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12 julho 2019

Há 14 anos

era internada no hospital para fazer aquilo que se chama de curetagem.

Há 10 dias que eu sabia que o bebé que esperávamos para Fevereiro de 2006, afinal não ia nascer. Nem sequer ia crescer, já que na segunda ecografia, com 11 semanas, não encontrámos lá bebé nenhum. A placenta crescia sozinha, sem vestígios do embrião. De nada adiantava dizerem-me que não existia bebé nenhum, porque eu bem o tinha visto umas semanas antes, no ecrã ecográfico. Na minha cabeça, alberguei um segundo filho durante quase dois meses, e desfazer-me dessa ideia ia para lá da dor física de expulsar restos placentares. Poucos dias depois, partíamos de férias. Uma família de três, com uma pequenina a caminhar tropegamente.

Estávamos muito longe de imaginar - nem mesmo nos nossos melhores sonhos - tudo aquilo que Deus tinha ainda guardado para nós. Também estava longe de perceber o que este episódio me trouxe. Entre outras coisas, uma empatia especial com aquelas mulheres que perdem bebés ou que simplesmente não os conseguem gerar. Nada como experimentar uma ponta de sofrimento para ganhar compaixão.


18 janeiro 2019

Desafio dos 10 anos


Anda por aí um desafio dos 10 anos, que desconfio que sirva para todos nos dizerem como éramos mais novos mas também para nos assegurar que o nosso processo de envelhecimento está a ser generoso. Vou poupar-me a isso, fico à espera dos vossos comentários para quando eu estiver mesmo ali na decadência total e começar a pensar em botox (estou a brincar!).

Resolvi ir ver o que se passava com a minha pessoa há uma década, e ora me dá vontade de rir, ora me apetece mandar-me calar. Bolas, que chata.

Basicamente, no início de 2009 eu tentava encontrar um equilíbrio entre ter três filhos abaixo dos 4 anos, que ora iam à escola porque eu tinha um trabalho permanente ao computador que era essencial ao nosso rendimento, ora estavam doentes com mil e uma coisas. Nesta fase, a rainha das doenças era mesmo a Marta, e era raríssimo estar sem a companhia dela em casa.

Há 10 anos, eu precisava muito de encontrar alguém nas mesmas circunstâncias que eu, e isso vê-se nas minhas maravilhosas declarações no Facebook, ou neste blogue. Exorcizar o meu desespero era parte da terapia e acho que teve o seu papel. Mas... prometo que não voltarei a esse nível. Se começar a descarrilar, por favor dêem-me uma paulada na cabeça e o assunto fica encerrado.

Ao mesmo tempo, vejo ali uma pessoa cansada, mas ainda assim com energia. Eu queria mesmo sair à rua com três crianças, só porque não aguentava mais estar em casa? Eu trabalhava no computador a todas as horas e mais algumas, inclusive ao serão de sexta-feira? No final desse ano, não contente com o caos desta casa, engravidei mesmo do quarto filho?

Efectivamente, passaram-se 10 anos. Os meus níveis de energia estão mesmo nos 40 (desculpem, pessoas super jovens e cheias de energia com a mesma idade que eu), não me passa pela cabeça ter o computador ligado ao serão de uma sexta-feira, estar em casa sem ter um plano é coisa que hoje me agrada sobremaneira, embora passeios sem destino também me soem bem, e uma boa notícia: os miúdos raramente estão doentes. De tal maneira que tive de usar o termómetro a semana passada com a nossa gata, e ele não reagia por falta de uso.

Dez anos depois, ainda não comprei o papel para a polaroid que a Miriam me deu. Prometo que compro nos próximos dez anos, ok? Uma década depois, acho que há lugar para tudo mas sobretudo para a gratidão. Deus foi bom nesses tempos e deu-nos tudo o que precisávamos e até mais. Tem feito crescer os miúdos de forma saudável, harmoniosa, e tem-nos ajudado enquanto pais. Hoje, o trabalho ao computador deixou de ser essencial para os dias. Quase tudo o que faço é voluntário, e escrevo para abençoar outros, sobretudo. Sirvo com o Tiago na Igreja que Deus nos deu, e quero ter a capacidade de olhar sempre para trás e identificar quem se possa estar a sentir sozinho nas suas dificuldades. Ter alegria, independentemente das circunstâncias, continua a ser um desafio, mas não vamos desistir.

