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08 março 2019

Dia da mulher


Do meu avô, só lhe conheci a velhice. Mas cresci a ouvir os relatos de como ele batia na família, em especial na minha avó. Foi necessário que os filhos crescessem para se intrometerem e imporem uma separação judicial (naqueles tempos, o B.I. não contemplava a palavra divórcio). Nessa época, atribuía-se a continuidade da violência à prisão da dependência financeira e ao contexto social.

Hoje, não há obrigatoriedade de casar e são poucas as mulheres que dependem totalmente dos companheiros. Há uma suposta liberdade conquistada, mas a violência só aumenta. Já pensaram nisto? O que é que estamos a ensinar aos nossos filhos sobre relacionamentos, amor, compromisso? Sobre ser mulher e sobre ser homem? Sobre igualdade e dignidade? Estamos a agarrar-nos a que conceitos, a que valores?

No outro dia, a minha filha mais velha perguntava-me o que eu achava de ser feminista cristã. Eu respondi-lhe que me chega ser cristã, porque a ideia de que mulheres e homens têm o mesmo valor e dignidade, não é uma ideia feminista, é uma ideia cristã bem antiga. Basta regressar à carta aos Gálatas, em que Paulo escreve que com Cristo "não há judeu, nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher". Precisamos voltar à Bíblia, reler o propósito para o qual fomos criados, mulheres e homens, a como nos devemos relacionar, e onde está o nosso valor.

04 janeiro 2019

Esta noite dormi mal

Aqui há uns tempos cometi a ousadia de comentar, na presença de jovens mães, que não tinha passado bem a noite.

"Duvido que esteja aqui alguém que tenha dormido bem a noite." - foi a resposta pronta.
Num pequeno instante, as reacções saltaram. Como pipocas.

E foi assim que me calei quase instantaneamente, porque me senti a provar do meu próprio veneno. De nada valia a pena explicar a estas mães que eu vivi durante largos anos um estado zombie, que sei muito bem o que é estar no limite das minhas forças e paciência, que vivi vários internamentos de filhos, que também sei o que é estar eu mesma doente e ter filhos doentes, que sei o que é ter o pai ausente e ter de acudir a vários colos de pequeninos... enfim.

O que eu experimentei naquele dia, razão pela qual me calei no imediato, foi aquilo que eu acreditei  durante muito tempo, e ainda hoje é uma tendência para mim em muitas áreas: acharmos que aquilo que nós vivemos é mais difícil do que os outros vivem.

Não foram poucas as vezes, que perante uma mãe de filho único a queixar-se, eu tinha a resposta presente: "era tudo tão fácil quando tinha só um". Ou quando uma mãe se lamentava de uma bronquiolite, eu pensava: "sei o que são bronquiolites há meses seguidos". Quando alguém dizia que era impossível ir às compras com os filhos, eu dava uma gargalhada cínica: "Nunca deixei de ir às compras com filhos atrás". Podia continuar o chorrilho de respostas que me tornavam a maior mártir da história da maternidade.

Ainda hoje caio facilmente neste tipo de julgamentos. Quando alguém se queixa de algo, minimizar a queixa (nem que seja em pensamento); ou também, ao contrário: quando alguém faz algo visto como extraordinário, desvalorizar esse esforço lembrando as inúmeras pessoas algures na história da humanidade que fizeram igual ou melhor (eu, incluída).

Este tipo de pensamentos não são nada bons, e muito menos cristãos - falo por experiência própria. Alimentam as nossas fraquezas. Se tendemos para a auto-comiseração, aumentam-na. Se tendemos para o ressentimento, alimentamos esse ressentimento. E por diante.

Outro dos perigos é resguardarmo-nos em conversas com "pessoas que nos compreendem". Se por um lado é bom falar com pessoas que estão na mesma fase ou a passar pelo mesmo desafio, por outro isso convence-nos que só essas pessoas sabem das nossas lutas e nos podem ajudar.

