A nossa casa vivia um caos permanente, com dois bebés e uma criança pequena. No meio disto, o meu marido fazia músicas e dava concertos, e agora à distância ainda não sei muito bem como isso aconteceu, mas aconteceu. Recordo-me que ir a um concerto exigia uma logística que se organizava com largos dias de antecedência. Num desses concertos, em que deixei a miudagem e o filho mais novo de 4 meses com os meus pais, escrevi isto assim:
"Deve ser verdade,
Verifico se armazenei leite suficiente no frigorífico, meto as mãos nos bolsos e confiro se não levo cheiro a leite azedo ou toalhetes sujos e desafio-me a conversas para lá de noites mal dormidas e gracinhas da prole. Caramba, que isto não é fácil, assim de repente a sair em cima da hora do concerto e sempre de olho no relógio e no telemóvel. Mas, e no entretanto, enquanto a música não começa, o que é que a gente faz? A minha cultura musical nunca foi grande coisa, é certo, mas do que é que falávamos antes? Onde é que eu metia as mãos, agora que as tenho sempre ocupadas? Não me lembro de como é que eu fazia isso tudo. Que estranho.
A parte boa é que, quando posso (muito raramente, verdade) saio de casa com uma mala minúscula e as mãos a abanar. Quando regresso, a correr, está tudo igual. Os meus amigos parecem ainda gostar de mim e da minha companhia. Eu ainda gosto deles."
(aqui.)
Dez anos depois, a logística é outra (há aulas no dia a seguir, mas não tenho bebés a chorar por alimento a meio da noite) e já estou habituada a sair só com uma mala pequena, com os meus pertences. A minha cultura musical continua a não ser grande coisa, mas os meus amigos ainda gostam da minha companhia (quero acreditar).
Apareçam.


