12 junho 2017

Depende.


- Descobri este post em rascunho há mais de um ano. Nunca foi publicado. Acho que porque tinha sempre receio de parecer demasiado defensivo. Se calhar, é. Mas parece-me justo e verdadeiro. Aqui fica. -

Todos os que passaram a barreira dos "alguns filhos" (em Portugal, a partir de 3 já estamos a resvalar para a loucura), já ouviram com toda a certeza um: "Que coragem!" dito em tom mais crítico que elogioso. Uma pessoa habitua-se a dar nas vistas, a contornar perguntas que não passam de mera invasão de privacidade, a viver de forma diferente da maioria. A assumir consequências destas escolhas, porque não sei se sabem, uma família numerosa tem que ter sempre cuidado se por acaso resvala para um queixume num dia menos bom, porque habilita-se a ouvir: "Fizeste-os, agora aguenta". A gente aguenta, não se preocupem.

Mas há uma coisa que ainda não me habituei a ouvir. É aquele elogio fingido acerca do sentido prático dos pais de famílias numerosas, revestido de uma insinuação de despreocupação/negligência: "Claro, uma pessoa com vários filhos não se pode preocupar com algumas coisas porque não há vagar para grandes contemplações".

Eh, pá, isto até pode ser um bocadinho verdadeiro.  Mas geralmente quando esta frase é dita, é acentuada num tom que não é só preconceituoso. É muito julgador. Pensar que, por causa de as crianças serem mais não recebem amor da mesma maneira. Ou que o amor se recebe por comer a sopa sempre à mesma hora (não, queridos amigos, as crianças não têm de comer sempre ao meio-dia ao fim-de-semana porque na escola comem a essa hora de segunda a sexta, não vão morrer se tiverem de esperar com uma fruta ou uma bolacha na mão por mais algum tempo), ou por lhes limparmos o rabo até aos 6 anos, ou ainda por lhes cortarmos o bife em pedaços pequeninos mesmo quando eles já sabem usar uma faca, ou nos planos sempre feitos ao redor deles.

Não, os filhos não devem ser o centro da vida dos pais, sejam eles 1, 2 ou 10. Dar amor não é um serviço permanente às crianças como se fôssemos seus empregados ou como se o nosso objectivo maior na vida fosse vê-los felizes (o que é isso de os ver felizes, já agora?). Dar hábitos de trabalho e ensinar-lhes a autonomia desde cedo não é uma extrema necessidade de uma família numerosa. É uma coisa que qualquer criança deveria aprender desde cedo.

A seguir a esta vem a do: "Pois, têm mesmo de existir horários", isto a propósito de as crianças dormirem cedo, por exemplo. Qualquer criança precisa de descansar (embora nem sempre todas descansem do mesmo modo), e quem manda são os pais, não são eles que decidem se já querem ou não dormir a sesta. Quando estamos a definir regras, estamos a dizer que os pais também têm uma vida, precisam ter uma vida depois de os filhos irem dormir, e sobretudo, precisam descansar também. Mais: os pais contam ter uma vida além dos filhos, até porque quanto a mim conto que um dia destes eles vão à sua vida, e se Deus quiser, fiquemos novamente só os dois e isso seja saboroso. Convém que este lado agradável não fique suspenso no tempo em que existam filhos e mais tarde soe a estranho isto de sermos só dois; os pais existiam antes dos filhos, os filhos existem por causa de um encontro entre os pais, e o relacionamento dos pais é fundamental para a vida dos filhos. (Se estes argumentos não me bastassem, bastaria certamente olhar para o ar exausto dos pais que sucumbem à ditadura dos filhos que decidem que horários fazer. E não estou a falar de bebés a mamar, ok?)

Se os pais de mais filhos têm menos tempo para cada um? Depende da vida da família e do que é isso do "tempo" e da "qualidade" (eu acho que não há qualidade sem quantidade, mas essa era outra discussão). Depende das escolhas que se fazem. Depende do que queremos fazer com eles, para eles, e deles. Depende. E isso serve para qualquer família, seja ela pequena ou grande.