30 dezembro 2019

Lições da garça no Lake Cavalier

Acordávamos pela manhã, por mais cedo que fosse, e aí estava ela: parada, quase estátua, a contemplar o lado direito do lago. Ali ficava incansável, como que certificando o cenário paradisíaco ao nosso redor, com uma condição: uma boa margem de distância. De todas as vezes que abri com cuidado a porta de vidro para a fotografar - numa tentativa de a registar para nunca mais me esquecer - e caminhava lentamente pelo relvado, havia ali um momento que por mais silencioso que fosse, eu já me tinha feito anunciar, e ela saía, como que dizendo: passaste os limites.

É da garça que me lembro agora, sempre que nestes novos dias cheios de caras que amo e dos sítios de que tinha saudades, dou comigo ainda a descobrir um novo ritmo. E dou comigo ainda sem saber me situar porque ainda não descobri os meus novos limites por aqui. Nos momentos de cabeça confusa e meio cansada desta agenda social, vejo a garça a voar e a dizer: não podes. Sinto-me uma pessoa a regressar a tudo o que conhece e ama mas com uma incapacidade para me inserir da mesma forma. Deve ser isto que se chama transformação, mudança, maturidade, talvez. Digo-o sem arrogância ou superioridade, porque isto nada mais é do que trabalho do Espírito, que me alerta: atenção! Tu vais viver de forma diferente. Tu não te podes permitir a mesma correria sem paragens. A tua cabeça precisa de mais contemplação.

Recordo a garça, que na sua quietude e postura, se mantinha como nossa companhia, mas sem a pretensão de algo mais. Ela sabia os seus limites, conhecia o seu espaço, e voltava todos os dias. Mesmo quando não tinha permanecido tanto tempo por causa das minhas imposições. Cada novo dia é uma nova oportunidade de recomeçar, e essa é a maior esperança de todas: podemos mudar, tentar, até acertar.


29 dezembro 2019

Reencontros

Há reencontros que têm um sabor especial, por muitas razões. A irmã Manuela é a avó que me carrega em oração de forma fiel e permanente. É a companhia com sentido de humor do lado de lá do Whatsapp, mesmo quando a saúde não está nos seus melhores dias. É parte da família que Deus nos deu e que nos mostra mais como é amar como Jesus nos ama.

27 dezembro 2019

Simplicidade




Estávamos a minutos de receber alguma da nossa família na Consoada e a tranquilidade era a do vídeo. É acerca disto que acredito cada vez mais no Natal. Espera tranquila e relembrar o Senhor Jesus à mesa.

Se em tempos idos, a confusão e o número de prendas eram o ponto alto e confuso da noite, hoje já não temos nada disso. Jantamos e debruçamo-nos na Palavra de Deus, oramos e cantamos. Depois, trocamos lembranças que demoram, no máximo, 5 minutos a abrir, fazendo cada vez mais sentido que o natal é acerca da partilha do amor de Jesus neste dia e o resto do ano.

Foi um bom Natal!

24 dezembro 2019

Diz que neva em Nova Iorque.


Este ano realizei um sonho que nunca imaginei ser possível, nem nos meus melhores dias: levar os meus filhos a Nova Iorque. Foram cinco dias inesquecíveis que superaram também as minhas melhores expectativas. Estava calor e o cenário não era como o que eu tinha visto anteriormente: neve e luzes de Natal. Quem nunca viu o Home Alone e não se imagina em Nova Iorque, em pleno Central Park, de luvas e de gorro? Parece que há sítios do mundo onde é mais fácil e mais encantador viver esta época. Damos connosco a sonhar a passear pelas nossas ruas preferidas, sem destino, simplesmente a estar.