Descobri que ver em perspectiva é sempre uma boa opção. Darmo-nos o benefício da dúvida. A história do copo meio cheio ou meio vazio. Claro que uma mãe que está privada de sono sabe que esta fase não durará o resto da vida e não encontra grande conforto no: "Isso vai passar". Pode, até, ficar irritada com o "Ainda vais ter saudades". Mas alargar a visão e buscar ouvir não só o que nos conforta ou agrada, pode parecer um contra senso, mas tenho aprendido que ajuda a olhar além de nós.

Experimento, há alguns anos, a presença de amigas que desejariam muito ter uma noite mal dormida. Mas não conseguem por nada engravidar. Foi com elas que aprendi a refrear os meus queixumes, numa primeira fase. O poder que um olhar triste e desejoso de ter esse tipo de angústias teve no modo de me expressar acerca dos meus dramas, foi muito grande. Já viram ou partilharam as lágrimas de alguém que vive infertilidade? Experimentem.

Desde aquele dia que peço ainda mais ajuda a Deus para me calar. Para me ajudar a reagir com amor, com compreensão e sem julgamento. Para que haja lugar a um desabafo (eu tinha mesmo dormido mal aquela noite graças a uma enxaqueca com aura), porque acredito no poder aliviador de um fardo. Às vezes, o silêncio é a melhor compreensão. Outras vezes, "vais conseguir ultrapassar, sei o que isso é", e ainda outras: "nunca passei por isso, mas lamento muito" e sempre: "Vou orar por ti".

"O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. 
Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor."

-excerto de 1 Coríntios 13-


Imagens retiradas daqui.

08 outubro 2018

2018/2019

O ano lectivo começou há três semanas. Não tem sido fácil arrancar. Gostava de ser daquelas mães desejosas que a escola comece e que o despertador passe a tocar, mas não sou! Gosto muito da liberdade dos dias em que eles estão em casa sempre, mesmo que isso implique estarmos o tempo todo juntos.

Entre manuais guardados, bibliotecas e amigos, conseguimos grande parte dos manuais para este ano e isso foi um encorajamento (pagar 857€ ia ser complicado, mas Deus sabe das nossas necessidades!). O tempo começa a esfriar e não tarda estamos a dar as voltas aos roupeiros e a comer castanhas com mantas no sofá. E isso agrada-me!


24 maio 2018

No início de ter bebés, houve uma fase em que a minha leitura parecia que nunca ia ser retomada. Entre dar de mamar e extremo cansaço, era mais fácil ver porcarias na televisão, porque a capacidade de concentração estava toda em cremes, fraldas, medicação e sopas. A rota foi corrigida ao longo dos anos e, felizmente, os bebés mais novos já não têm memória de me ver a assistir ao Dr. Phil (a mais velha faz questão de gozar comigo de vez em quando, para grande vergonha). Agora que consigo ler novamente vários livros ao mesmo tempo, percebo melhor o desperdício desses anos. Entre um bebé ao colo e a obrigatoriedade de estar parada, façam boas escolhas e alimentem bem a vossa alma. Vão por mim, uma desnutrida recuperada.

22 março 2018

Muitas vezes fazem-me perguntas (especialmente por mail) acerca do ensino doméstico. Talvez as minhas respostas sejam pouco claras, porque nesta casa estamos num caminho, que se tem construído lentamente. E nós acreditamos que cada família deve fazer o seu caminho, no seu tempo, com liberdade.

Em momentos destes, em que a matéria de História já chegou ao fim mas a de Matemática está baralhada, olho para esta foto e relembro: esta escolha é muito mais do que números e letras.

13 março 2018

Os aniversários estão sobrevalorizados



Quem já falou comigo sobre este assunto, sabe que reajo um bocadinho a comemoração de aniversários. Não me entendam mal: não sou contra festas. Mas acho que nos dias de hoje se dá uma importância exagerada ao dia e à forma de o comemorar. Chega a ser uma ofensa para alguns, haver algum tipo de esquecimento, desvalorização ou falta de comparência. Um dia sagrado.