2009 parece que foi ontem, mas não parece nada que foi ontem. É sempre assim, certo?

16 agosto 2018

Voltar a onde fomos felizes

Rua S. João da Mata, Santos-o-Velho, Lisboa. Dá para perceber porque amo tanto casas antigas?







11 julho 2017

Recordações

É uma recordação com quase 30 anos, das férias em Cabanas. A praia sempre teve muitas conchas e pedras, e muitas dunas com plantas. Parte do dia era dedicado a encontrar as conchas mais bonitas, as pedras mais lisinhas para depois trazer e inventar planos com elas. Fiz molduras, postais, arranjos para velas. É preciso passar a tradição para os mais novos.





27 abril 2017

Saudade, Silêncio e Simplicidade.

Sou uma pessoa de datas. Ficam-me na cabeça e é difícil passar algumas datas sem me recordar o que a elas se ligam. Às vezes os números ficam-me a martelar na memória e demoro algum tempo a relacionar factos, mas chego lá. Outras vezes não resisto e digo-o em voz alta, mas na sua maioria sinto-me ridícula por ocupar a base de dados da minha cabeça com coisas que já lá vão, porque umas não são assim tão importantes como outras.

Abril será sempre um mês de saudade e serve para relembrar do que já lá vai e de como passa. A avó que tive até à idade adulta era uma pessoa não me convém esquecer, não apenas porque era minha avó e do meu sangue mas porque me relembra de simplicidade e silêncio. Simplicidade e silêncio, duas coisas tão raras e urgentes nestes dias. Silêncio. Simplicidade.
Simplicidade. Silêncio.

Ficam o aparador e os pratos, relembrando outros dias em Santos-o-Velho, com o som do eléctrico a passar, os cortinados a esvoaçar, a varanda minúscula, o mosaico hidráulico, os quartos interiores, a despensa escura.

22 fevereiro 2017

De outros Fevereiros


Há dez anos, estávamos quase a mudar de casa. Tinha duas bebés (uma de 2 anos e outra de 3 meses). Os dias eram passados a desejar que a mais nova não precisasse de ginástica respiratória (mas precisava quase diariamente), e a pensar no que seria o meu futuro em breve, sem perspectiva de escola para as duas e uma empresa em mudança. Havia, algures, uma ideia de uma igreja a começar, mas nada de concreto acerca do que isso seria na nossa vida. Tinha umas amigas, também na mesma fase de maternidade, com quem almoçava religiosamente uma vez por semana.

Às vezes gostava de perguntar a essa pessoa aí da fotografia o que ela pensava estar a fazer daí por 10 anos. O que gostaria de manter e o que não gostaria. É que não faço a mínima ideia. Estava a dias de fazer 30 anos e, sabia, apenas que a vida ia acontecer. Algures na minha imaturidade, não me demorava em muitos sonhos ou projectos. Talvez tenha sido bom. Não sei. Nada do pouco que imaginei foi o que Deus trouxe. Ainda estou a aprender, e quase sempre com muitos encontrões e esforço, que não sou eu que sei o que é bom para mim. É Deus. Ele está a cuidar de nós, mesmo quando nem sempre estamos tão atentos, e mesmo quando estamos em vigilância.

Dias depois engravidava do Joaquim. Adormeci muitas vezes de cansaço nesta posição no sofá, no tempo em que os desenhos animados cumpriam um papel de sobrevivência nesta casa. Adormecia encostada, adormecia na carpete, adormecia.