Mas o Natal não é acerca de glamour, de luzes a piscar, de tradições, por si só. Embora não as desprezemos e as vivamos com alegria, elas nunca devem ser vividas se não apontarem para o doce mais saboroso de todos: o nascimento do nosso Senhor. Não foi uma noite com neve (tudo indica que era tudo menos Dezembro), nem com fartura, embora houvesse uma enorme festa que poucos tiveram o prazer de assistir - imaginam um coro de anjos a cantar: "Glória a Deus nas maiores alturas"? Uau, que espectáculo único! As luzes fazem sentido se imaginarmos os anjos no palco do céu, juntos a várias vozes a anunciar uma mensagem tão aguardada por tantos anos. A festa ganha um novo tom se também cantarmos, a alta voz, que o Messias já chegou. A mesa ganha todo o propósito se for acerca da partilha do amor de Deus por nós, que se estende até ao próximo.

O Natal é sempre e só acerca da mensagem da cruz. Do Rei que chegou para reinar eternamente, com justiça e amor, e que escolheu chegar mansamente na forma de um pequenino bebé. Ah, o Natal!


22 dezembro 2019

Quarto domingo do Advento

"As benignidades do SENHOR cantarei perpetuamente; com a minha boca manifestarei a tua fidelidade de geração em geração.
Pois disse eu: A tua benignidade será edificada para sempre; tu confirmarás a tua fidelidade até nos céus, dizendo:
Fiz uma aliança com o meu escolhido, e jurei ao meu servo Davi, dizendo:
A tua semente estabelecerei para sempre, e edificarei o teu trono de geração em geração.
E os céus louvarão as tuas maravilhas, ó Senhor, a tua fidelidade também na congregação dos santos.
Pois quem no céu se pode igualar ao Senhor? Quem entre os filhos dos poderosos pode ser semelhante ao Senhor?
Deus é muito formidável na assembléia dos santos, e para ser reverenciado por todos os que o cercam.
Ó Senhor Deus dos Exércitos, quem é poderoso como tu, Senhor, com a tua fidelidade ao redor de ti?
Tu dominas o ímpeto do mar; quando as suas ondas se levantam, tu as fazes aquietar.
Tu quebraste a Raabe como se fora ferida de morte; espalhaste os teus inimigos com o teu braço forte.
Teus são os céus, e tua é a terra; o mundo e a sua plenitude tu os fundaste.
O norte e o sul tu os criaste; Tabor e Hermom jubilam em teu nome.
Tu tens um braço poderoso; forte é a tua mão, e alta está a tua destra.
Justiça e juízo são a base do teu trono; misericórdia e verdade irão adiante do teu rosto.
Bem-aventurado o povo que conhece o som alegre; andará, ó Senhor, na luz da tua face.
Em teu nome se alegrará todo o dia, e na tua justiça se exaltará.
Pois tu és a glória da sua força; e no teu favor será exaltado o nosso poder.
Porque o Senhor é a nossa defesa, e o Santo de Israel o nosso Rei."


Salmos 89:1-18

18 dezembro 2019

Como não celebrar o Natal?


Quando comecei a escrever as meditações para a caminhada para o Natal deste ano (disponíveis aqui) o calor ainda abundava no Mississippi e o regresso a Portugal ainda me parecia muito distante. Enquanto escrevia, tentava ter em mente de que quando estas meditações estivessem a ser lidas, já estaríamos de regresso ao nosso lar, mas confesso que isso me foi difícil - a minha cabeça estava longe de voltar.

Durante muito tempo nesta ausência, eu sentia as saudades, sentia o estar longe, mas como dizer isto sem parecer fria? Não sentia mesmo pena de não estar. Recebia fotos de coisas que aconteciam, que me alegravam, mas nada em mim estremecia com pena. Sentia que era naquele calor que eu tinha de permanecer, que era na experiência da solidão e do desconhecido que Deus iria trabalhar em mim. Tive saudades das pessoas, dos lugares, do mar. Mas não tinha saudades da minha casa, embora me tivessem dado tanto jeito todos os utensílios que não tinha lá. As saudades que surgiram em as normais, mas nunca ao ponto de me distrair da beleza dos dias. Hoje vejo que todos estes sentimentos foram plantados por Deus no meu íntimo, para assim trabalhar melhor em mim com propósito, a cada dia. E agradeço-lhe por isso.