Reconhecer os que amamos e sermos reconhecidos deve ser uma coisa presente no dia-a-dia e presentear com generosidade é um conceito que, quanto a mim, deve ser bastante alargado e até vivido. Pode ser com um postal, uma nota de apreciação, um prato de comida favorito, uma oferta de ajuda, uma oração. Sabem qual o melhor presente que me podem dar? Dizer que oram por mim. Nada me emociona e conforta mais.

Tentamos cultivar este hábito de maior simplicidade em família, não sendo escravos de festas ou presentes mas escolhendo passeios, ou de como nos apetecer estar. Ainda temos um longo caminho a percorrer, mas temos feito algumas mudanças nos últimos anos. Já aconteceu convidarmos um amigo especial de um dos miúdos (ou umas amigas próximas) para passar o dia, fazermos um piquenique, ver um filme, comermos fora. Não é preciso muito mais. Evitamos mega presentes e a expectativa do dia estar debaixo disso. Criar memórias para o futuro constrói muito mais do que super embrulhos que perdem interesse em pouco tempo, atafulham quartos e promovem a ideia de abundância e felicidade estarem directamente relacionadas.

Para isto tudo, precisamos dar o exemplo e eu sou grande entusiasta de o viver (chamem-me do contra, que não me importo nada!). Deus tem-me feito a vontade e, então, nos últimos anos tem-me oferecido dias de aniversário bem sui generis. Tenho tido dias que me fazem agradecer mais os que tenho junto a mim, os que cuidam de mim e dos meus e que estão lá neste dia e nos outros todos também.

Para o que for preciso. Só assim se explica que tenham vindo parar cá a casa dois bolos, à minha medida.

08 março 2018

Abrandar


Somos educados para produzir, para pensar, para trabalhar. Vivemos a um ritmo que fica cada vez mais difícil parar e focar. Os dias são curtos, os afazeres são muitos. É aqui que vivemos, não há como fugir.

Nunca nego a possibilidade de ter um bebé no colo, e as razões são várias :

Um bebé obriga a parar. E preciso - precisamos - tanto de parar.
Sabemos, especialmente as mães mais recentes - que se não for o bebé a obrigar a parar, não o vamos fazer. O corpo ainda é jovem, há muito que fazer, e é difícil esperar. Mas precisamos abrandar e contemplar.

Um bebé treina a nossa paciência. E preciso - precisamos - tanto de exercitar a paciência. Especialmente durante a noite.
Um bebé precisa de ser ensinado a dormir. Quem nunca teve um bebé cheio de sono, mas a lutar contra ele próprio?

Um bebé no colo ensina-nos acerca do imenso amor de Deus. De como ele nos carrega, nos embala, não nos abandona e nos ensina a descansar nele. Um bebé confia como devemos confiar no nosso Pai.

Se tens a possibilidade de ter um bebé no colo, ignora a confusão ao redor, fecha os olhos e aproveita. Deus é bom em todo o tempo e delicia-se em cuidar de nós. Só precisamos abrandar e confiar.

09 fevereiro 2018

?




QUANDO TENS MEDO
DE DIZER NÃO A CERTAS COISAS
– SERÁ QUE ISSO É TAMBÉM
UM MEDO 
DE DIZER SIM A MELHORES COISAS?

SERÁ QUE O MEDO
DE DIZER NÃO 
A OUTRAS PESSOAS
– É NA VERDADE UM MEDO
DE DIZER SIM 
AO QUE DEUS DESEJA PARA TI?

Ann Voskamp

15 janeiro 2018

Copo meio cheio.


Há uns meses, o pai tentava relativizar um drama desnecessário de uma filha acerca de visão, dando o exemplo do Joaquim.
"O teu irmão praticamente não vê de um olho, e nunca o ouvi queixar-se".