Hoje adormeço de outras formas (já é seguro deitar-me sem estar por perto da miudagem). Quero adormecer sempre com a segurança de que Deus está a cuidar. Adormecer cansada e acordar com forças. Deus trata de tudo em todo o tempo.

"Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno." - Hebreus 4:16

01 fevereiro 2016

Primeira casa.


Não sei como é crescer de outra forma, embora saiba o que é ter muitas dúvidas como se permanece, como se é. O meu percurso nisto da fé não foi linear, e foram muitas as vezes em que desejei não ser a minoria que era de uma seita qualquer, mas que não era bem dos "jeovás" ou dos "mórmones".

Lisboa é a capital de Portugal mas nem por isso teve - durante a minha infância - a maior das tolerâncias à diferença. A memória mais antiga é a de ir para uma sala ao lado quando a minha turma na primária tinha educação moral católica. "Ela é daqueles que só se baptizam quando querem!" - que ousadia, esses protestantes.

Oscilar, na adolescência, entre o descaramento de afirmar o que era a fé, ou a de a ocultar mesmo. Duvidar se este seria sempre o caminho, ou se estaria à altura de lá ficar.

Quis que o hábito - essa coisa tantas vezes relativizada se não for feita de coração - me tivesse feito permanecer, para ao fim de 20 anos no mesmo lugar, mudar. Para fora daí perceber melhor a incapacidade de crescer sem o alimento.

Mais quase 20 anos depois destes, voltar é como visitar a casa dos nossos pais:

já não é nossa, mas é parte de nós.

 - O futuro no passado. Filhos e sobrinhos -

20 novembro 2015

Filhos do meio



2006 e 2007 regressam sempre por estes dias com mais força. Há muita coisa de que já não me lembro com exactidão (e que agradeço ter aqui registo neste blogue e num caderno que é só meu). Quando os filhos nos são entregues, na verdade não acreditamos muito nisto. Achamos que nos pertencem. No meu caso, eles geraram-se dentro de mim, e depois foram sendo arquitectados na minha cabeça. Muitas ideias e certezas que se esbatem com o passar do tempo. Os filhos não são nossos, embora se gerem dentro dos corpos das mães. Eles crescem e vão-se formando, às vezes temos de recuar e constatar que o bebé que nasceu em tão pouco condiz com a criança que hoje cresce.

Começam a aproximar-se do final da primeira década de vida, estes meus gémeos falsos. São os dois tão diferentes, como todos os filhos são. Surpreendem-me todos os dias, tiram-me do sério quase todos os dias. Queremos ajudá-los a crescer, mas percebemos que somos muito pouco do grande cenário que Deus já planeou. São projectos inventados muito antes de alguma vez os sentir na minha barriga. São criação de Deus.

10 novembro 2015

10.Novembro.1999


Vale a pena assinalar o dia em que começámos a namorar. Aqui nesta foto já na nossa primeira casa, nos últimos preparativos e limpezas de obras, antes de casarmos. Acho engraçado a quem se diz "para sempre namorado" ou se refere a "namorar" como algo que deve ser mantido eternamente. Percebo a ideia. Mas a rigor, nunca mais namorei desde que me casei. O namoro é uma coisa, o casamento é outra. E esta última é tão melhor que não tem comparação. Especialmente para pessoas para quem o namoro não se dita pelas mesmas regras do casamento. O meu caso. No namoro, somos apaixonados. Passeamos, saímos, comemos fora, ocupamos o tempo juntos, e parece ser sempre insuficiente. Aborrecemo-nos e depois cada um na sua casa, remói a chatice, e questiona-se acerca da certeza dos sentimentos que tem pelo outro. Se o amor vai sempre chegar, quando já não houver saídas à noite, surpresas e comidas românticas. Uma parvoíce. Na verdade, hoje ponho-me a pensar e o namoro é fixe por poucos meses. Não tem o melhor do casamento, e não tem aquilo porque realmente vale a pena chatearmo-nos.

