31 outubro 2018

Dia da Reforma Protestante

"Minha querida Katy mantém-me jovem e em boa forma também. Sem ela eu ficaria totalmente perdido. Ela aceita bem as minhas viagens e, quando volto, está sempre à minha espera. Cuida de mim nas depressões. Suporta os meus acessos de cólera. Ela ajuda-me no trabalho e, acima de tudo ama a Jesus. Depois de Jesus, ela é o melhor presente que Deus me deu em toda a vida. Se um dia escreverem a história da Reforma da Igreja espero que o nome dela apareça junto ao meu e oro por isso."
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Martinho Lutero

11 outubro 2018

Sobre Ensino doméstico


 Reportagem de Maria João Caetano publicada no DN a 17. Set. 2018


Evan tem 8 anos e durante o mês de agosto leu oito livros "gordos", como conta na página de Facebook que criou para falar dos seus livros preferidos. É fascinado com tudo o que tenha que ver com a natureza, sabe coisas extraordinárias sobre animais e plantas e no futuro sonha ser cientista. Evan não anda na escola. É uma das mais de 600 crianças que "frequentam" o ensino doméstico em Portugal e que, por isso, esta noite vai dormir descansado, sem se preocupar com a escola, e amanhã acordará sem despertador e poderá passar o dia descalço, entre os seus livros e as brincadeiras com os irmãos.
Evan andou na creche por pouco tempo quando tinha 3 anos. "Ele ficava triste e muitas vezes choramingava. Eu ficava com o coração apertado", lembra a mãe, Anastasia. Não precisou de muito mais para tomar a decisão de ficar em casa com os filhos e ser responsável pelo seu ensino. "No início os dias pareciam enormes, não sabia o que fazer com eles e achava que tinha de estar sempre a fazer alguma coisa. Mas isso não é verdade. Não temos de estar sempre a fazer coisas e não temos de fazer tudo com eles. Temos de deixá-los explorar a imaginação. E depois eles crescem e tornam-se cada vez mais autónomos."
Cinco anos depois, Anastasia e Pedro não poderiam estar mais felizes e convictos de que tomaram a decisão certa. O filho do meio, Tristan, tem 5 anos e já leu todos os livros de Harry Potter. Aprendeu a ler sozinho quando ainda não tinha 3 anos, mas a sua verdadeira paixão é a matemática. Evan e Tristan não sabem o que são metas curriculares e nunca fizeram um teste mas sabem fazer pão, falam e leem em português (a língua do pai), russo (a língua da mãe) e inglês, jogam xadrez melhor do que muitos adultos. O irmão maispequeno, Artur, tem 2 anos e para já parece mais interessado em brincar e pintar.
"O mais importante é que aprendam a pensar", diz Pedro, que é gestor e é o único na casa que tem horários a cumprir. "Queria que eles não perdessem a curiosidade", acrescenta Anastasia. "Todas as crianças são curiosas, é uma coisa natural. Nós não temos de fazer nada. É só estar com eles e responder quando nos fazem perguntas. E se não sabemos, procuramos. E ensinamo-los a procurar as respostas." A palavra ensinar não se aplica aqui. As aprendizagens são feitas à medida dos interesses e das curiosidades de cada um. Com muitos livros (mas não manuais escolares), viagens, brincadeiras, conversas e experiências - essa é a base de tudo. Depois ainda há as atividades "geralmente chamadas extracurriculares", como a música, as artes marciais, os escuteiros. "E dois dias por semana temos encontros com outras famílias do ensino doméstico. O nosso recorde é oito horas a brincar no parque!"


