24 janeiro 2019

O problema de nos esquecermos de Deus

O livro de Juízes relata uma época trágica do povo de Israel, que ignora as instruções de Deus, e abandona a fé para viver no meio dos pagãos. O povo de Deus tinha suportado 400 anos de escravidão no Egipto, que foram seguidos por quarenta anos de peregrinação no deserto, acabando com Josué a guiar o povo para a terra que Deus lhes tinha prometido. Perto do fim da vida, Josué lembrou os israelitas do dever de adorarem apenas e só a Deus, ao mesmo tempo que expulsavam os cananeus da terra, de forma a que não estivessem expostos a outras fés e fossem tentados a seguir religiões falsas (Josué 24: 14- 15).

E se o livro de Josué termina com a declaração das terras a serem conquistadas, o livro de Juízes começa com uma lista de falhanços, resultados de desobediência. O povo falha em expulsar os cananeus das terras, e esse foi apenas o começo de um período negro para o povo. Em menos de nada, convertem-se às mesmas práticas dos pagãos, entrando num ciclo de caos, violência e opressão nunca antes vistos. Na verdade, à medida que mergulhamos nos relatos, fica mesmo complicado identificar este povo como o povo de Deus.

Mas mesmo no meio desta confusão, Deus continua lá e a trabalhar. Se enquanto leitores, ficamos espantados e até chocados com o rumo dos acontecimentos, precisamos colocar-nos no lugar do povo. Poderíamos ter sido nós, ou podemos estar mesmo a ser nós, no presente século, a viver vidas semelhantes.

Se o fizermos, ganhamos humildade e contrição, e não perdemos a esperança de que Deus continua a trabalhar através de pessoas e circunstâncias moralmente duvidosas. A acção de Deus não se limita às nossas imperfeições. O trabalho de Deus nunca pára, ele não dorme.

Em Juízes 2, lemos sobre duas gerações de israelitas: a geração de Josué e a geração pós-Josué. A geração de Josué foi fiel. Em Juízes 2:7 lemos:

“O povo adorou ao SENHOR durante toda a vida de Josué 
e durante as vidas dos anciãos que sobreviveram a Josué. 
Eles tinham visto todas as grandes obras 
do Senhor que Ele havia feito por Israel.”

No entanto, a geração pós-Josué não foi fiel. Depois da morte de Josué e depois da morte dos anciãos que tinham vivido debaixo da sua liderança, esta geração cresceu como uma geração que "não conhecia o Senhor ou as obras que fizera a favor de Israel". Portanto, eles "fizeram o que era mau aos olhos do Senhor". (Juízes 2: 10-11). Uma geração que tinha testemunhado as grandes obras que o Senhor havia feito pelo Seu povo esqueceu-se de viver de forma a transmitir às gerações seguintes como ser fiel.

A memória do povo falhou e a nossa também não presta. Facilmente nos esquecemos de todas as bênçãos e livramentos que temos diários. E é também por causa disso que nos reunimos todos os domingos. Todos os domingos? - Sim, todos os domingos. Precisamos contar e relembrar sempre a mesma história, a nossa memória é curta.

Precisamos lembrar Deuteronómio 4:9:


"Tão somente guarda-te a ti mesmo, e guarda bem a tua alma, 
para que não te esqueças daquelas coisas que os teus olhos viram, 
e não se apartem do teu coração todos os dias da tua vida; 
e as farás saber a teus filhos, e aos filhos de teus filhos."


- Senhor, ajuda-nos a lembrar o que tens feito e a contar aos outros acerca de Ti. Ajuda-nos a adorar-te como o único e verdadeiro Deus e a passar esta lembrança à próxima geração. -

É oficial: perdi a conta.


Quando, no posto dos correios, a senhora me cumprimenta:

"Então, menina, são mais uns livrinhos?",

dei comigo a tentar fazer as contas à quantidade de embrulhos que já fiz para enviar estudos. Já não sei. Assim por alto, sei que um grupo de adolescentes no Brasil esteve a estudar Tiago, há um grupo no Norte também a estudar Tiago, outro no Porto a estudar as cartas de João, ainda outro com a primeira carta de Pedro, além de outras igrejas que estão neste momento a estudar Juízes, como nós na Lapa. Também já perdi a conta aos pdfs que enviámos por mail, gratuitamente, para o Brasil, Inglaterra, e até Estados Unidos (portugueses pelo mundo, sim!).
São dois anos e meio a espalhar aquilo que nos abençoa, e isso comprova que há uma fome e uma sede de estudo da Bíblia, consistente. Uma vontade de conhecer quem Deus é e descobrir o que Ele quer de nós.
Além disso, as mensagens audios disponíveis para cada semana de estudo, no Youtube da Igreja da Lapa, têm sido um investimento feito cujo encorajento se recolhe pelo relatório das visualizações.