Tinha uma ideia um bocado parva, quando namorava, de que uma vez comprometida e a casar, nunca mais experimentaria o arrebatamento de me apaixonar por alguém. Viria aí o amor e coisas óptimas, mas que nunca mais viveria esse estado de deslumbramento. Era uma ideia idiota, pensar que Deus não me daria a possibilidade de experimentar isto tudo ampliado, à medida que o tempo passa. À medida que somos fiéis, que nos sacrificamos, que estamos, voltamos sempre a esse primeiro estado, mas mais alicerçado.

De vez em quando eu e o meu marido saímos para passear. Um concerto, um jantar fora, um filme no cinema. Mas não saímos para namorar, porque no fim voltamos juntos para a mesma casa. O lugar onde nos pertencemos e somos família. Muito, muito melhor.

Foi há 16 anos que arranjei este namorado. O meu marido.

14 setembro 2015

Das saudades e dos dias mais frescos


 Com a chegada de Setembro, as praias ao pé de casa começam a esvaziar. Os dias começam por ser instáveis, e há uma luz diferente no ar. Setembro é tão bonito que me chega a comover. Não dá para separar muita coisa. Em Setembro agravam-se algumas saudades. Saudades essas que podem ser despoletadas por coisas tão ridículas como uns azulejos de casa-de-banho em sítio alheio, restos das obras da nossa casa.

As saudades também se fazem por ser tão óbvia a ausência em algumas circunstâncias. Foi também em Setembros passados, esses demasiado próximos, que vi partir duas pessoas muito queridas para mim. Mas também foi em dois Setembros que me foi dada a possibilidade de gerar vida. Dias mágicos, esses.

Houve um tempo em que me sentia a perder coisas quando o Outono chegava. Como se no calor e nos dias bonitos residisse a plena felicidade. Já lá vão. O Outono traz consigo aquela promessa do profeta Isaías: "Seca-se a erva e cai a flor, mas a palavra de Deus permanece para sempre" e por isso estamos bem. Com uma luz bonita no ar, com as folhas que caem, com mais uma manta na cama. As promessas de Deus nunca falham, e isto chega-me para tudo o resto. E para encontrar no Outono cada vez mais beleza, com o passar do tempo.

(fotos tiradas com o telemóvel)

11 setembro 2015

Dizem que neste ar de fuínha há algo da minha filha Maria.

- Agosto 1992 -

30 julho 2015

Campo Caravela


Voltei lá. Não dei logo com a estrada para o canal. Afinal, o último ano em que lá estive foi em 90. Fechou portas pouco depois. Quando cheguei, albergava a esperança de lá poder entrar. Não deu. Muitos arbustos, portão fechado a cadeado, a suspeita de animais por ali, fiquei ao longe a observar um cenário de meter dó.

Fui muito feliz aqui.

As manhãs faziam-se no pinhal, e entre histórias e concursos bíblicos (ah, como eu gostava de competir em destreza bíblica), o final da manhã acabava na praia. A caminhada era feita a cantar, e o regresso era corrido, na recta final: os primeiros a chegar apanhavam a água do duche quente, por causa do sol. Três dos banheiros não tinham tecto, e era com as árvores por cima, caruma a cair, que se tomava banho. Os quartos eram meticulosamente arrumados, para posterior avaliação e concurso, e junto às portas de entrada decorávamos o chão com frases ou versículos bíblicos escritos com pinhas e pedras. Depois do almoço, o bar abria, com a sua janela a fazer de alpendre. Os chocolates eram alinhados, e o meu preferido era o "Coma com pão". As tardes tinham desporto e actividades manuais (muito gesso moldei eu). Foi ali que ganhei o gosto por andar de baloiço. As meninas ficavam nas quatro casas do lado esquerdo, os rapazes nas outras quatro do lado direito. A distribuição era feita por idades.