Depois, pedia ao Joaquim para tapar o "olho bom" e dizer o que não conseguia ver. Era muito. Enquanto se explicava, o Joaquim dizia:"Não há problema, já estou habituado. Depois, abro o outro e vejo um bocado melhor, até ali. Por mim não faz mal, desde que eu veja bem, está tudo bem".

( Lembrava-me da quantidade de vezes que se magoou em mais pequenino, ou até da quantidade de vezes que ainda hoje passa por um desastrado apenas, ou até do dia em que descobrimos que andávamos a ver filmes 3D e ele não vê 3D, e se lhe perguntarmos ele continua a garantir que até conseguia ver bem.)

Desde esse dia, recordo muitas vezes esta constante forma de estar do Joaquim, que tanto tem para me ensinar, acerca de como escolho focar-me nas desilusões ou nas bênçãos. Que Deus sempre lhe aumente esta capacidade de viver agradecido com o que Deus lhe dá e faça comigo o mesmo.

(Lembrar-me constantemente que, para o Joaquim, o que conta são os 100% que vê do olho esquerdo, e não os 10% que vê do direito. O copo meio cheio, sempre. )

02 novembro 2017

!

O tempo existe para nos lembrar que não somos omnipresentes. Que dizer "sim" implica muitas das vezes ter de dizer "não". Somos limitados, não conseguimos fazer tudo o que gostaríamos (e ainda bem!). Tudo o que está planeado, Deus fará acontecer. Estarmos disponíveis para este plano não é necessariamente estarmos sempre disponíveis para tudo. É esta, talvez, a maior lição que tenho aprendido em 2017.

18 outubro 2017

Impiedoso, o tempo.


O ano lectivo começou há precisamente um mês. Plastificámos dezenas de manuais, fizemos planeamentos, desenhámos estratégias para que estes meses que se seguem sejam combatidos e vividos sempre de melhor forma. Custou ter o despertador a tocar novamente às 6h50, pegar em sacos e saquinhos, viagens constantes. O calor só agora começa a desaparecer, depois de vermos grande parte do nosso país (novamente) a arder.

Gostava de vos contar como foi o nosso Verão, entre férias e compromissos fora de Portugal. Vamos ver se consigo passar para escrito aquilo que gostava de nunca me esquecer. Só não sei por onde começar.


17 julho 2017

Consolo

A Ana dos cabelos ruivos dizia muita coisa acertada (e outra tanta engraçada). Esta ideia é um bom consolo, o de pensar que o dia de amanhã é um novo dia sem erros nele, ajuda a virar a página e lembrar o versículo da Bíblia que nos recorda que as misericórdias de Deus se renovam a cada manhã. Não podemos apagar o passado nem fingir que não existiu, mas podemos viver sempre com a esperança de que podemos fazer melhor e ser melhor, com a ajuda de Deus.

12 julho 2017

Poder escolher

Vamos para o quinto ano de Ensino doméstico. Já se passaram 4 anos? Já. A discussão em torno de escolhas alternativas parece-me sempre muito superficial.

SOCIALIZAÇÃO
Esta é a primeira questão que geralmente nos colocam. Segundo esta fonte: "O termo socialização é usado pelos sociólogos, psicólogos e pedagogos para se referirem ao processo de assimilação da cultura em que vivemos e de se aprender a viver nela. Para a sociedade, a introdução de todos os seus membros às suas normas, atitudes, valores, motivações, papéis sociais, linguagem e símbolos é "o meio pelos quais a continuidade social e cultural é atingida".

E isto tem de necessariamente ser feito na escola, no modelo que a conhecemos? Uma das coisas que me intriga é que partimos do princípio que a socialização tem de ser obrigatoriamente feita no meio da respectiva faixa etária, debaixo do modelo escolar que conhecemos.