Se é o caso de quereres receber o caderno por correio ou o pdf no mail, contacta-nos para mulheresdalapa@gmail.com. O custo do caderno são 5€ e cobre apenas os custos de impressão. Todo o trabalho envolvido de tradução, revisão, edição (incluindo audios) é oferta das mulheres da Igreja da Lapa.

[Se tiver sido o caso de já me terem enviado mail ou mensagem e eu ainda não ter respondido (que também já aconteceu), avisem-me!]





18 janeiro 2019

Desafio dos 10 anos


Anda por aí um desafio dos 10 anos, que desconfio que sirva para todos nos dizerem como éramos mais novos mas também para nos assegurar que o nosso processo de envelhecimento está a ser generoso. Vou poupar-me a isso, fico à espera dos vossos comentários para quando eu estiver mesmo ali na decadência total e começar a pensar em botox (estou a brincar!).

Resolvi ir ver o que se passava com a minha pessoa há uma década, e ora me dá vontade de rir, ora me apetece mandar-me calar. Bolas, que chata.

Basicamente, no início de 2009 eu tentava encontrar um equilíbrio entre ter três filhos abaixo dos 4 anos, que ora iam à escola porque eu tinha um trabalho permanente ao computador que era essencial ao nosso rendimento, ora estavam doentes com mil e uma coisas. Nesta fase, a rainha das doenças era mesmo a Marta, e era raríssimo estar sem a companhia dela em casa.

Há 10 anos, eu precisava muito de encontrar alguém nas mesmas circunstâncias que eu, e isso vê-se nas minhas maravilhosas declarações no Facebook, ou neste blogue. Exorcizar o meu desespero era parte da terapia e acho que teve o seu papel. Mas... prometo que não voltarei a esse nível. Se começar a descarrilar, por favor dêem-me uma paulada na cabeça e o assunto fica encerrado.

Ao mesmo tempo, vejo ali uma pessoa cansada, mas ainda assim com energia. Eu queria mesmo sair à rua com três crianças, só porque não aguentava mais estar em casa? Eu trabalhava no computador a todas as horas e mais algumas, inclusive ao serão de sexta-feira? No final desse ano, não contente com o caos desta casa, engravidei mesmo do quarto filho?

Efectivamente, passaram-se 10 anos. Os meus níveis de energia estão mesmo nos 40 (desculpem, pessoas super jovens e cheias de energia com a mesma idade que eu), não me passa pela cabeça ter o computador ligado ao serão de uma sexta-feira, estar em casa sem ter um plano é coisa que hoje me agrada sobremaneira, embora passeios sem destino também me soem bem, e uma boa notícia: os miúdos raramente estão doentes. De tal maneira que tive de usar o termómetro a semana passada com a nossa gata, e ele não reagia por falta de uso.

Dez anos depois, ainda não comprei o papel para a polaroid que a Miriam me deu. Prometo que compro nos próximos dez anos, ok? Uma década depois, acho que há lugar para tudo mas sobretudo para a gratidão. Deus foi bom nesses tempos e deu-nos tudo o que precisávamos e até mais. Tem feito crescer os miúdos de forma saudável, harmoniosa, e tem-nos ajudado enquanto pais. Hoje, o trabalho ao computador deixou de ser essencial para os dias. Quase tudo o que faço é voluntário, e escrevo para abençoar outros, sobretudo. Sirvo com o Tiago na Igreja que Deus nos deu, e quero ter a capacidade de olhar sempre para trás e identificar quem se possa estar a sentir sozinho nas suas dificuldades. Ter alegria, independentemente das circunstâncias, continua a ser um desafio, mas não vamos desistir.

2009 parece que foi ontem, mas não parece nada que foi ontem. É sempre assim, certo?

