06 maio 2014

As crianças dizem sempre a verdade. Really?

Ando há que tempos para escrever sobre este maravilhoso mito que muita gente afirma e acredita. Das duas uma: ou não são pais com crianças em idade falante, ou não trabalham com crianças, ou não se lembram de terem sido crianças, ou não acreditam que nascemos todos imperfeitos (e que isso incluir mentir, também) ou, pior ainda, que acham que nascemos todos bons e sem defeitos.

Pois eu não concordo. Partir do princípio que as crianças contam sempre a verdade é partir de vários princípios que se desmontam em três tempos:
o primeiro é que as crianças observam a realidade e a interpretam tal qual ela aconteceu;
o segundo, que vem na sequência do primeiro, é que interpretando bem a realidade, a conseguem reproduzir com igual grau de fidelidade;
o terceiro é que, no seu íntimo, mesmo contra todos os sentimentos, são fiéis ao que dizem.
O quarto é que não usam a informação como lhes convém.
 Não acredito em nada disto, e com o passar do tempo, mais certezas ganho.

Poderia dar-vos vários exemplos. O primeiro, do meu filho Joaquim. Por altura do dia do pai era suposto dizer algo que o pai gostasse muito de fazer. Ora bem, o que estava escrito em pleno placard da escola? "O MEU PAI GOSTA MUITO DE BEBER CERVEJA." Quem leia isto vai pensar que o pai do Joaquim bebe imperiais como quem bebe água. Errado. O pai do Joaquim bebe, geralmente, uma mini quando chega a casa por alturas da primavera. Isto para o Joaquim, é gostar MUITO de cerveja. Iá. Agora vão lá explicar isto na escola!

Também podia dar outro exemplo: temos uma frequência de ida ao MacDonald's que ronda uma vez por mês. Aqui há uns meses, passámos largas semanas sem ir e, aos nos pedirem uma terceira vez num curto espaço de tempo e recusarmos ouvimos a seguinte afirmação da Marta: "VOCÊS NUNCA NOS LEVAM AO MAC DONALD'S". Coitados dos meus filhos, toda uma geração de crianças a comer happy meals menos eles...

Outra que acontece com frequência. Uma das crianças pede ajuda para uma coisa absolutamente urgente (colocar o cabelo do playmobil no boneco, por exemplo) e o pai ou a mãe não podem e sugerem que vá ter com o outro progenitor. O que acontece: "Mamã, o papá disse para tu pores o cabelo do meu boneco no sítio". O pai sugeriu que visse a disponibilidade do outro, logo eu posso dizer que o pai mandou fazer.

Uma que também é um clássico: contar só a parte da história que interessa. "Porque eu estava no recreio e a professora X não me deixa andar no escorrega". Coitado do meu filho, então agora é discriminado? Esqueceu-se de contar que deixou de andar de escorrega naquele dia porque passava à frente e empurrava os outros meninos e que a proibição era resultado, não a causa.

Poderia continuar com os exemplos. Talvez agora desse jeito entrar aqui em cena um sociólogo para nos explicar a importância que a criança ganhou na sociedade no último século e a forma como interiorizamos este tipo de coisas. Se enquanto cristã recordo que Jesus disse que deveríamos ser como crianças (e acredito, sim, que quanto mais tempo passamos neste mundo, mais o pecado penetra em nós, e que nesse aspecto as crianças estão mais poupadas disso), a Bíblia também nos diz que todos nascemos pecadores e todos necessitamos de salvação (e isto inclui crianças).

Tendo nos meus filhos os meus bens mais preciosos aqui na terra, quero honrar isto que a Bíblia me diz. Amá-los é também duvidar deles e ensiná-los a pensar. E não apenas acreditar que tudo o que lhes sai da boca é verdade. A verdade deve ser confirmada, sempre.
"Porque as crianças não têm filtro, elas dizem tudo como é." Não acreditem nessa treta.