02 junho 2014

Sardinha no pão


Cresci em Lisboa, e apesar de a torre onde vivíamos ter 14 andares e 4 apartamentos por piso, as ruas circundantes tinham prédios bem mais baixos e comércio local, onde todos nos conheciam. Na Rua do Montepio Geral, logo ali ao virar da esquina, tínhamos a Nia e o Augusto, que eram os donos da mercearia e nos levavam volta e meia a passar uns dias na casa da Malveira. Tinham uma paciência fora de série, deixavam-nos brincar às lojas naquele espaço minúsculo, fazer as contas e trocos. O talho mesmo ao lado, dava-nos rodelas de chouriço só porque sim.

Por isso, quando se aproximava Maio todos os miúdos da zona andavam a vender rifas ou pedir mesmo um tostãozinho para o arraial que se montava. Na mesma rua existiam dois, e por ali abaixo mais uns não sei quantos. As pessoas passavam de um prédio ao outro, pelos cabos de electricidade, todo o tipo de enfeites, e levava-se muito a sério a decoração. A Nia e o Augusto ofereciam as sardinhas, outros reuniam o pão e recordo a noite de 12 de Junho sempre com um sorriso, pelo bazar que se montava, as sardinhas a escaldar, a música de fundo e a lareira onde se saltava. Portanto, sempre que Junho se impõe no calendário, tenho vontade de passar noites agradáveis a comer sardinhas, a conviver numa saudável confusão de rua.

Há quem diga que é o santo António, eu que não acredito nesse tipo de santos. Para mim, são as festas de Lisboa, dos amigos, da vizinhança. Contem comigo para isso.