17 janeiro 2019

Uma gata chamada Sombra

[25.7.2002 - 15.1.2019]


Desde que existe casa dos Cavacos que existe a gata Sombra. Há duas semanas, pela primeira vez nos seus 16 anos e meio, deu sinais de estar a ficar doente. Pela segunda vez em toda a vida dela, entrou num veterinário. A Sombra sobreviveu à chegada de 4 bebés, perda da gata Nuvem, mudança de casa, queda de uma varanda, entre outros. Teve uma vida mais longa que a maioria dos gatos e saudável. Apesar de ser um assunto recente, o de que poderíamos ficar sem esta companhia, as lágrimas têm sido bastantes por aqui. E assim se aprende em família o que é perder.









14 janeiro 2019

Introdução ao estudo do livro de Juízes



O livro de Juízes não é o livro mais reconfortante da Bíblia. Fujo dele sempre que posso - quase sempre. Se o livro de Juízes fosse um filme, estaria classificado como um thriller, ou então puro horror.

É composto por 21 capítulos cujos ingredientes são a decepção, a opressão, a idolatria, o assassinato, violação, e apostasia, isto só para mencionar alguns. Os heróis, aqueles que esperaríamos que fossem as figuras modelo, não se comportam da maneira que idealizámos.

Sabemos que a Bíblia é inspirada e proveitosa, e quero acreditar que o livro de Juízes pode ser especialmente proveitoso para nós, hoje. Para mim, aqui em Lisboa. Como? Lembram-se do livro de Josué? O livro termina com a tomada de posse das terras, de uma maneira quase gloriosa. O livro de Juízes começa com o fracasso dos israelitas em tomar posse de algumas dessas terras, fazendo o povo viver no meio de uma cultura pagã, por causa da desobediência. E é aí que eu me encontro hoje, e qualquer cristão se encontra hoje: a viver numa cultura pagã. E um dos problemas é que estamos demasiado encaixados neste paganismo, também por causa da nossa desobediência, de todo um passado cheio de erros na forma de viver e ensinar.

No geral, Juízes é um conto sombrio, por que é que este livro se encontra na Bíblia?
Porque mostra a a depravação humana, a fraqueza da nossa natureza e a necessidade de um verdadeiro rei e salvador. Os seres humanos não podem salvar-se sozinhos; eles precisam de um salvador.




Quem escreveu?
Não sabemos quem o escreveu mas terá sido alguém ligado à casa de David.

É composto por várias tradições orais  – acredita-se que o cântico de Débora é um dos poemas mais antigos que do Antigo Testamento, e que foi incorporado nesta mescla de histórias, que não estão necessariamente organizadas por ordem cronológica; temos até histórias que se sobrepõem, como Sansão com Samuel.

Quando foi escrito?
O livro abarca a história entre a morte de Josué e o começo da monarquia em Israel (1400 – 1050 AC – 300 anos). Talvez tenha sido escrito entre 1010 e 1003 AC. Foi escrito há mais ou menos 3000 anos!

Para quem foi escrito?
Para a nação de Israel e com o objectivo de validar a monarquia da linhagem de David, e para nós, que vivemos deste lado da morte de Cristo, serve para validar a monarquia do próprio Cristo. 


Quais os temas centrais?
A ideia da necessidade de um rei. O povo acabou de chegar a Canaã e tomou posse mas não ocupou a terra.. Esta fase em que estão a afastar os povos – ou não, não há um governo civil que tenha sido estabelecido. Como é que eles vão governar? Esse é um dos temas.

A fidelidade de Deus é uma constante ao longo do livro.

A relação causa e efeito entre obediência e desobediência. 

Em que género literário foi escrito?
O estilo é uma narrativa histórica, mas também é um livro profético. Quando lemos esta narrativa, devemos ter em consideração que no Oriente a história era usada como propaganda. De forma a favorecer o líder. A forma como esta narrativa é escrita vai contra a cultura da época porque a nação de Israel sai bastante prejudicada. Também por  isso vemos como é inspirada por Deus. Em nenhum momento os homens saem bem na sua desobediência. 

A forma como os factos nos são dados é para nos transmitir uma mensagem sobre Deus. Não vamos assumir que só porque o escritor não demonstra repulsa nos factos que está a relatar, que não devemos sentir repulsa por episódios mesmo muito maus. Não podemos assumir que a ausência de emoções na descrição que significa que a Bíblia apoia este tipo de acontecimentos. 

Estou a começar Juízes e sei que não acaba bem. Vou ler com estas coisas em mente e com a noção de que não vou perceber muita coisa. Mas vou ler, porque a Palavra de Deus é para ser lida, digerida e absorvida. Quem está comigo?