Nem todas as famílias que optam pelo ensino doméstico tomam uma opção tão radical quanto Anastasia e Pedro. A poucos dias do início do ano letivo, Maria, Marta, Joaquim e Caleb sentam-se em volta da mesa da sala a apagar os manuais que vão ser reutilizados enquanto ouvem música. Todos eles sabem qual o ano que vão frequentar e em cada ano fazem um planeamento daquilo que vão estudar e de como vão trabalhar. Também nesta família a filha mais velha, Maria, que tem 14 anos, chegou a frequentar brevemente o ensino regular até, em 2013, os pais, Ana Rute e Tiago Oliveira Cavaco, optarem pelo ensino doméstico. "Ao início é um pouco assustador", conta a mãe. "Estivemos quase dois anos a decidir. Falámos com muitas pessoas. Ao nosso redor toda a gente faz de uma determinada maneira e ou nós tínhamos muita firmeza naquilo que íamos fazer ou não ia dar. Definimos aquilo que não queríamos fazer e aquilo de que gostávamos e decidimos arriscar." Todos os anos, a família faz uma avaliação e decide se vale a pena continuar. "Para nós não é um caminho de sentido único."
Na altura, a decisão foi impulsionada pelo facto de haver outras famílias amigas que também queriam uma escola diferente. Juntos, criaram um pequeno centro de ensino doméstico onde cada pai é responsável por uma área diferente. Neste momento, o projeto tem seis famílias e menos de 20 anos alunos do 1.º ao 6.º ano. Unem-nos os valores cristãos e a ideia de que a escola não é tanto o sítio onde se vai "receber" conhecimentos mas antes uma comunidade onde se treina o pensamento. "Não é aquela ideia clássica da pessoa mais velha que está a ensinar a mais nova. À exceção da alfabetização e daqueles conceitos básicos que são feitos com a ajuda de um adulto, numa fase muito precoce da vida começa-se o treino para a autonomia e para saber buscar o conhecimento a qualquer lado. Treinar para pensar é o mais importante."
"Não sou contra o sistema, mas havia algumas coisas que nós sentíamos que amputavam as crianças. As pessoas têm a ideia de que quem opta pelo ensino doméstico quer proteger os filhos. Mas, na verdade, nós queremos é ter uma visão maior", explica Ana Rute. A "frequentar" o 9.º ano, a Maria está pelo terceiro ano em casa e estuda sozinha, com a ajuda dos manuais e da Escola Virtual. Organiza o seu tempo e o seu trabalho. Sem dramas. Quando tem dificuldades fala com os pais ou com outros adultos. As aulas de espanhol, por exemplo, são dadas por Skype por uma amiga da família.
"Não sou contra o sistema, mas havia algumas coisas que nós sentíamos que amputavam as crianças"
"As pessoas que não sabem muito sobre homeschooling acham que não vão conseguir porque não têm o domínio das matérias todas. Mas nós não temos de fazer tudo", explica Anastasia. "Só temos de saber como procurar e ajudá-los a procurar a informação. E depois contamos com a ajuda da família, dos amigos, da comunidade." As crianças não passam o dia fechadas em casa, isoladas. Têm irmãos e amigos, participam na vida da família. "Nós vivemos no mundo real e temos muitas pessoas à nossa volta. Existe o mito de que asocialização dos miúdos tem de ser feita com os pares, com os da mesma idade", diz Ana Rute. "Mas a socialização pode ser feita de muitas maneiras."A liberdade dos alunos em ensino doméstico termina no final de cada ciclo, quando têm de fazer exames em todas as disciplinas e cumprir metas curriculares iguais às dos alunos do ensino regular. Na família de Ana Rute e de Tiago esses momentos têm sido vividos com tranquilidade e boas notas. "Não os pressionamos e até costumamos tirar férias nas semanas antes dos exames", diz a mãe. "Mais importante do que as notas é a atitude deles, queremos que sejam responsáveis e confiantes."
Anastasia ainda não passou por esse processo mas, para já, não está preocupada. "Uns meses antes teremos de ler os manuais e estudar um pouco, sobretudo para eles se sentirem mais confortáveis com a linguagem dos exames. Mas eu sei que eles sabem muitas coisas. Nos exames, eles têm de decorar a matéria toda e responder sozinhos. Mas a vida não é assim. Na vida, temos recursos que podemos usar e trabalhamos em equipa, cada pessoa tem as suas competências. Por isso, em vez de prepará-los numa matéria, quero prepará-los para pensar, para trabalhar com outras pessoas, para comunicar. Dar-lhes ferramentas. Isso é o mais importante."

Artigo originalmente publicado aqui.

09 outubro 2018

Uma coisa chamada Vitiligo



 
É rara a semana que não recebo mensagens de pessoas que têm, como eu, vitiligo. Querem saber como se desenvolveu, se já experimentei tratamentos, como lido com esta particularidade de ter a pele às manchas. O Verão está a chegar ao fim, e é neste período do ano que a coisa é mais sensível. Ainda estou no rescaldo de estar mais exposta, tanto ao sol, como a perguntas inocentes de quem não sabe o que isto é - perguntas inocentes, mas muito incómodas de responder. Este é o lado chato de alguém viver com uma diferença: lidar com as reacções dos outros.