À noite, depois de empilhadas as mesas de refeição, a sala virava ponto de encontro, junto da lareira. Com mesas ao alto, encenavam-se teatros. Noite escura, sem electricidade nas casas, dirigíamo-nos a uma casinha pequena para apanhar os candeeiros acabados de acender. Sentadas no chão do quarto, à luz fraca, trocávamos os últimos pensamentos do dia e orações. Algumas noites tinham caças aos gambuzinos e outras partidas semelhantes. Na última noite, descíamos em direcção à praia, com sacos-cama e cobertores, e lá fazíamos a reunião com o calor da fogueira acabada de acender. Choravam-se lágrimas de despedida, depois de 10 intensos dias no Caravela.

Foi aqui que algumas histórias bíblicas ganharam outra vida. Deus falou comigo neste sítio especial, e por isso não foi só mais um lugar bonito em que tive o privilégio de passar férias. Foi um sítio onde firmei convicções, alicercei amizades, coloquei questões, recebi algumas respostas e cresci. São boas as memórias.




24 fevereiro 2015

De infância em infância.


O que é que estes livros têm em comum? Foram lidos mais do que uma vez na minha infância. Uns já eram da minha mãe, outros são mesmo meus. O papel é amarelado, áspero, e causa-me muitos arrepios. Mas nem isso me impediu de me apaixonar por estas histórias. Todas elas são acerca de pessoas humildes, sem grandes possibilidades de visibilidade no meio onde viviam, mas pessoas cujo Deus usou e marcou vidas. Vidas essas convertidas em livros, e livros esses sem idade. Foram lidos na minha infância, posso lê-los hoje sem me desinteressar e chegou a altura de os passar para os meus filhos. Para que actos heróicos, fantásticos e deslumbrantes lhes falem que nada na vida é acerca de coragem. Mas de fé.

27 janeiro 2015

Holocausto

Em miúda, enquanto lia e relia o Diário de Anne Frank, a par com O Refúgio Secreto, ambos sobre o período do Holocausto, imaginava como teria sido se eu própria tivesse nascido judia naquele tempo. Era comum pensar, até por se dizer que os apelidos com nomes de árvores poderiam ter essa origem.

Hoje, relembrando os 70 anos sobre a libertação de Auschwitz, as pessoas escrevem e perguntam-se como pôde o Holocausto ter acontecido, como pôde o homem fazer tanto mal a um seu semelhante. Foi horrível! Enquanto cristã, claro que ainda fico chocada com o que se fez em Auschwitz.  Mas ainda na semana passada via um documentário sobre o terror que o Boko Haram espalha pela Nigéria. Ou pela forma como mulheres cristãs são violadas, torturadas e mortas pela Argélia. Na Coreia do Norte, ter-se uma Bíblia implica ir para um campo de trabalhos forçados e ser missionário é sinónimo de escolher tortura e execução pública. 

O ser humano pôde fazer o que fez em Auschwitz, pela mesma razão que meninas que hoje desejam estudar são mortas na Nigéria, ou que cristãos que se assumam na Síria são executados: porque o homem sem Deus, entregue à sua ganância, sede de poder e ódio, é capaz de fazer o pior que poderemos imaginar. Por isso hoje, adulta, já não penso muito se terei origens judias. Penso antes que sem Deus não seria nada.

10 dezembro 2014

Lisboa à noite

Gosto muito do Saldanha. O meu avô teve uma loja na Defensores de Chaves várias décadas, e foi no cafézinho em frente- uma mistura de leitaria com padaria - que me tornei especialista em fazer desaparecer garrafinhas de leite Ucal, sempre à temperatura ambiente ou mesmo fresquinho.

Por isso, passear aqui - seja de dia, seja de noite - nunca me custa. Pelo contrário, é um grande prazer.








04 dezembro 2014

Xadrez e amor.

Agora é a filha mais velha que está adoentada. Esteve um dia inteiro no sofá, entre leituras e sestas. Mais nada. Tossia, acordava e dormia. Depois lia e voltava a dormir. Lembrava-me de como era estranhamente bom ficar doente em criança, o dormir sem horário, faltar à escola e comer o que apetecia. Ou da manta com xadrez igual à deste meu pijama. Deve ser por isso que gosto de xadrez há tanto tempo. Desde a época que ficar doente era conveniente.