A caminhada de regresso a Portugal, vejo hoje, foi feita de uma caminhada de afastamento dele. Tal como o Natal na verdade precisa de ser. Necessitamos estar muito afastados de Deus para termos de nos aproximar. Um dia, o seu filho veio ao mundo, para que eu não estivesse mais perdida. Por causa da sua vinda até mim, hoje tenho esperança e um lar.

Caminhamos para o Natal, lembrando que é no sentido de Belém que precisamos dirigir-nos, tal como fizeram Maria e José. Eles foram e assim nós devemos ir também. Mesmo que esteja desagradável, mesmo que não haja aparentemente lugar para nós como não houve para Maria, mesmo que ninguém repare que algo de extraordinário pode acontecer nos sítios mais humildes.

Com esta ideia presente, regresso a Portugal sabendo que é o sítio certo a que tenho de voltar. Reconhecendo que a minha insignificância é tudo o que Deus precisa para a transformar em glória para o seu Reino. Tudo no seu tempo, apenas e só para o agradar. Não foi isso que o Senhor Jesus fez toda a vida?


Chegar a casa e ter na caixa de correio os postais dos que sabem que, algures neste mês, também receberão um postal dos Cavacos. É bom estar de volta.

16 dezembro 2019

Caleb

 

Tinha mais ou menos dois anos (imagem acima), começou por pedir o seu próprio boletim, ainda na "igreja pequenina". Queria, também, ter a sua cadeira, mas algures durante o período musical, começava a cambalear e adormecia até ao final.

Com mais ou menos três (segunda imagem) , já na igreja da Lapa, começou a pedir para ir para a fila à frente de onde nos sentávamos habitualmente. De boletim na mão, deixei-o ir à experiência, até porque eu estava mesmo atrás e a operação de resgate era fácil de fazer. Desde então, esteja lá o Papá durante as músicas ou fique completamente sozinho porque o Papá está a pregar, aquele é o lugar dele.

Ontem, cinco meses depois, o lugar voltou a ser preenchido. Pousou as coisas, orientou o que precisava ter à mão e olhou em redor, a reconhecer o espaço. Eu, que já não preciso estar exactamente na fila atrás a controlar tudo, fiquei a observar, relembrando a fidelidade de Deus na nossa vida. Até nestes pequenos pormenores. Comovente.

Sabes que chegaste a Portugal quando:

... metade da população está constipada ou com vírus, ou com febre - essa doença quase mortal;

... toda a gente está vestida com sobretudo e botas, mesmo estando 15°;

... entras em casa de alguém e parece que continuas na rua. Conforto? Zero.

... sabes que tão depressa não vais conhecer determinado bebé porque está muito frio para sair à rua;

... ligas a tv para ver o que se passa pelo país e o noticiário gasta largos minutos a falar de alertas de mau tempo. E que alertas são esses? Tornados? Furacões? Tempestades? Não. Vai chover. Ou antes, vai cair bastante água do céu;

... voltas a ver nas redes sociais fotografias das pulseiras do serviço de urgência.

 Como não te amar, Portugal?

14 dezembro 2019

Escangalhada


O cansaço nunca é bom medidor de emoções ou discernimento, portanto tenho passado os últimos dias a dar-me um enorme desconto a mim mesma, embora por vezes me sinta mais a ser levada pelos dias do que eu a dominá-los. Mas já passei pelo jetlag vezes suficientes para saber que a sensação de ausência, de flutuar, de confusão, leva sempre alguns dias a passar. A juntar ao jetlag, regresso geralmente com viagens marcantes, experiências, encontros que levam tempo a processar.

Desta vez, não é apenas uma conferência ou uma experiência que trago comigo, são 4 meses e meio de uma vida nova que nunca mais será a mesma. De repente, estou de regresso ao meu lar, a tudo o que conheço e tenho saudades, e sou assaltada por um sentimento de receio, de dúvida, de falta de encaixe. Vejo tudo com um olhar diferente e novo e isso é lento a ser processado.

