12 julho 2017

Poder escolher

Vamos para o quinto ano de Ensino doméstico. Já se passaram 4 anos? Já. A discussão em torno de escolhas alternativas parece-me sempre muito superficial.

SOCIALIZAÇÃO
Esta é a primeira questão que geralmente nos colocam. Segundo esta fonte: "O termo socialização é usado pelos sociólogos, psicólogos e pedagogos para se referirem ao processo de assimilação da cultura em que vivemos e de se aprender a viver nela. Para a sociedade, a introdução de todos os seus membros às suas normas, atitudes, valores, motivações, papéis sociais, linguagem e símbolos é "o meio pelos quais a continuidade social e cultural é atingida".

E isto tem de necessariamente ser feito na escola, no modelo que a conhecemos? Uma das coisas que me intriga é que partimos do princípio que a socialização tem de ser obrigatoriamente feita no meio da respectiva faixa etária, debaixo do modelo escolar que conhecemos.

Acredito numa socialização com pares, mas acredito numa aprendizagem feita no meio da vida real. Nas compras, nos transportes, com vizinhos mais velhos. Preparando para a vida. Isto só se faz com tempo. Não escondemos a realidade nem queremos criar crianças totós. Mas podemos ser nós a participar dessa realidade? Acho que podemos (e devemos).

CONTEÚDOS DE APRENDIZAGEM
Se nos compararmos com países como o Brasil (*), em que o ensino doméstico é ilegal, temos a liberdade de em Portugal optar por esta via. Mas se nos compararmos com os Estados Unidos, não temos liberdade nenhuma. Então como funciona o ensino doméstico em Portugal? A criança fica à guarda de um tutor (pode ser pai ou mãe ou qualquer adulto que tenha mais do que um ciclo de ensino do que aquele que está a leccionar à criança) e, no final de cada ciclo de ensino (4º, 6º, 9º e 12º ano) a criança tem de obrigatoriamente comparecer no Agrupamento de Escolas da área da residência para prestar provas de equivalência à frequência de todas as disciplinas que o Estado determinou que são as exigidas para aquele ciclo de ensino. Em 4 anos neste modelo, 3 deles tivemos de comparecer para exames. A Maria, mais velha, já compareceu no 4º e 6º ano, a semana passada foi a estreia da nossa Marta, para o 4º ano.

Nesta parte, pretendo fazer um parêntesis bastante necessário. Vivemos em Oeiras e temos uma relação com o Agrupamento de Escolas muito boa. Nunca fomos tratados com estranheza, sempre fomos bem recebidos (primeiro, porque quando optámos por esta decisão, a explicámos presencialmente aos responsáveis do Agrupamento; em segundo, porque as notas se têm verificado bastante boas, o que ajuda a perceber que alguma coisa está a correr bem).

Mas chamam a isto liberdade. Os pais podem optar pelo ensino doméstico desde que o Estado se certifique que estão a ensinar aquilo que eles determinaram que tinham de ensinar. Isto não é bem liberdade.

MODELO ESCOLAR
Cá em casa, sonhamos com uma escola cristã evangélica. Estamos inseridos num modelo escolar com outras famílias, que se têm mobilizado para fazer acontecer algo de concreto. Já estivemos mais longe de isso acontecer mesmo, e estamos certos que Deus querendo, irá surgir no tempo certo. Temos três filhos neste modelo, isto porque a "escola" ainda não é sustentável e só pode assegurar a faixa etária 1º - 6º ano. A nossa mais velha vai para o segundo ano fora disto. Está em casa, num modelo de homeschooling mais tradicional.  

Esta é outra questão que nos fazem muito frequentemente e inclui: "Então e tens capacidade de ensinar tudo o que ela precisa aprender no 7º ano?". Basta pesquisar um pouco pela internet fora (ou falar com quem pratica modelos opcionais) e vemos que a autonomia é a chave para a aprendizagem em ensino doméstico.  Ensinar a criança a pensar e a calcular, e ela está pronta para desbravar caminho. A Maria vai para o 8º ano e eu não estou sentada ao lado dela todos os dias. Ela tem um plano de trabalho, que avança em papel ou virtualmente, e vai testando conhecimentos. Se acho que se tem de aprender imensa coisa desnecessária? Acho. Sonho com o dia em que poderemos optar um currículo alargado e flexível, em que decorar as fases de formação das rochas não seja encarado como um conteúdo essencial à sobrevivência da humanidade.

A RESPONSABILIDADE DOS PAIS
Esta é a parte mais sensível, mas não a vou saltar. Optar por este modelo dá uma grande trabalheira, uma enorme despesa, uma preocupação constante. Não optamos por esta via por causa dos resultados (a nossa maior preocupação enquanto pais é a salvação dos nossos filhos e isso não está nas nossas mãos). Não optamos por esta via porque é garantia de adultos cristãos felizes e responsáveis, embora o desejemos. Optamos por este modelo porque sentimos que podíamos fazer diferente e que não tínhamos de nos render ao modelo comum.

É frequente perguntarem aos nossos miúdos (especialmente quando não estamos) se eles gostam desta escola. Os mais novos nunca conheceram outra e não contestam muito (embora fiquem curiosos com outros modelos). A nossa mais velha sente-se pressionada, não tanto por desprezar este modelo em que ela tem de facto muita liberdade e autonomia, mas porque se sente diferente, e a pressão social é tramada. Ia pedir para pararem de fazer isso, ok? :)

Mas sempre que ela se vem queixar, tentamos trabalhar o lado da segurança e o poder ser diferente. Sem manias, sem arrogâncias, mas poder ser aquilo que quisermos. Temos de fazer todos igual? Não.

Quero, ainda, fazer a ressalva que só optámos por este caminho porque a nossa estrutura familiar permitia. Claro. Ter uma filha a tempo inteiro connosco e ir buscar os três filhos pelas 15h todos os dias, não está ao alcance de quem faz um horário de trabalho normal. Eu sei disso. Mas não vou dizer que esta opção não é muito esforçada, porque é. Era tão mais fácil quando tínhamos uma escola nas nossas traseiras e onde podíamos deixar os miúdos até tarde, se quiséssemos.

Acredito que há muitos caminhos, mas não vou mentir que este caminho tem sido muito bom para a nossa família. Somos agradecidos a Deus por ter chegado até aqui. Queremos continuar um caminho de confiança e humildade. Assim Deus nos ajude.


(*) - Tanto quanto me foi informado, até há pouco tempo o ensino doméstico era ilegal no Brasil, mas foi aprovada uma lei que faz com que exista um vazio legal nesta matéria. Contudo, é um país onde este assunto ainda não é claro.