Acredito numa socialização com pares, mas acredito numa aprendizagem feita no meio da vida real. Nas compras, nos transportes, com vizinhos mais velhos. Preparando para a vida. Isto só se faz com tempo. Não escondemos a realidade nem queremos criar crianças totós. Mas podemos ser nós a participar dessa realidade? Acho que podemos (e devemos).

CONTEÚDOS DE APRENDIZAGEM
Se nos compararmos com países como o Brasil (*), em que o ensino doméstico é ilegal, temos a liberdade de em Portugal optar por esta via. Mas se nos compararmos com os Estados Unidos, não temos liberdade nenhuma. Então como funciona o ensino doméstico em Portugal? A criança fica à guarda de um tutor (pode ser pai ou mãe ou qualquer adulto que tenha mais do que um ciclo de ensino do que aquele que está a leccionar à criança) e, no final de cada ciclo de ensino (4º, 6º, 9º e 12º ano) a criança tem de obrigatoriamente comparecer no Agrupamento de Escolas da área da residência para prestar provas de equivalência à frequência de todas as disciplinas que o Estado determinou que são as exigidas para aquele ciclo de ensino. Em 4 anos neste modelo, 3 deles tivemos de comparecer para exames. A Maria, mais velha, já compareceu no 4º e 6º ano, a semana passada foi a estreia da nossa Marta, para o 4º ano.

Nesta parte, pretendo fazer um parêntesis bastante necessário. Vivemos em Oeiras e temos uma relação com o Agrupamento de Escolas muito boa. Nunca fomos tratados com estranheza, sempre fomos bem recebidos (primeiro, porque quando optámos por esta decisão, a explicámos presencialmente aos responsáveis do Agrupamento; em segundo, porque as notas se têm verificado bastante boas, o que ajuda a perceber que alguma coisa está a correr bem).

Mas chamam a isto liberdade. Os pais podem optar pelo ensino doméstico desde que o Estado se certifique que estão a ensinar aquilo que eles determinaram que tinham de ensinar. Isto não é bem liberdade.

MODELO ESCOLAR
Cá em casa, sonhamos com uma escola cristã evangélica. Estamos inseridos num modelo escolar com outras famílias, que se têm mobilizado para fazer acontecer algo de concreto. Já estivemos mais longe de isso acontecer mesmo, e estamos certos que Deus querendo, irá surgir no tempo certo. Temos três filhos neste modelo, isto porque a "escola" ainda não é sustentável e só pode assegurar a faixa etária 1º - 6º ano. A nossa mais velha vai para o segundo ano fora disto. Está em casa, num modelo de homeschooling mais tradicional.  

Esta é outra questão que nos fazem muito frequentemente e inclui: "Então e tens capacidade de ensinar tudo o que ela precisa aprender no 7º ano?". Basta pesquisar um pouco pela internet fora (ou falar com quem pratica modelos opcionais) e vemos que a autonomia é a chave para a aprendizagem em ensino doméstico.  Ensinar a criança a pensar e a calcular, e ela está pronta para desbravar caminho. A Maria vai para o 8º ano e eu não estou sentada ao lado dela todos os dias. Ela tem um plano de trabalho, que avança em papel ou virtualmente, e vai testando conhecimentos. Se acho que se tem de aprender imensa coisa desnecessária? Acho. Sonho com o dia em que poderemos optar um currículo alargado e flexível, em que decorar as fases de formação das rochas não seja encarado como um conteúdo essencial à sobrevivência da humanidade.

A RESPONSABILIDADE DOS PAIS
Esta é a parte mais sensível, mas não a vou saltar. Optar por este modelo dá uma grande trabalheira, uma enorme despesa, uma preocupação constante. Não optamos por esta via por causa dos resultados (a nossa maior preocupação enquanto pais é a salvação dos nossos filhos e isso não está nas nossas mãos). Não optamos por esta via porque é garantia de adultos cristãos felizes e responsáveis, embora o desejemos. Optamos por este modelo porque sentimos que podíamos fazer diferente e que não tínhamos de nos render ao modelo comum.

