02 outubro 2014

Mudanças.


Comprei o primeiro soutien da minha filha mais velha ao fim de um verão em negação. Um corpo a transformar-se na frente dos nossos olhos e a mãe e o pai a comentarem a velocidade do tempo.

"Acho que preciso de um soutien", dizia quando vestia roupas mais justas. "Vamos tratar disso". Mas nada nas lojas me encantava e tudo em mim se recusava. Até que um dia vi-a a brincar com bonecas, num corpo enorme que parece que não termina de se esticar, e entrei decidida na loja: "É hoje". Estudei a forma, a cor, o tecido. O tamanho certo não correspondia com a idade, tal como quando têm 3 meses e tanto usam uma camisola de 6 como uma de 1.

Enquanto decidia o tamanho do dito cujo, tive vontade de reclamar. Então assustam-nos para as cólicas, para as noites mal dormidas, para as dificuldades de um desfralde. Também enfatizam a importância da amamentação, o equilíbrio do afecto com a autonomia. Os limites, ah, os limites que são testados e a que os pais têm de responder. As birras, os terríveis dois anos, as febres das vacinas.  Mas ninguém nos prepara para isto.

Cheguei a casa e ensinei-lhe como se regulavam as alças do soutien cinzento mesclado. Viu-se ao espelho, orgulhosa. "Ponho para lavar todos os dias, como as cuecas?", perguntou.

Comprei-lhe o primeiro soutien, acabou de entrar no 5º ano. A minha primeira filha.