13 outubro 2005

O pai da Maria escreve melhor que os outros todos (e nós temos muito orgulho)

Pai à deriva
Ter filhos é descer um degrau na escada da qualidade de vida. Talvez por isso as pessoas hoje, que são mais felizes que antigamente, têm menos filhos. Estreei-me nestas lides há pouco tempo e já deu para aprender a lição. Calhou-me uma criança com problemas nos rins. Averiguei se dava para trocar. Nem por isso.
O último palavrão que aprendi é pieolonefrite aguda. Três dias no hospital e o ser humano sai a falar estrangeiro. Quando regressei a casa com uma mãe sonâmbulizada e uma filha já sem febre apercebi-me que o lar é doce desde que haja antibióticos por perto. É bom ser pai com uma receita aviada.
Por que será que a Bíblia nos fala de Deus enquanto Pai? Terá também Ele visto a qualidade de vida ser-Lhe reduzida ao decidir criar o Homem? Provavelmente. Tanto é assim que sabemos dos trabalhos em que Se tem metido para tratar das doenças dos Seus filhos. Desde a simples enxaqueca ao cancro do pulmão tudo serve para Deus Se afligir. E mais. Não só Se preocupa com as maleitas físicas. Igualmente O apoquentam as enfermidades do espírito. Não há farmácia que sirva a Deus todos os remédios que precisa para ver os Seus pequenos saudáveis.
Quando na sala de espera das urgências recordo como era a vida antes da criança existir. Um mar tranquilo. Agora que me especializei no consumo hospitalar sinto-me pescador em noite de tempestade no Atlântico. A terra firme parece pouco à vista. Resta aproveitar o embalo das ondas e saber que o maior consolo para um navegante à deriva é rezar o “Pai Nosso”. A paternidade faz-nos orar com mais afinco. Fico mais longe do homem que fui mas mais perto de Deus. Não está nada mau.

Tiago de Oliveira Cavaco

Salmos 121 na ponta da língua

. A escola começou e o vagar no sofá não é o mesmo. Mas seja a crochetar, a lavar a loiça, a tomar banho, a conduzir, há sempre oportuni...