É frequente perguntarem aos nossos miúdos (especialmente quando não estamos) se eles gostam desta escola. Os mais novos nunca conheceram outra e não contestam muito (embora fiquem curiosos com outros modelos). A nossa mais velha sente-se pressionada, não tanto por desprezar este modelo em que ela tem de facto muita liberdade e autonomia, mas porque se sente diferente, e a pressão social é tramada. Ia pedir para pararem de fazer isso, ok? :)

Mas sempre que ela se vem queixar, tentamos trabalhar o lado da segurança e o poder ser diferente. Sem manias, sem arrogâncias, mas poder ser aquilo que quisermos. Temos de fazer todos igual? Não.

Quero, ainda, fazer a ressalva que só optámos por este caminho porque a nossa estrutura familiar permitia. Claro. Ter uma filha a tempo inteiro connosco e ir buscar os três filhos pelas 15h todos os dias, não está ao alcance de quem faz um horário de trabalho normal. Eu sei disso. Mas não vou dizer que esta opção não é muito esforçada, porque é. Era tão mais fácil quando tínhamos uma escola nas nossas traseiras e onde podíamos deixar os miúdos até tarde, se quiséssemos.

Acredito que há muitos caminhos, mas não vou mentir que este caminho tem sido muito bom para a nossa família. Somos agradecidos a Deus por ter chegado até aqui. Queremos continuar um caminho de confiança e humildade. Assim Deus nos ajude.


(*) - Tanto quanto me foi informado, até há pouco tempo o ensino doméstico era ilegal no Brasil, mas foi aprovada uma lei que faz com que exista um vazio legal nesta matéria. Contudo, é um país onde este assunto ainda não é claro. 

22 fevereiro 2017

De outros Fevereiros


Há dez anos, estávamos quase a mudar de casa. Tinha duas bebés (uma de 2 anos e outra de 3 meses). Os dias eram passados a desejar que a mais nova não precisasse de ginástica respiratória (mas precisava quase diariamente), e a pensar no que seria o meu futuro em breve, sem perspectiva de escola para as duas e uma empresa em mudança. Havia, algures, uma ideia de uma igreja a começar, mas nada de concreto acerca do que isso seria na nossa vida. Tinha umas amigas, também na mesma fase de maternidade, com quem almoçava religiosamente uma vez por semana.

Às vezes gostava de perguntar a essa pessoa aí da fotografia o que ela pensava estar a fazer daí por 10 anos. O que gostaria de manter e o que não gostaria. É que não faço a mínima ideia. Estava a dias de fazer 30 anos e, sabia, apenas que a vida ia acontecer. Algures na minha imaturidade, não me demorava em muitos sonhos ou projectos. Talvez tenha sido bom. Não sei. Nada do pouco que imaginei foi o que Deus trouxe. Ainda estou a aprender, e quase sempre com muitos encontrões e esforço, que não sou eu que sei o que é bom para mim. É Deus. Ele está a cuidar de nós, mesmo quando nem sempre estamos tão atentos, e mesmo quando estamos em vigilância.

Dias depois engravidava do Joaquim. Adormeci muitas vezes de cansaço nesta posição no sofá, no tempo em que os desenhos animados cumpriam um papel de sobrevivência nesta casa. Adormecia encostada, adormecia na carpete, adormecia.

Hoje adormeço de outras formas (já é seguro deitar-me sem estar por perto da miudagem). Quero adormecer sempre com a segurança de que Deus está a cuidar. Adormecer cansada e acordar com forças. Deus trata de tudo em todo o tempo.

"Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno." - Hebreus 4:16

22 janeiro 2017

Tudo para ti, Senhor Deus!

