
Há uma semana, tinha ido de madrugada às urgências. Contracções intensas de 10 em 10 minutos e um mau estar que se arrastava há dias. O médico de serviço confirmou a dilatação que a médica tinha diagnosticado no dia anterior (2,5cm) e confirmou que estava para breve. Aconselhou-me a voltar a casa, passear na manhã seguinte e regressar quando as contracções estivessem espaçadas em 5 minutos.
Assim fizémos. Levantei-me determinada a acelerar o processo (caso contrário, no dia seguinte às 8.00 a médica queria fazer a indução). Andei a pé a um ritmo mais acelerado que o normal, apanhei uma molha, fui às compras e carreguei com sacos e cheguei à hora do almoço cheia de dores. Durante a tarde o cenário já era difícil de suportar, mas o silêncio desta casa, só com nós dois, foi importante. Dormitei uns 40 minutos e acordei com uma dor ainda mais forte. Anotava quando me lembrava os intervalos das contracções.
Os meus pais apanharam a Maria na Escola e ficou decidido que ficaria por lá. Eram 18h e já me preocupava com a dilatação que poderia ter (é a única desvantagem deste processo, saber em que ponto estamos. Se é cedo ou tarde demais) e a hora era de trânsito. Tinha receio de fazermos uma viagem para o Hospital atribulada.
Pegámos nas coisas e passámos por Queijas, a deixar a roupa da Maria. Deambulei por lá, até que decidi ligar à médica. Ordenou que fôssemos.
Chegados ao Hospital, tinha quase 5 cm de dilatação. Eram 20h quando dei por mim no quarto 2.11 (ao lado do que esperámos pela Maria), com uma enfermeira a picar-me a mão
e uma médica a picar-me as costas. Tudo muito rápido, com a televisão ligada na Sic Notícias.A minha médica tinha acabado as consultas e não tinha mais serviço naquele dia. Ficou por nossa conta.A epidural fez logo efeito e as contracções depressa aceleraram. 50 minutos depois o efeito tinha passado e as dores eram quase insuportáveis. Deu-me para arrepios de frio e maxilares a tremer. Chorei uma vez. Aguentei 15 minutos e pedi pelo reforço da anestesia. O reforço chegou, o efeito nem por isso. Comecei a sentir vontade de fazer força. Uma, duas vezes. A minha médica confirma que chegou a hora. Eu imploro uma anestesia que me ajude a colaborar. Dão-me.
(Durante este período, ao analisar o CTG, a médica repara pelos acelerados batimentos cardíacos da Marta que deve ter o cordão à volta do pescoço.)
Chego ao bloco tranquila. Desta vez, o cenário bem diferente. A minha médica, um pediatra muito bem disposto e com muitos anos de serviço e uma enfermeira que tinha estado presente no parto da Maria, na altura grávida. Todos bem dispostos. Convenço a minha médica a deixar-me ficar sentada e com os pés onde geralmente se colocam as pernas. Faço força umas cinco vezes e começo a perder alguma sensibilidade. O efeito da epidural com o reforço que pedi começavam a fazer efeito. Era preciso cortar o cordão antes da bebé sair.
Ouço a médica mandar sentar o pai. Diz que não está ali para tratar dele. Quem o substitui a segurar-me no pescoço é o pediatra e oiço a médica, com alguma pena dizer que não gosta daquela anestesia de última hora e que infelizmente me vai ter de cortar (ali fiquei triste, desde o início as perspectivas eram animadoras). Mas continuou o processo, uma ventosa colocada, fazer força uma vez para a Marta sair parcialmente e parar (também porque ela tinha a cara virada para a frente e os cuidados eram maiores). Cortou o cordão (e descobre que o mesmo tinha um nó verdadeiro-expressão dela) e faço força mais umas duas vezes e nasce a Marta. Em cima de mim só vejo um pé lilás e oiço um choro alto, bem alto, que me fez deitar a cabeça para trás e respirar de alívio.
Eram 23h15m.
A partir daí, a festa continuou. A Marta ficou a ser vestida na sala ao lado, com a porta aberta, o Tiago foi vê-la, levou-a para o berçário uns minutos para aquecer e eu fiquei ali, a descansar e a ser cosida, ao som de conversas de outros bebés.
No recobro trouxeram-na para junto de nós. Não nos separámos mais. A mim, nem me ocorreu chorar. Só agradecer, agradecer, agradecer.