20 novembro 2014

Parir é um verbo.

Gosto muito do verbo parir. Encerra em si a rudeza do que significa trazer uma criança ao mundo mas rima com sorrir. Gosto muito de verbos acabados em ir. Admitir. Assentir. Bulir. Divertir. Redimir.Rir. Ruir. Submergir. Vestir.

Dêem-me o desconto. A semana é propícia a isso. Completam-se 8 e 7 anos que me nasceram os filhos do meio. Em que os pari. Em que lhes vi o rosto ao fim de tantos meses de os sentir aos pontapés a revirarem-me as entranhas, em que lhes peguei depois de horas de dor. O verbo parir é bonito porque se trata de um sofrimento bom. Quando os minutos de contracções não parecem mais acabar, o jogo emocional de mentalização: "isto é por uma coisa boa, vai nascer um bebé".

Dizia, há dias, que quando penso no passado e sinto alguma nostalgia, não é de estar grávida. Não. Sinto saudades dos momentos mágicos do nascimento. Da espera em casa, do silêncio que se instala quando só há dor, só nós os dois ao som de nada, o tempo a contar, os sons que restam, um calor enorme, a entrada no carro, a chegada ao hospital, o cheiro do internamento, as vozes, as campaínhas, o corropio.

Depois, a magia. Nasceu e já passou. O deslumbramento, a gratidão que não cabe no peito e a certeza que nada mais será igual. Nunca é mais nada igual. Nem o outro com quem vivemos e partilhamos a vida. Somos novos a cada instante, pertencemo-nos mais do que nunca e sabemos que isto tudo nunca é acerca de nós.


(E por não ser nada acerca de nós, em breve escreverei sobre como tudo na vida, e em particular na maternidade - gravidez, parto, amamentação - deve ser vivido na graça de Deus, tendo a noção de que tudo era muito bom quando Ele nos inventou, mas de como a queda de Adão e Eva tornaram todos estes processos imperfeitos.)