 - Foto de Vera Marmelo -

Há 5 anos, também era domingo. Acontecia uma cerimónia de formalização daquilo que já era o caminho da nossa família por mais de 5 anos. A cave em S. Domingos de Benfica tornava-se oficialmente uma Igreja, e o Pastor era assim reconhecido e consagrado em público.
Esta foto representa muito bem aquilo que Deus tem feito na nossa caminhada. Este dia tinha sido para lá de cansativo, mas também muito feliz. Nuns rostos vê-se ainda a alegria, nos outros já só resta o cansaço.

Deus tem sido fiel e misericordioso connosco. Quando penso na minha família e nesta vida que Deus nos deu a viver, às vezes fica fácil cair na tentação de pensar apenas naquilo que sacrificamos por causa do que acreditamos. É uma conversa recorrente aqui em casa: Amar a Deus é isso mesmo (e qualquer sacrifício é muito pouco, pensando na perseguição pelo mundo e no que Jesus fez por nós).

Penso muito para comigo no que gostava de ouvir os meus filhos dizerem acerca de nós, mais tarde. A minha oração é que eles possam dizer: "Os nossos pais não fizeram tudo certo. Foram, até, injustos muitas vezes. Nunca duvidámos que nos amavam. Mas mais do que isso, eles amavam a Deus acima de qualquer outra coisa, e o que faziam era apenas e só para o agradar."


É para isto que eu vivo: para a glória de Deus.

É tudo para ti, Senhor. Usa-me para o teu serviço e agrada-te dele!

16 março 2016

Não há nada tão tóxico como a comparação


Não há nada que nos derrube mais do que a comparação.

Não a queremos fazer, mas fazemos. E quando nascem os filhos é que são elas. Começamos pelas parecenças físicas e depois encaminhamo-nos para encontrar explicações de todos os tipos de defeitos e qualidades. Se não é ao pai que sai naquele defeito, será certamente à mãe, ou ao avô, à avó, ao tio e à tia.

Damos connosco a querer encontrar tantas vezes explicações, maravilhados que ficamos com talentos deles: "Mas de onde vem isto?" e a suavizar aquilo com que não sabemos lidar com um: "Mas o pai quando era novo também era assim". Crescemos a tentar encontrar um legado genético que nos explique enquanto pessoas, e a estar destinados a ser igual a este ou aquele; ou até pode ser que não, que as oportunidades hoje são outras.

As comparações, justificações e outras coisas acabadas em "ões" só servem para teorizar e esquecer que Deus tem um plano para cada um. Um plano que vai muito além da carga genética, da educação, das circunstâncias sociais, dos traumas. E não há nada mais libertador do que isto. Não sermos escravos dos genes ou do ambiente.

A comparação de nada serve. Na verdade, só destrói.

25 janeiro 2016

Melhorzinha.


Tenho uma doença crónica - ler isto com ironia - que consiste em dar muitas justificações, até demais, acerca de tudo e mais alguma coisa. É uma doença porque, em primeiro lugar, não precisamos dar justificações a quem não precisamos que nos entenda (quem precisamos que nos entenda raramente precisa de muitas explicações) e em segundo, porque a base das justificações é querermos que os outros nos percebam, concordem até connosco e não nos avaliem mal. Isso nunca vai acontecer na totalidade e nunca teremos os nossos índices de aceitação intactos.

Mas isto para dizer que Deus me anda a ajudar, neste exercício de não me desdobrar em argumentos e aceitar com maior tranquilidade a possibilidade de nem sempre ficar bem nos retratos.

"Então não dá para...?" Resposta: "Não, lamento."

Fim.



05 novembro 2015

Tem mesmo de ser?



É comum a conversa do "tem de ser". Chegámos a uma era em que nos debatemos por tantos direitos, mas depois resignamo-nos com a maior das inevitabilidades a estas três palavrinhas. Tudo porque "o patrão assim deseja", porque "todos fazem", porque "são os tempos modernos", porque "não temos alternativa".

Achamos que conquistámos uma grande liberdade em relação ao século passado, mas vivemos determinados pelo que os outros decidem e nos impõem. E não falo de questões essenciais à sobrevivência ou à saúde. Falo de questões e princípios. Parece que os tempos modernos não se compadecem. Pois não, não se compadecem. Mas temos mesmo de nos conformar?