Tinha 7 anos quando me apareceram umas manchas pequenas nos joelhos e a minha mãe me levou ao dermatologista. Foi logo identificado como sendo vitiligo e quais os cuidados a ter com o sol. O assunto cingiu-se a isso: cuidados com o sol.  Tive uma experiência muito privilegiada com estas manchas. Apesar de muito morena, tive sempre uma pele isenta de borbulhas e de pelos - um paraíso para uma miúda adolescente, convenhamos. As manchas nunca me incomodaram, e a verdade é que em todo o percurso escolar tive apenas e só um pequeno episódio com um miúdo, que ainda hoje me dá vontade de rir, de tão ridículo que foi.

Quando casei, com 25 anos, além das manchas nos joelhos e pés,  tinha também umas novas, no canto da boca e nas mãos. Raramente me lembrava delas, a não ser quando me perguntavam.
Aos 30, engravidei do terceiro filho. Coincidência ou não, foi-me diagnosticada uma colestase, e com ela, manchas novas que surgiram. Com a quarta gravidez, igual. Hoje tenho 41 anos e uma grande parte do corpo branquinha, além de estar completamente grisalha. É impossível não dar nas vistas, sobretudo no Verão.

Sobre as perguntas que me fazem:

Alguma vez procuraste tratamento?

Não. Apesar de ser muito limitador com o sol, fico-me por aí. Do pouco que sei do assunto, há tratamentos experimentais, pesados para a carteira, e dos quais não há garantia de resultados nem certezas de efeitos secundários posteriores. Pareceu-me sempre que não valia a pena aborrecer-me, antes contar com os cuidados a ter. Sendo uma doença auto-imune há associações com outras doenças, e essas sim: poderão ser preocupantes e exigirem tratamento.

Como lidas com os olhares dos outros?

Tem dias. De uma forma geral, faço como no Madagáscar ("é sorrir e acenar"); se o cenário é incómodo, basta olhar fixamente para a pessoa perceber. Mas este Verão tive de tudo: uma senhora a tirar fotos à socapa em plena praia, depois de a ouvir comentar que eu não parecia preocupada, pessoas no café a especularem sobre a minha doença, etc. Pode ser divertido ou não. Depende do meu estado de espírito.

Como lidas com as perguntas que te fazem?

Há dois tipos de pessoas: as que têm vitiligo e que sofrem com isso, e me perguntam por soluções, e há as que têm curiosidade e querem saber.


Para as que têm vitiligo, tento oferecer respostas que ajudem, embora eu sei que sou uma privilegiada: nunca sofri socialmente durante o meu crescimento, a minha família nunca valorizou o assunto e isso fez toda a diferença na forma como me olhei ao espelho. Vivemos com os outros e onde estamos e como nos tratam determina muito de como nos vemos. Por isso, não posso ser grande ajuda para aqueles que tiveram mães obcecadas à procura de tratamentos, ou que foram gozados na escola. Só posso lamentar. Mas para o presente, recomendo pedir ajuda terapêutica e - para quem é cristão, como eu - pedir ajuda a Deus. Este é um processo como outros na questão da imagem: precisamos aceitar-nos como somos. Se pensarmos que todos vivemos com as nossas limitações (pessoas com peso a mais a quem a tiróide não se compadece com alimentação saudável e exercício físico, por exemplo) e que há doenças realmente graves sem possibilidade de cura, isso ajuda muito a ver em perspectiva. Copo meio cheio ou copo meio vazio? Prefiro o copo meio cheio.

Para as que têm curiosidade: Haja prudência e bom senso na forma como expressamos as nossas opiniões ou cedemos à nossa curiosidade. Vivemos numa cultura que comenta a aparência dos outros com uma liberdade excessiva. Nós não somos o centro do universo e se passamos a vida a apregoar a tolerância e a aceitação da diferença, comecemos por nos contrariar nos nossos instintos. Já viajei alguma coisa, e acreditam que noutros países onde estive - como nos Estados Unidos - nunca me perguntaram nada acerca das minhas manchas nem me senti olhada com diferença como no meu próprio país? Portugal precisa de crescer um bocadinho (e já agora, o Brasil também, a maior parte das pessoas que me contactam são de lá).


