve-se um grito:
"Cuidado, essa mana é minha!"

Da educação

Mesmo que eu pudesse pagar, as minhas filhas nunca andariam num Colégio, só porque sim. Tendo escolha, que é o caso por aqui, o Ensino público serve-nos perfeitamente. Assim será quando entrar para a Primária. Só não o é para já, porque não conseguimos vaga no ano que passou. (uma das vantagens de se morar fora, Pal. O que eu invejei este teu post.)

A Escolinha da Maria é mediana. As instalações, as actividades. O preço acho um absurdo, mas o normal por cá (sim, acho 315€ um abuso). Gosto da Educadora, gosto do ambiente da sala. Fico contente quando lhes percebo as actividades mas nesta idade, o que me interessa é que a minha filha seja uma criança, que se divirta a brincar, a ser ela própria, a socializar. Se tem ginástica, música, inglês, é-me indiferente. Tem toda uma vida para se descobrir, aprender.

Mas a vantagem principal de um ensino oficial (passando a parte óbvia de alívio na carteira) é a diversidade de crianças. Cada vez mais temos outras culturas (ucranianos, brasileiros, etc) assim bem como vários estratos sociais. Nunca me interessaria ter as minhas filhas num ambiente de classe mais alta. Até porque não é a nossa. Quero que conviva com miúdos diferentes. E que perceba desde cedo que uns têm mais, outros têm menos e que se dê com todos, sem preconceitos.

Isto, para mim, é fundamental.

(este post vai com comentários)

Quase tudo pode ser um vestido de noiva

(Eu, de toalha enrolada no corpo e na cabeça)
Tira-me as medidas, abraça-me as pernas:
"Estás tão linda! Queres casar com a Maria? Sim?"

Dos livros preferidos do momento







Uma semana depois

de ter estado com as duas em casa, a mais velha vai para a Escola e a mais nova adormece.
Eu, parece que de repente não sei o que fazer ao tempo.
Que esquisito, como uma pessoa se habitua a um novo ritmo.