É que esta semana estudava um salmo particularmente difícil (137) sobre o povo de Israel, exilado na Babilónia. Há gerações que só viam guerra e destruição. Questionavam-se se alguma vez veriam de novo a sua terra, e se alguma vez celebrariam o sábado em paz ao redor de uma mesa. Os seus inimigos queriam fazê-los cantar as suas músicas em terra estranha, porque isso era de uma enorme humilhação, e o que é que eles fizeram? Recusaram-se. Pousaram as harpas e recusaram-se a cantar. Podiam ter cantado, encolhido os ombros com um: "teve de ser, fomos obrigados". Este salmo humilha-me. Trata de não nos conformarmos com tudo o que o mundo nos impõe. Tantas vezes digo que "tem de ser" quando não tem que ser nada. Tem que ser se eu quiser. Se Deus quiser.

09 abril 2015

A beleza tem muitas formas.



Todos sabemos ou queremos concordar. Mas chateiam-me um bocadinho estas campanhas da beleza real, com corpos semi-nus, com ar de felicidade, a comprovar que a beleza está em todas as pessoas. Nada contra o conceito, tudo contra a forma de o demonstrar. Banalizámos a forma como nos apresentamos, supostamente libertámos mentalidades (que liberdade é esta, em que as mulheres têm que se despir para provar o seu valor?), vivemos numa escravidão que não tem fim. A beleza está em todo o lugar, a começar por quem se recusa a partilhar o que é bom, óptimo e saboroso com os olhos do mundo inteiro. Parem lá com isso, por favor.

02 fevereiro 2015

Escolhas


Uma coisa que falamos cá em casa, e que tem vindo a crescer em intensidade, é acerca da forma como transmitimos aos miúdos as escolhas e a forma como nos divertimos em função disso . Ainda a respeito de coisas que não fazemos ou não deixamos fazer por convicção, talvez o que possa ganhar melhor o coração deles seja que aquilo que fazemos pese mais do que aquilo que não fazemos.

Quando escolhemos que os nossos filhos não vão fazer, ver ou participar em algumas coisas - e quando a maioria à nossa volta não tem problemas nenhuns com fazer o contrário - ficamos tristes por eles se sentirem de parte. Eu experimentei isso na pele: Portugal inteiro viu o Roque Santeiro menos a casa dos meus pais. Acontece que ainda hoje tenho um profundo desprezo por telenovelas. Poderia ter-se dado o oposto e eu hoje ser uma espectadora compulsiva. Pois podia. Mas a verdade é que acredito que nenhum princípio que consideramos fundamental para os nossos filhos deve ser quebrado porque mais tarde existe a possibilidade de eles escolherem o oposto (ou de até o tentarem fazer às escondidas no presente). O que consideramos como prejudicial no presente não é menos prejudicial se no futuro eles gostarem. Isso será uma decisão deles.

Então, voltando ao conceito de diversão: talvez o que tenha de crescer mais e mais não é aquilo que nos demarca pela negativa mas o que nos demarca pela positiva. Fazermos coisas que nós próprios inventamos. Criar tradições. Usar o tempo cada vez menos para entretenimento e cada vez mais para saber estar. Ainda ontem na Igreja, o Henrique Raposo falava da forma como esta nova geração é a da imagem, dos ipads e das tecnologias e cada vez menos dos livros e do silêncio. Ensinar o valor de saber aguardar por uma consulta a ler ou a simplesmente contemplar o que nos rodeia é o desafio dos nossos tempos. E para isso, é urgente que nós os adultos demos o exemplo. Assim Deus nos ajude.

Salmos 121 na ponta da língua

. A escola começou e o vagar no sofá não é o mesmo. Mas seja a crochetar, a lavar a loiça, a tomar banho, a conduzir, há sempre oportuni...