Esta foto foi tirada em Novembro de 2016, no Vaticano, em Roma. 
Ilustra o episódio de Jael e Sísera. - Juízes 4. Lá chegarei!

04 janeiro 2019

Esta noite dormi mal

Aqui há uns tempos cometi a ousadia de comentar, na presença de jovens mães, que não tinha passado bem a noite.

"Duvido que esteja aqui alguém que tenha dormido bem a noite." - foi a resposta pronta.
Num pequeno instante, as reacções saltaram. Como pipocas.

E foi assim que me calei quase instantaneamente, porque me senti a provar do meu próprio veneno. De nada valia a pena explicar a estas mães que eu vivi durante largos anos um estado zombie, que sei muito bem o que é estar no limite das minhas forças e paciência, que vivi vários internamentos de filhos, que também sei o que é estar eu mesma doente e ter filhos doentes, que sei o que é ter o pai ausente e ter de acudir a vários colos de pequeninos... enfim.

O que eu experimentei naquele dia, razão pela qual me calei no imediato, foi aquilo que eu acreditei  durante muito tempo, e ainda hoje é uma tendência para mim em muitas áreas: acharmos que aquilo que nós vivemos é mais difícil do que os outros vivem.

Não foram poucas as vezes, que perante uma mãe de filho único a queixar-se, eu tinha a resposta presente: "era tudo tão fácil quando tinha só um". Ou quando uma mãe se lamentava de uma bronquiolite, eu pensava: "sei o que são bronquiolites há meses seguidos". Quando alguém dizia que era impossível ir às compras com os filhos, eu dava uma gargalhada cínica: "Nunca deixei de ir às compras com filhos atrás". Podia continuar o chorrilho de respostas que me tornavam a maior mártir da história da maternidade.

Ainda hoje caio facilmente neste tipo de julgamentos. Quando alguém se queixa de algo, minimizar a queixa (nem que seja em pensamento); ou também, ao contrário: quando alguém faz algo visto como extraordinário, desvalorizar esse esforço lembrando as inúmeras pessoas algures na história da humanidade que fizeram igual ou melhor (eu, incluída).

Este tipo de pensamentos não são nada bons, e muito menos cristãos - falo por experiência própria. Alimentam as nossas fraquezas. Se tendemos para a auto-comiseração, aumentam-na. Se tendemos para o ressentimento, alimentamos esse ressentimento. E por diante.

Outro dos perigos é resguardarmo-nos em conversas com "pessoas que nos compreendem". Se por um lado é bom falar com pessoas que estão na mesma fase ou a passar pelo mesmo desafio, por outro isso convence-nos que só essas pessoas sabem das nossas lutas e nos podem ajudar.

Descobri que ver em perspectiva é sempre uma boa opção. Darmo-nos o benefício da dúvida. A história do copo meio cheio ou meio vazio. Claro que uma mãe que está privada de sono sabe que esta fase não durará o resto da vida e não encontra grande conforto no: "Isso vai passar". Pode, até, ficar irritada com o "Ainda vais ter saudades". Mas alargar a visão e buscar ouvir não só o que nos conforta ou agrada, pode parecer um contra senso, mas tenho aprendido que ajuda a olhar além de nós.

Experimento, há alguns anos, a presença de amigas que desejariam muito ter uma noite mal dormida. Mas não conseguem por nada engravidar. Foi com elas que aprendi a refrear os meus queixumes, numa primeira fase. O poder que um olhar triste e desejoso de ter esse tipo de angústias teve no modo de me expressar acerca dos meus dramas, foi muito grande. Já viram ou partilharam as lágrimas de alguém que vive infertilidade? Experimentem.

Desde aquele dia que peço ainda mais ajuda a Deus para me calar. Para me ajudar a reagir com amor, com compreensão e sem julgamento. Para que haja lugar a um desabafo (eu tinha mesmo dormido mal aquela noite graças a uma enxaqueca com aura), porque acredito no poder aliviador de um fardo. Às vezes, o silêncio é a melhor compreensão. Outras vezes, "vais conseguir ultrapassar, sei o que isso é", e ainda outras: "nunca passei por isso, mas lamento muito" e sempre: "Vou orar por ti".

"O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. 
Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor."

-excerto de 1 Coríntios 13-


Imagens retiradas daqui.

Salmos 121 na ponta da língua

. A escola começou e o vagar no sofá não é o mesmo. Mas seja a crochetar, a lavar a loiça, a tomar banho, a conduzir, há sempre oportuni...