28 novembro 2016

Não somos pessoas agradecidas.



Há quem se espante com esta história de importarmos o Halloween e não o dia de Acção de Graças. Mas por que razão haveríamos de tirar um dia para agradecer quando passamos o ano inteiro a reclamar?

A gratidão exige que nos maravilhemos com o que temos e que não nos detenhamos a pensar no que não temos. Mas isto não é simples. Achamos que merecemos sempre mais. Termos desejos não  é necessariamente mau, mas quando focamos as nossas atenções no que não temos, deixamos de agradecer.

Outro problema neste assunto da gratidão é que a nossa sociedade alimenta um espírito de ingratidão. E esta é a parte mais profunda e complicada. Vivemos rodeados de insatisfação e somos insatisfeitos de forma permanente. Recordava um exemplo que me marcou, no verão do ano passado, quando numa reportagem de telejornal, se tentava demonstrar que Portugal estava a conseguir sair da crise, entrevistando pessoas em plena época balnear no Algarve. À pergunta da jornalista, insinuando que o número de portugueses a fazer novamente férias fora de casa estava a aumentar, as respostas redundavam todas numa justificação de que sim, se estava a fazer férias fora de casa, mas que os gastos tinham de ser controlados, não se podia comer fora como antigamente, etc. Mesmo que alguém possa cometer alguns pequenos luxos, não passa pela cabeça - na nossa mentalidade portuguesa- dizer livremente que sim, podemos gastar dinheiro. Fica mal. Este é apenas um exemplo que se vê constantemente em outras pequenas coisas do dia-a-dia.

Por outro lado, a nossa sociedade alimenta um espírito de ingratidão porque fica bem sermos pessoas insatisfeitas. A insatisfação vive directamente ligada com a ambição e uma pessoa pouco ambiciosa é uma pessoa limitada. É como se se deixasse de sonhar e viver, alguém dizer que está feliz e contente com o que tem.

Há quem ache que a gratidão é pensamento positivo. Mas a gratidão não tem nada a ver com pensamento positivo.  A gratidão não exige que inventemos coisas que não existem ou que ignoremos o sofrimento que nos chega. A gratidão é acerca de olharmos para o que realmente importa e se pode achar na eternidade. Em última instância, a gratidão lida com o sofrimento dizendo-lhe: "Jesus passou por pior, venceu a morte".

A gratidão não reclama porque um espírito grato olha para tudo o que tem como algo que lhe foi oferecido. A gratidão não vê mérito, vê graça. 

A gratidão é algo que se cultiva e é algo que exige esforço. É um exercício de olhar ao nosso redor e ver de forma diferente e suficiente. "Deus deu-me isto, isto é bom e chega." A gratidão celebra o que já temos e enche-nos de alegria, em vez de nos consumir de anseios. Exige, também, escolher ver o copo meio cheio, em vez do copo meio vazio. Implica largar todo o tipo de gula, inveja, cobiça e outras coisas feias. Precisamos ocupar-nos de momentos em que tenhamos de enumerar só coisas boas e escrevê-las ou verbalizá-las.

 J.R. Miller, em 1912, dizia qualquer coisa como: "Para um cristão, dar graças deve ser acerca de ter Cristo no coração, transformando a nossa disposição e o nosso carácter. Dar graças deve ser, antes de mais um hábito, antes de se tornar uma qualidade intrínseca. Acções de louvor passageiras no meio de anos de queixumes, não é isso que é suposto ser. Canções quando os dias são solarengos, e nenhuma canção quando os dias estão encobertos, isso não trará uma vida de gratidão. O coração deve aprender a cantar sempre. Esta lição apenas é totalmente compreendida quando se torna um hábito que circunstância nenhuma pode abalar. Devemos persistir em sermos agradecidos. Quando não vemos razão nenhuma para louvar, devemos acreditar no amor de Deus e na sua bondade, e ainda assim agradecer. Só aí, dar graças terá tomado o lugar certo dentro de nós; quando se torna parte de todos os nossos dias e em qualquer momento."

Vamos agradecer?