Não volto a este lugar para continuar a vida como sempre foi porque isso já não vai ser possível. Deus fez-me uma pessoa diferente e preciso de recomeçar e voltar a pertencer com tudo aquilo que é novo. Aquilo que Deus mudou, prometeu e mostrou do lado de lá é verdade em qualquer lugar - só preciso de perceber como se aplica a toda a realidade que ficou, sabendo que essa mesma realidade pode ter mudado ou não; e que esse acerto terá os seus custos, mas que tudo o que acontece aos filhos de Deus contribui para o seu bem. E eu confio que Deus tem sempre o melhor para mim. 

13 dezembro 2019

Voltar a casa é voltar à nossa família

Reunião de oração. Orar e cantar em português, com os nossos irmãos.

As fotos estão miseráveis, tiradas com o telemóvel, mas são o nosso primeiro registo de chegada.

Uma enorme, gigante, infinita gratidão


Aqui para nós, o meu maior medo de todos ao viajar para a América, era que algum de nós ficasse doente e precisássemos usar o seguro de saúde. Viajar sem um seguro não era opção, mas mesmo com uma cobertura grande que cobrisse as maiores dificuldades, recorrer a ele seria sempre incorrer em enormes despesas e enfrentar todo um mundo desconhecido.

Estão a ver os seguros portugueses em que uma ida à urgência custa no máximo 40€,uma consulta uns 15€ e análises por uma bagatela? Isso não existe por lá (muito menos Serviço Nacional de Saúde, claro). Mesmo com os melhores seguros, as franquias e preços de tabela nunca prevêem valores abaixo dos 250 dólares. No nosso caso, tivéssemos uma amigdalite ou uma apendicite, entrar numa urgência começaria sempre por um valor mínimo de 500 dólares. Além disto, mergulhar no universo hospitalar significaria sempre viver vulnerabilidades num contexto diferente, não seria fácil. Mas era um risco assumido a partir do momento em que decidimos viajar. Deus, na sua infinita misericórdia, poupou-nos e a gratidão que sentimos é muito grande, não tem explicação. Obrigada, Senhor!

12 dezembro 2019

Cada um tem o veado em casa que pode.

Chegámos


De regresso a casa. Muito amor e emoção. Um frigorífico carregado de comida caseira (obrigada mãe, Selma, Rita, Mariana e Isabela) e voltar a dormir numa cama, a nossa cama.

Sabemos que estamos em casa quando, no Pingo Doce, a D. Teresa nos vê, e diz:
"Há tanto tempo que não a via, está tudo bem com os meninos?".


E comer caldo verde ao pequeno almoço? Uma delícia.

09 dezembro 2019

Oliveiras e Cavacos

Esta é a nossa última foto todos juntos, tirada no aniversário da cunhada Marta, no restaurante preferido dela, o Mama Hamils, onde se pode comer comida caseira com o sabor típico do Sul, num ambiente também ele muito característico. Estivemos todos juntos 4 meses e meio, e há muito do que vivemos que nunca poderá ser colocado em palavras, mas fica connosco.

I'm a city girl


Estamos numa escala de 8 horas em Nova Iorque. Estes meses todos depois, não tenho dúvidas: sou uma pessoa de cidades. Embora não sinta saudades do trânsito, de buzinas, de procura de lugar de estacionamento, de dias curtos e corridos, de viver enclausurada num apartamento, gosto da vida de bairro que temos em Oeiras, de ter tudo o que é essencial sem ter de usar o carro, do comércio local, da diversidade dos lugares de consumo. Num mundo ideal, teríamos a cabana de madeira de Pelahatchie em plena Oeiras. Mas não existe mundo ideal e é para lá que vamos regressar.

Se não era preciso estar longe de casa para saber que amamos onde vivemos, ter estado longe salienta aquilo que apreciamos ainda mais. Nova Iorque não se vê hoje ao longe porque chove e está nevoeiro, mas quanto mais viajo e conheço mais a América, também Nova Iorque permanece destronável no que toca a cidades que amo. A laranja, os Estados que já visitei.

As cidades do meu coração, por ordem: Lisboa, Nova Iorque, Roma, Praga, Paris, Dubrovnik.

Salmos 121 na ponta da língua

. A escola começou e o vagar no sofá não é o mesmo. Mas seja a crochetar, a lavar a loiça, a tomar banho, a conduzir, há sempre oportuni...