Qual a perspectiva de um cristão?

Quando digo que nunca procurei tratamento, não é porque seja contra. Nunca considerei necessário. Mas acredito que há liberdade para isso, como há liberdade por procurar contornar algo do nosso aspecto físico que nos incomode. Mas acho que há limites, e devemos saber aceitá-los com humildade e confiança.

Eu acredito que Deus me criou. Vivo num mundo caído, e embora todas as limitações tenham que ver com a natureza caída, continuo a acreditar que não há nada - mas nada - que escape ao plano de Deus. Nenhuma criança deficiente é gerada porque Deus se distraiu, nenhuma doença vem sem que isso sirva para Deus cumprir o seu propósito. O sofrimento faz parte da vida, e é com ele que crescemos também. Não o digo em tom fatalista.

Comparar-me com casos realmente graves parece-me pura ingratidão, e por isso tendo sempre a desvalorizar. Para mim, ter vitiligo tem-me ensinado algumas coisas. Uma delas: o facto de ter tido de abdicar de coisas simples como a praia da forma como a fazia ( passei de estar ao sol como me apetecia, para sair da água e vestir uma túnica debaixo do chapéu), ajudou-me a perceber melhor a minha pequenez. Não serei eternamente jovem nem saudável, e isso faz parte. Não controlo tudo o que acontece nem é susposto.

Vivemos em tempos que nos convencemos que a medicina oferece diagnóstico e tratamento para tudo, mas apesar de todas as evoluções, não oferece. Vivemos tempos em que nos convencemos que é possível ter filhos e ficar eternamente iguais, mas são poucos os casos em que isso acontece (e geralmente à custa de abdicar de muita coisa). Vivemos tempos em que idealizamos que os relacionamentos se alimentam de aparência, mas os nossos olhos são muito mais do que aquilo que vêem, e o desejo não depende de forma física - o cuidado que devemos ter vai muito além disso. E poderia continuar.

Que produtos usas?

Aqui há uns anos, descobri que fiquei intolerante ao perfume, portanto tudo o que uso é sem fragrâncias. No dia-a-dia uso uma base na cara que uniformiza a pele e protege do sol. A minha preferida é esta, porque não dá trabalho nenhum pela manhã e protege realmente.



Para o cuidado do corpo, a minha protecção solar preferida é esta, por uma razão simples: não mancha a roupa e é muito eficaz no bloqueio do sol, além de ser um spray transparente que não custa nada a espalhar.



Geralmente pesquiso estes produtos online, e aproveito promoções. Só assim é possível comprá-los, indo a farmácias podem custar quase o dobro.

Por último: recomendo este livro que li o ano passado. Fala de todos os dispositivos que se conhecem que influenciam o aparecimento e o alastramento, possíveis tratamentos, etc. Comprei na Amazon UK.



E acho que é o essencial. Ando há meses para escrever sobre isto. Mas há sempre o risco de receber mensagens de conforto (não é o objectivo deste texto) ou de se sobrevalorizar o assunto. Não é a minha intenção. A ideia é desdramatizar e dizer que a vida continua! Vamos aproveitá-la com o que temos e que Deus nos dá.




08 outubro 2018

2018/2019

O ano lectivo começou há três semanas. Não tem sido fácil arrancar. Gostava de ser daquelas mães desejosas que a escola comece e que o despertador passe a tocar, mas não sou! Gosto muito da liberdade dos dias em que eles estão em casa sempre, mesmo que isso implique estarmos o tempo todo juntos.

Entre manuais guardados, bibliotecas e amigos, conseguimos grande parte dos manuais para este ano e isso foi um encorajamento (pagar 857€ ia ser complicado, mas Deus sabe das nossas necessidades!). O tempo começa a esfriar e não tarda estamos a dar as voltas aos roupeiros e a comer castanhas com mantas no sofá. E isso agrada-me!


Salmos 121 na ponta da língua

. A escola começou e o vagar no sofá não é o mesmo. Mas seja a crochetar, a lavar a loiça, a tomar banho, a conduzir, há sempre oportuni...