"Assim que o tribunal de recurso de Perugia anulou a decisão de primeira instância, muita gente reagiu virando o bico ao prego: Amanda Knox tinha sido absolvida porque era bonita. Mas todos os estudos empíricos indicam que a beleza é sempre uma vantagem excepto em tribunal. A beleza, pelo fascínio que causa e pela promessa vaga que alimenta, modifica o nosso comportamento, e as criaturas atraentes são favorecidas por esse efeito. Mas quando uma pessoa se vê em julgamento, formalmente acusada de alguma coisa, a beleza depõe contra ela, em tribunal o indivíduo belo está a ser castigado, e de algum modo é a própria beleza que está a ser castigada, por isso as testemunhas e os jurados costumam descrever os réus atraentes como gente mentirosa, ínvia, perversa, dúplice, luciferina, manipuladora, fingida. Ou seja, tudo aquilo que os tablóides chamaram a Amanda nos últimos quatro anos.
O tribunal de recurso detectou 54 «erros grosseiros» na produção de prova, alguns dos quais já tinham sido denunciados pela defesa, pela imprensa e por peritos independentes. Bastavam as trapalhadas com o ADN para deitar este caso abaixo. Mas também nunca ficou estabelecido concretamente o motivo do crime, que descambou muitas vezes em suposições fantasiosas e moralistas sobre a «promiscuidade» de Amanda. E nunca ficou provado que Amanda e Raffaele estivessem no local do crime quando o crime foi cometido. As provas eram circunstanciais e duvidosas, o motivo nebuloso e nada garantia que os acusados tivessem sequer estado no local do crime. E mesmo assim, Amanda foi condenada a 26 anos de cadeia e Raffaele a 25. O tribunal de recurso, com um certo embaraço e bastante vergonha, anulou tudo, «perche il fatto non sussiste».
Não sei se Amanda Knox é inocente ou culpada. Sei que em processo se gerou uma «dúvida razoável», e que nesses casos se deve absolver. Dir-me-ão que não sou insensível às questões estéticas; mas quem tem que ser insensível a isso é o tribunal. Quando eu for insensível à estética, levem-me preso. "
O tribunal de recurso detectou 54 «erros grosseiros» na produção de prova, alguns dos quais já tinham sido denunciados pela defesa, pela imprensa e por peritos independentes. Bastavam as trapalhadas com o ADN para deitar este caso abaixo. Mas também nunca ficou estabelecido concretamente o motivo do crime, que descambou muitas vezes em suposições fantasiosas e moralistas sobre a «promiscuidade» de Amanda. E nunca ficou provado que Amanda e Raffaele estivessem no local do crime quando o crime foi cometido. As provas eram circunstanciais e duvidosas, o motivo nebuloso e nada garantia que os acusados tivessem sequer estado no local do crime. E mesmo assim, Amanda foi condenada a 26 anos de cadeia e Raffaele a 25. O tribunal de recurso, com um certo embaraço e bastante vergonha, anulou tudo, «perche il fatto non sussiste».
Não sei se Amanda Knox é inocente ou culpada. Sei que em processo se gerou uma «dúvida razoável», e que nesses casos se deve absolver. Dir-me-ão que não sou insensível às questões estéticas; mas quem tem que ser insensível a isso é o tribunal. Quando eu for insensível à estética, levem-me preso. "
Pedro Mexia, aqui.