13 novembro 2014

Memória.

Às vezes basta uma foto. Um cheiro. Um nome. Um sítio. É fogo em gasolina.


Hoje foi aquele anúncio da Mango com uma camisola com torcidos precisamente como esta que aqui tinha. 1990. Delfim Santos no meio dos montes, que se atravessavam para chegar à aula de natação no Benfica. A primeira vez que saí na estação de metro das Laranjeiras e chegar à Estrada da Luz em menos de nada. Escobar, o nome que o J. me colocou - e que foi o meu primeiro endereço de mail, mais tarde - por ser uma realizadora das novelas que eu não via. A Guerra do Golfo com o Bollycao no intervalo grande, e o dossier que forrei a autocolantes "Tou". A minha miopia a aumentar de 5 para 7 dioptrias e os óculos redondos e castanhos iguais aos do Rui Veloso, que veria nesse Verão em Porto Covo ("Roendo uma laranja na falésia..."). As minhas primeiras - e únicas - calças de ganga Mustang. Chumaços nas camisolas. "O teu amor aos céus se estende" completamente na berra. Os panados com limão ali à saída de metro em Arroios. Bryan Adams em Alvalade. Espera. Isso já foi em 91.



17 setembro 2014

Socialização



"Temos tendência a esquecer de que não há nada de sacrossanto em aprender em grandes salas de aula, e de que organizamos os alunos deste modo não porque é a melhor forma mas porque é a mais económica, e que faríamos nós com as crianças enquanto os mais velhos vão trabalhar? (...) O propósito da escola deveria ser o de preparar os miúdos para o resto das suas vidas, mas muitas das vezes o que os miúdos precisam ser preparados é sobreviver ao próprio dia de escola."
- Susan Cain, em "Quiet" 


Este excerto deste texto foi uma lufada de ar fresco para o que senti toda a vida no meu percurso escolar. Sempre detestei trabalhos de grupo. A ideia de termos de combinar encontros, irmos para as casas uns dos outros e chegar a um acordo sobre o que iríamos trabalhar, deixava-me em ansiedade. Além de que todos saberão que isso do trabalho de grupo é uma ideia inclusiva muito bonita mas o que acontece, na verdade? Há sempre alguém que trabalha mais. Pois.

Creio que hoje a própria ideia de socialização gira toda em torno de grandes massas. Como se para adquirirmos os hábitos e convivências necessários à cultura onde nos inserimos fosse urgente, desde cedo, convivermos no meio da multidão. A ideia de que um bebé tem de perceber rapidamente que não é só ele que existe no planeta passar por ter de entrar cedo no modelo escolar que nos foi imposto, por exemplo. O contacto com a diversidade não envolve necessariamente grandes números, acho.

Pode parecer um exagero para quem nunca teve estes combates interiores, mas sabem o que é saber fazer um exercício, mas a simples pergunta: "Quem quer vir ao quadro?" ser um obstáculo imenso? Não foram os anos que passei em turmas de 30 alunos que me ajudaram a ser diferente. Aliás, eu não tinha que ser diferente. Ter pudor em estar à frente de dezenas de caras não é um problema a ser combatido. Chama-se timidez.


11 setembro 2014

9/11



Estivemos duas vezes em Nova Iorque. Antes e depois do 11 de Setembro. Além do cheiro doce das ruas, o conforto de nos sentirmos seguros num meio de uma imensa e tão diversa multidão que circula por todo o lado, da hospitalidade da família Jordão e dos doces da Jordan's Bakery, também tenho muitas saudades das caminhadas intermináveis e de tudo em formato XL. Ah, Nova Iorque!




Salmos 121 na ponta da língua

. A escola começou e o vagar no sofá não é o mesmo. Mas seja a crochetar, a lavar a loiça, a tomar banho, a conduzir, há sempre oportuni...